Por Pedro Reinert

Com derrota por 2 a 1 para o México, em Rostov, a Coréia do Sul ficou com poucas chances de se classificar às oitavas de final da Copa do Mundo. Precisava derrotar a Alemanha, nesta quarta-feira, torcer para o México ganhar da Suécia e ainda recorrer aos critérios de desempate em uma emocionante tríplice igualdade. Foi por pouco: Ciente das possibilidades escassas, Heung-Min Son, estrela sul-coreana e autor do único gol marcado pela equipe na competição, foi retratado às lágrimas no vestiário. No fim das contas, a derrocada serviu de motivação. Os asiáticos seguraram a Alemanha a partida inteira e conseguiram fazer 2 a 0 nos minutos finais. Não se classificaram porque a Suécia acabou derrotando o México e subiu para os mesmos seis pontos dos latinos. Ficou em terceiro lugar.

Mas dizem que o choro pesado de Son, depois de perder para o México, não se resumia apenas ao revés em campo. Você já deve ter visto por aí que ele estaria a alguns passos de se juntar ao rigoroso serviço obrigatório do exército sul-coreano. Mas os motivos, implicações, exceções e consequências da situação ainda não são muito claros e estão cheios de informações conflitantes. Por exemplo: se a Coreia do Sul chegasse às oitavas de final, o jogador não estaria livre da sua obrigação com o Exército.

O contexto

O serviço militar é realmente obrigatório para todos os homens de 18 a 35 anos com nacionalidade sul-coreana por no mínimo dois anos. O alistamento no exército sul-coreano ainda é rigorosamente mandatório principalmente por conta das tensões políticas envolvendo seus vizinhos nortistas, como uma medida de extrema cautela em caso de deflagração de guerras ou atentados. Aliás, antes da Guerra da Coréia, que aconteceu entre 1950 e 1953, o alistamento era opcional – o governo tornou-o obrigatório apenas em 1957, e fez muitas reformas (quase todas bem rígidas) desde então, até atingir sua base definitiva em 1972.

Mesmo assim, ficaram famosos os casos de celebridades (incluindo atletas, é claro) que escaparam dos coturnos, e essas exceções ainda são motivos de grandes polêmicas. Por exemplo, na Copa do Mundo de 2002, a Coréia do Sul teve o azar de cair em um grupo complicado, junto de Portugal, Estados Unidos e Polônia. Nasceu, então, o temor de que os sul-coreanos seriam os primeiros anfitriões a serem eliminados ainda na fase de grupos de um mundial – o que acabou acontecendo apenas com a África do Sul em 2010. Como o Japão, a outra nação anfitriã (e rival histórica da Coréia), caiu em um grupo menos pedregoso (Bélgica, Rússia e Tunísia), o governo decidiu oferecer uma proposta excepcional para a equipe como forma de incentivo: todos os atletas seriam isentos do serviço militar caso se classificassem para a segunda fase da Copa. E, bom, eles realmente se motivaram, com uma inestimável contribuição da arbitragem: quarta colocada geral do mundial, desbancando Itália e Espanha no mata-mata.

O verdadeiro problema veio quatro anos depois, mas não na Copa do Mundo da FIFA. Em 2006, foi disputado o primeiro Clássico Mundial de Beisebol – um torneio de seleções de caráter global -, no qual os sul-coreanos chegaram até a semifinal. Não houve incentivo ou proposta de isenção para os atletas por parte do governo, depois da ótima campanha no campeonato. Como o beisebol é o esporte mais praticado e popular da Coreia do Sul, houve uma forte represália da opinião pública em solidariedade ao time que chegou tão longe quanto Park Ji-Sung e companhia em 2002. Os oficiais do governo cederam e eximiram a equipe de beisebol de suas obrigações militares.

Se onde come um, comem dois, e onde comem dois, comem três, sem demora as associações de outros esportes se posicionaram para se beneficiar da decisão. Atletas de judô, tênis, badminton, arco e flecha, basquete, natação e inúmeras outras modalidades procuraram gozar dos mesmos direitos meritocráticos cedidos aos jogadores de futebol e beisebol – o que de fato seria justo. Mas cada um dos esportes tem o seu “mundial” e cada “mundial” tem um peso e uma proporção diferente. Em 2007, o governo chegou à conclusão de que a isenção do serviço militar seria dada às equipes que tivessem sucesso em torneios nos quais todos os esportes estivessem englobados e nivelados (no que diz respeito ao valor das conquistas).

No fim das contas, decidiu-se o seguinte: apenas uma medalha (de bronze, prata ou ouro) nas Olimpíadas ou uma medalha de ouro nos Jogos Asiáticos podem desobrigar um atleta a servir ao exército. Nada de Copa do Mundo da FIFA. Nada de Copa da Ásia. Son, portanto, não teria motivos para chorar depois da derrota para o México, exceto por causa da sorte da Coreia do Sul no Mundial da Rússia.

