Falhas são parte do jogo de futebol. Qualquer um que se submete à pressão de entrar em campo estará sujeito a elas. Ainda mais um goleiro, cujos mínimos deslizes podem resultar em grandes desastres. Loris Karius errou na final da Liga dos Campeões, e duas vezes. Saiu taxado por muitos como vilão, diante de seus vacilos contra o Real Madrid. A história daquela partida, porém, provavelmente é diferente do que muitos supunham. O arqueiro do Liverpool se submeteu a exames no Hospital Geral de Massachusetts, ligado à Universidade de Havard, considerado o quarto melhor hospital dos Estados Unidos, e no Hospital de Reabilitação Spaulding, centro oficial de medicina física e reabilitação de Harvard. Os resultados indicaram que o alemão sofreu uma concussão durante o choque do cotovelo de Sergio Ramos com o seu rosto (veja as imagens abaixo), minutos antes do primeiro tento dos merengues, e teve capacidades afetadas na continuidade do jogo.

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Os rumores começaram a surgir na imprensa inglesa durante esta semana. Assim, os hospitais publicaram um comunicado esclarecendo a situação de Karius. A carta é assinada pelo Dr. Ross Zafonte, responsável pelos centros médicos e especialista em traumas cerebrais. O americano tem mais de 300 artigos científicos publicados sobre concussão e outros distúrbios neurológicos, além de estudar atletas por mais de 20 anos. Também é o principal pesquisador do Estudo da Saúde dos Jogadores de Futebol Americano, no qual se debruça sobre o impacto das concussões nos esportistas. Também assina a Dra. Lenore Herget, fisioterapeuta que faz parte da equipe médica do New England Patriots e trabalha como consultora em reabilitação de concussões às outras franquias esportivas da região – Boston Celtics, Boston Red Sox, Boston Bruins e New England Revolution.

“Recebemos numerosas ligações sobre o estado de saúde do goleiro do Liverpool, Loris Karius. Com a permissão dele, estamos fornecendo informações sobre sua situação médica, em esforço para impedir, quando possível, a disseminação de informações incompletas e errôneas. Em 31 de maio, Karius foi submetido a um exame abrangente. Depois de revisarmos cuidadosamente o filme do jogo e integrarmos uma história detalhada (incluindo seus sintomas subjetivos presentes e imediatos após o contato) com exames físicos e métricas objetivas, nós concluímos que Karius sofreu uma concussão durante a partida de 26 de maio”, escrevem os especialistas.

“No momento de nossa avaliação, os principais sintomas residuais e sinais objetivos em Karius sugeriam que uma disfunção visual existia e que provavelmente ocorreu logo após o trauma. Outras áreas notadas de disfunção sintomática e objetiva também persistiram. Pode ser possível que tais déficits tenham afetado seu desempenho. Também notamos que Karius relatou uma melhoria significativa e constante desde o evento concussivo, e esperamos que ele faça uma recuperação completa com base nos resultados do exame. Esperamos que, com o tratamento e os protocolos de atividade prescritos, ele continue melhorando. Nós encorajamos a vigilância e a ênfase na segurança em seu eventual retorno à atividade plena”, concluem, dizendo que não se manifestarão mais sobre o assunto.

Com o comunicado, fica claro o esforço do dono do Liverpool, John W. Henry, em averiguar a situação do goleiro. O empresário americano, que possui seus negócios concentrados em Boston e é proprietário dos Red Sox, certamente encaminhou Karius aos centros médicos especializados. Os exames concluem que o choque com o cotovelo de Sergio Ramos podem ter causado os seus erros. A disfunção na visão tende a explicar o primeiro gol, quando não notou Karim Benzema e entregou a bola nos pés do atacante adversário. Além disso, as consequências da concussão também podem ter provocado o movimento em falso que permitiu Gareth Bale a anotar o terceiro tento.

As indicações dos especialistas não mudarão o resultado da Liga dos Campeões e nem diminuirão as impressões que muitos terão de Karius, execrado por sua atuação. Alguns provavelmente o acusarão, torpemente, de inventar uma desculpa para os vacilos. No entanto, podem mudar o seu futuro próximo. Se parecia difícil que o arqueiro recobrasse seu moral para seguir em frente no Liverpool, as evidências talvez providenciem um voto de confiança à sua continuidade. Há uma nova percepção, que exime o alemão ao menos parcialmente de sua culpa. De qualquer maneira, pelo ocorrido em Kiev, ele acaba mais suscetível às pressões, independentemente da concussão.

