O Twitter oficial do Pyramids publicou, na quinta-feira da semana passada, que estava no meio de uma negociação que seria “uma das mais importantes do Egito e do Oriente Médio”. O resultado sairia em alguns dias. A promessa foi cumprida na noite de sábado, quando o Corinthians, às vésperas do clássico contra o São Paulo, anunciou a venda do meia Rodriguinho. Foi apenas o último integrante da barca de brasileiros que atravessou o Atlântico para atuar no clube que se auto-descreve na rede social como “a próxima geração do futebol do Oriente Médio”. Antes dele, haviam percorrido o percurso o técnico Alberto Valentim, do Botafogo, os atacantes Carlos Eduardo, do Goiás, Arthur Caíke, da Chapecoense, Ribamar, do Atlético Paranaense, e Keno, do Palmeiras.

Os olhos da diretoria não brilham apenas por brasileiros. Ela também tenta enfraquecer adversários diretos. Trouxe o zagueiro da seleção egípcia Ali Gabr, que era do Zamalek e passou os últimos seis meses emprestado ao West Brom, e se interessa pelo volante Tarek Hamed, outro membro do elenco da Copa do Mundo e do Zamalek. Mohamed Magdy chegou do Enppi, e Mohamed Fathi, do Ismaily. A última especulação coloca o francês Samir Nasri na lista de compras do Pyramids, o que seria certamente o jogador de maior renome internacional do projeto. A conta já está em aproximadamente US$ 40 milhões, muito acima do que os principais times do país costumam gastar em reforços.

Até o início deste mercado frenético, você provavelmente nunca tinha ouvido falar do Pyramids. E a explicação é muito simples: o clube não existia, pelo menos não com este nome, até o último mês de junho. Um dia depois da Arábia Saudita perder para o Uruguai, em Rostov-on-Don e ser eliminada da Copa do Mundo da Rússia, o bilionário Turki Al-Sheikh, presidente da Autoridade Esportiva Geral, equivalente ao Ministério dos Esportes do país, anunciou a compra do Al-Assiouty Sport. O clube de Asyut, cidade que fica 400 quilômetros ao sul do Cairo, foi fundado em 2008. Ganhou a segunda divisão do futebol egípcio em 2016/17 e foi o nono colocado da elite na última temporada. A primeira medida foi rebatizá-lo para Al-Ahram FC, o que, traduzindo do árabe, significa pirâmides.

O elenco foi reformulado. O ex-treinador do Al Ahly, Hossam El-Badry, tornou-se o presidente, para tocar as questões do dia a dia. “Agradecemos o investidor saudita por patrocinar o clube, o que vai melhorar o futebol do nosso país. Buscamos construir um time que seja capaz de competir local e regionalmente”, disse El-Badry, ao ser apresentado. Segundo o site Ahram Online. Ahmed Hassan, ex-Al Ahly e com quase 200 partidas pela seleção egípcia, também se juntou à direção. Hady Khashaba, histórico capitão do Al Ahly, estava no clube desde fevereiro e permaneceu como diretor de futebol. A experiência internacional chegou por meio de Ricardo La Volpe, veterano treinador argentino e novo diretor técnico do Pyramids.

A ligação de Turki Al-Sheikh com o Al Ahly não é coincidência. E com o futebol egípcio não é novidade. A primeira investida foi como presidente honorário do maior campeão nacional. A ideia era que ele fornecesse apoio financeiro, mas as relações com a diretoria se deterioraram ao ponto de o bilionário saudita chegar a processá-la. Alguns meses depois de abandonar a posição simbólica no Al Ahly, Al-Sheikh deu início ao projeto do Pyramids, provavelmente pensando que seria mais fácil começar do zero e tomar todas as decisões sem ser incomodado.