Chances que vêm, chances que vão

O resto da ascendente carreira de Heung-Min Son depende de seu desempenho nos próximos Jogos Asiáticos, que acontecerão na Indonésia, em agosto deste ano. Os jogos de futebol, especificamente, começarão no dia 15/08, e a final será no dia 01/09. Apenas a vitória interessa à jovem equipe sul-coreana. A Coréia do Sul é a atual campeã e a maior vencedora da competição nos Jogos Asiáticos, junto do Irã, com quatro medalhas de ouro cada. E a convocação de cada time é no mesmo modelo das Olimpíadas: dezoito jogadores com menos de 23 anos de idade e três jogadores mais velhos entre eles.

Na verdade, o atacante já poderia estar livre de suas obrigações patrióticas e não dar a mínima para toda essa história, como boa parte de seus parceiros de seleção, mas houve algumas pedras nos caminhos trilhados por ele em sua trajetória profissional.

Com 19 anos de idade, em 2012, Son era um dos escolhidos do então treinador Myung-Bo Hong para defender sua seleção em Londres, mas o próprio atacante optou por não disputar aquela edição das Olimpíadas. Em entrevista à revista alemã Kicker, o sul-coreano disse que “na Coréia, jogar as Olimpíadas tem um valor especial, mas eu quero acelerar as coisas no Hamburgo. O que importa agora é dedicar todo o meu tempo treinando aqui para entrar de vez no time”. O time de Hong acabou ficando com a medalha de bronze, mesmo sem sua principal joia.

Mais tarde, nos Jogos Asiáticos de 2014, a Coréia do Sul foi campeã no futebol, novamente sem a presença de Son. Dessa vez, atuando pelo Bayer Leverkusen, ele não teve culpa; Rudi Völler (diretor) e Roger Schmidt (técnico) não permitiram que seu craque fosse liberado para representar seu país na competição continental, já que ela acontece em agosto, com a Bundesliga (e a maioria dos outros campeonatos europeus) já em andamento.

Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, o atacante foi um dos jogadores com mais de 23 anos a serem convocados para a disputa. Com ele em campo, porém, a seleção parou nas quartas de final, com uma dolorosa derrota por 1 a 0 para Honduras, na qual o atacante perdeu muitas (muitas!) chances de gol. Sua parcela de “culpa” pelo resultado da partida foi tão nítida que o técnico Tae-Yong Shin revelou que Son chorou até a noite seguinte e não comeu nada no dia depois da eliminação.

Existe Plano B?

Heung-Min não tem dado sorte com a seleção e seu futuro depende de uma campanha vitoriosa nos jogos de agosto. Mas haverá outros quarenta e nove países na disputa, e todos buscando o mesmo prêmio final. O que acontece se a Coréia do Sul não vencer?

Se Son não se sagrar campeão de futebol nos Jogos Asiáticos deste ano, ainda há algumas (poucas) possibilidades de o garoto evitar sua ingressão no exército: uma dolorosa e uma improvável.

A primeira, dolorosa, é que o atacante sofra uma lesão grave; o deslocamento profundo de um membro ou a ruptura de um ligamento, por exemplo, são lesões passíveis de liberação do serviço militar, de acordo com as regras do governo. É claro que alguns atletas já foram flagrados deslocando seus próprios ombros para tentar se safar do exército, mas os fiscais responsáveis já fecharam essa lacuna.

A segunda possibilidade, improvável, é o General Chan-Soo Ki, Ministro da Mão de Obra, abrir uma exceção considerando o célebre status de Son (que, dadas as devidas proporções, é um tipo de Neymar sul-coreano) e postergar seu alistamento. Mas, para se ter uma ideia de quão firme é a lei, um dos maiores ícones da música pop asiática, o cantor G-Dragon, anunciou um hiato em sua promissora carreira para tirar suas obrigações patrióticas da frente. E se nem as estrelas do K-Pop conseguem uma brecha, imagine um atleta que joga no exterior.

Em terceiro (e quase impossível) caso, é possível recorrer na justiça para que ele tente disputar as Olimpíadas de 2020 no Japão e lutar por uma medalha, mas as chances do governo liberá-lo são praticamente nulas. A última alternativa para se safar do recrutamento é simplesmente ignorá-lo. Para isso, o atacante só precisaria legalmente migrar para outro país. O negócio é que, por questões culturais e até judiciais, Son nunca mais tocaria os pés no país onde nasceu.