Imaginar o futuro de Karius, no entanto, não passa de especulação e seus próximos passos só serão conhecidos com o tempo. Neste momento, é preciso olhar ao passado. Há uma série de perguntas que ficam sobre o episódio, e que colocam em xeque não apenas a postura dos membros do Liverpool, como também do protocolo para concussões no futebol.

– Karius não percebeu as consequências da concussão? Não sentiu que a pancada limitou sus ações?

– Os médicos do Liverpool não perceberam as consequências da concussão? Não viram as limitações demonstradas pelo goleiro como consequências de um trauma cerebral?

– Não seria melhor tirar o goleiro preventivamente, caso tenham percebido os sintomas após o choque?

– Não seria melhor tirar o goleiro após a primeira falha, quando indicava não estar tão bem?

– Karius não poderia comunicar seus sintomas imediatos durante o jogo e alertar algum companheiro?

Na frieza da situação, é muito mais fácil questionar. Mas Karius certamente não desejava deixar o campo, quando poderia viver o maior momento da carreira, imaginando que os sintomas da concussão logo passariam, se estes foram percebidos – e longe de querer, aqui, vilanizar o camisa 1 por isso. Os médicos do Liverpool talvez também tenham preferido manter o goleiro, sem supor o que ocorreria logo depois, numa partida na qual o time precisou queimar sua primeira substituição logo cedo. Possivelmente, nenhuma das partes teve noção da gravidade e das consequências do que houve. As hipóteses são muitas, enquanto a única certeza é que, sim, o trauma pode ter afetado o camisa 1. Por isso mesmo, se faz tão necessário se debruçar e investigar os detalhes ocorridos, para evitar novos episódios tão custosos.

O esporte em geral se acostumou a menosprezar as concussões, algo que só vem mudando durante os últimos anos, inclusive com o auxilio do Dr. Ross Zafonte. O futebol, ainda mais, negligencia as consequências dos traumas e não os trata com a devida seriedade. Em 2013, houve um movimento na Premier League quanto ao assunto, depois que Hugo Lloris voltou a campo mesmo depois de sofrer uma concussão. O tema acabou se perdendo, sem um protocolo unificado que oriente competições e equipes sobre o procedimento imediato. Não à toa, há episódios de jogadores que voltam a campo e, depois, sequer lembram o que ocorreu.

A iniciativa precisa partir da Fifa. E a entidade internacional costuma ser criticada por especialistas sobre o tema. Em 2017, um estudo feito por médicos canadenses apontou que a Copa do Mundo de 2014 não seguiu os protocolos para os traumas na cabeça. Quatro médicos analisaram imagens dos 64 jogos, avaliando se os jogadores mostravam sintomas da concussão. Dos 81 choques na cabeça, 67 resultaram em sintomas. Em 16% desses casos, os atletas não receberam atendimento médico. Outros 63% foram atendidos em campo (por médicos, companheiros e/ou árbitros) e voltaram a jogar, enquanto 16% foram devidamente examinados pela equipe médica do lado de fora. Somente três atletas deixaram a partida, entre eles Christoph Kramer, que se lesionou no primeiro tempo da decisão contra a Argentina e não se lembra do jogo. Ainda conforme os médicos responsáveis pelos estudos, o tempo médio de atendimento foi curto, o que não permitiria uma avaliação adequada à maioria absoluta dos jogadores.

Desde 2014, a Uefa permite que o árbitro pare o jogo por três minutos, em caso de concussão, para que o atleta seja avaliado – algo que a Fifa discutiu na época, mas não confirmou, ou ao menos não divulgou abertamente a informação. A medida, em tese, diminuiria a pressa em retornar a campo. Ainda assim, não se vê aplicada. Já neste ano, a Fifa apontou que a revisão de vídeo também estará disponível aos médicos durante a Copa do Mundo, para que diagnostiquem as concussões – em medida parecida com a já adotada no rúgbi. Ainda assim, é um exemplo isolado, quando o problema se torna bem mais amplo, e depende de debates mais profundos dos dirigentes, devidamente respaldados por médicos, fisioterapeutas e outros especialistas. Dentro das regras e particularidades do futebol, a prioridade está em atender e diagnosticar da melhor maneira.

A dinâmica do jogo é uma desculpa comum contra o protocolo, imediatista. Porém, a saúde dos jogadores acaba prejudicada, e isso deveria ser o assunto principal. Que a história de Karius, ao menos, traga algum reflexo positivo depois de tudo. O que é difícil de acreditar, considerando que não foi o único exemplo e não será.