Al-Sheikh já havia causado furor no futebol local ao contratar o famoso apresentador de TV Amr Adib para a emissora de televisão saudita MBC Network. “Este é o apresentador mais caro do Oriente Médio, um Larry King árabe”, disse o saudita, em um vídeo em que ambos aparecem. De acordo com o Haaretz, Adib ganhará US$ 3 milhões por ano, além de US$ 500 mil em acordos de patrocínio. O jornalista tem um alcance gigantesco no mundo árabe, com suas análises esportivas e políticas. Apenas no Twitter conta com três milhões de seguidores. A perda de um patrimônio da cultura nacional para outro país deixou alguns egípcios insatisfeitos, segundo o maior jornal israelense.

Além de maior autoridade esportiva da Arábia Saudita, Turki Al-Sheikh também é presidente do Comitê Olímpico saudita e de outras entidades esportivas. Ganhou mais influência dentro da política local quando Mohammed bin Salman, 32 anos, tornou-se herdeiro do trono, em junho do ano passado. Ele assumiu a pasta dos Esportes em setembro e tem trabalhado como o braço esportivo do projeto de reformas econômica e culturais do príncipe, que deseja construir um país mais aberto, moderado e moderno. Uma das primeiras medidas concretas foi permitir que as mulheres sauditas dirigissem. No âmbito do futebol, liberou que elas entrassem em estádios legalmente pela primeira vez, no último mês de janeiro.

Entre os projetos de Bin Salman, está levar mais opções de entretenimento para a Arábia Saudita. Al-Sheikh, portanto, está tentando reformar o futebol local, afundado em dívidas e com fama de dar calote em jogadores. O passo seguinte é atrair grandes nomes da bola para atuar no país, o que já começou a acontecer com as chegadas de Fábio Carille, ex-treinador do Corinthians, para o Al Wehda, e Jorge Jesus, antigo comandante do Sporting, no Al Hilal. Ele também articulou a realização em Riyadh de um evento de WWE (luta livre), uma corrida de Fórmula E e a Supercopa da Itália da próxima temporada, entre Juventus e Milan, em janeiro.

Depois da estreia da Copa do Mundo, em que a Arábia Saudita foi goleada por 5 a 0 pela Rússia, Al-Sheikh publicou um vídeo descendo a lenha nos jogadores. “Fizemos tudo que era possível pelos jogadores da seleção. Nós cobrimos todas as despesas deles por três anos, contratamos a melhor comissão técnica (liderada por Juan Antonio Pizzi), e eles não cumpriram com nem 5% do que era exigido. Precisamos aceitar a realidade de que as habilidades e as capacidades deles são essas mesmas”, disse, segundo o Telegraph. “O time adversário nem precisou fazer um grande esforço para vencer o jogo. Agora, precisamos esquecer esse sentimento de vergonha e começar a pensar na próxima partida”.

O jornal inglês afirma que ele também ameaçou processar a beIN Sports, por comentários durante a transmissão da partida que considerou tendenciosos contra a sua seleção. A emissora de televisão é baseada em Doha, no Catar, país com o qual a Arábia Saudita trava uma guerra diplomática. Desde o ano passado, os sauditas lideram um bloqueio de países vizinhos à sede da próxima Copa do Mundo. A beIn Sports voltou a ser criticada depois da eliminação da Arábia Saudita, quando Al-Sheikh foi ao Twitter negar rumores de que teria sido demitido do seu cargo de presidente da Autoridade Esportiva Geral e soltou ataques contra Joseph Blatter, cujo comando da Fifa premiou o Catar com o Mundial de 2022, Michel Platini, um dos grandes apoiadores da candidatura catariana, e o atual presidente da Uefa, Aleksander Ceferin.

Qual o objetivo de Al-Sheikh ao investir tanto dinheiro no Pyramids? Politicamente, alinha-se com o projeto de modernização da Arábia Saudita, uma vez que o Egito é o polo cultural do mundo árabe. Esportivamente, tentar quebrar a hegemonia do Al Ahly e do Zamalek, que conquistaram os últimos 14 títulos da Premier League e, juntos, somam 52 troféus do campeonato nacional.