Outro grande problema do camisa 7 dos Spurs é que o tempo corre contra ele. As leis do Ministério da Mão de Obra sul-coreano dizem que um cidadão que nunca teve contato com o serviço militar, pode se abster da obrigação até completar 27 anos de idade, ou até os 24, caso o dito cujo não estude ou trabalhe no exterior, que não é o caso do jogador. Ou seja, Son deve voltar para a Coréia do Sul antes de completar seu 28º aniversário, em 8 de julho de 2020 (ele completa 26 anos na semana que vem), pouco antes do início da temporada 2020/21 da Premier League.

O atacante Chu-Young Park, ex-Arsenal e Monaco, estava próximo da data limite para se apresentar qo exército em 2011, quando jogava na equipe monegasca, mas conseguiu um visto de residência temporário de 10 anos, cedido pelo governo de Mônaco, medida que lhe deu tempo para disputar as Olimpíadas de 2012 e levar a medalha de bronze. Este episódio gerou uma enorme polêmica na Coréia do Sul, obrigando o governo local a reeditar as normas para alistamento, considerando trabalhadores em atividade no exterior que possuíam um visto de residência. Outra brecha que poderia facilitar a vida de Son, mas que já foi fechada. Em resumo, o jogador mais talentoso dessa geração sul-coreana definitivamente não teve a mesma sorte de alguns outros futebolistas conterrâneos e contemporâneos.

Um hiato?

Bem, vamos trabalhar, então, com uma hipótese palpável e possível: a Coréia do Sul não vence a competição de futebol nos próximos Jogos Asiáticos e Heung-Min Son está fadado a perder dois anos de sua carreira esportiva no exército. Como isso vai funcionar? Ele vai para a linha de frente? Vira guarda-costas de membros do governo?

Digamos que, dada sua situação, lembrar das corridas pelo flanco esquerdo do Tottenham será sua maior fonte de adrenalina por algum tempo. Isso porque o jogador já se formou no ensino médio, em Dongbuk, mas abandonou a faculdade posteriormente, quando foi para o Hamburgo, tornando-o um recruta de quarto escalão, qualificado apenas para fazer serviço cívico. Por entrar no exército tão tardiamente e sem um diploma de graduação, Son não é considerado apto para ser um soldado.

Os homens recrutados para atuar no serviço cívico basicamente servem para cuidar do bem estar de cidadãos em instituições públicas, como escolas, hospitais e afins, ou fazer trabalho burocrático (e braçal, ao melhor estilo “Tempos Modernos”) para órgãos do governo. Uma das estrelas da Premier League pode passar dois anos do auge de sua carreira tomando conta de crianças em um jardim de infância, cuidando de idosos debilitados em clínicas e asilos ou carimbando milhares de documentos em um escritório, das nove da manhã às seis da tarde, de segunda à sexta (com um salário base de aproximadamente R$ 800 por mês).

A situação fica pior. Os homens recrutados para este tipo de serviço comunitário na Coréia do Sul são liberados para terem outros empregos em entidades de origem militar e em horários que não entrem em conflito com o expediente oficial, então o atacante até poderia seguir com a carreira de futebolista atuando na liga coreana, especificamente com a camisa do Sangju Sangmu FC (da primeira divisão) ou do Asan Mugunghwa (da segunda divisão), que são times comandados pelo exército e inteiramente compostos por recrutas em seus dois anos de serviço obrigatório. O Asan Mugunghwa, na verdade, ainda abraça policiais e bombeiros. O problema é que Heung-Min largou a faculdade para jogar na Europa, e as equipes aceitam apenas dois tipos de jogadores sul-coreanos: os que já tem diploma de graduação e os que ainda não ingressaram no ensino superior.

Son também não vai poder jogar por nenhum clube da terceira divisão (na Korean National League, uma liga semi-amadora sem afiliação à K League), já que os jogos deste campeonato acontecem às tardes de segundas, quartas e sextas. O único jeito do atacante seguir jogando bola seria se juntando a um time da K3 League, a quarta divisão sul-coreana, composta por times totalmente amadores.

A moral da história é que Son é um grandíssimo de um azarado. Hoje em dia, o craque certamente se arrepende amargamente de ter rejeitado o convite de estar nas Olimpíadas de 2012, ou de não ter brigado um pouco mais com Völler e Schmidt para disputar os Jogos Asiáticos de 2014. Son agora vai decidir seu destino com a bola no pé, em sua última tentativa de não trocar os campos de futebol pelos quartéis.

Por esse monte de informações, devo agradecimentos ao usuário do reddit u/noschooliscool – jovem sul-coreano que, por acaso, está servindo ao exército de lá -, ao amigo Henrique Letti, que recomendou a postagem que deu luz ao texto, e ao pessoal do portal Tavern of the Taeguk Warriors, que ajudou com a apuração.