A crise na seleção da Dinamarca, por ora, está resolvida. A federação e a associação de jogadores ainda não chegaram a um acordo sobre os ganhos dos atletas em suas aparições pela equipe nacional. No entanto, os profissionais irão representar o time na estreia da Liga das Nações, contra Gales, na próxima semana. Assim, o momento de glória aos amadores que defenderam o país ficará restrito ao amistoso contra a Eslováquia, em que seguraram uma honrosa derrota por 3 a 0, mesmo com apenas um dia para treinar. Oportunidade da vida a diversos trabalhadores comuns, que se dedicam a clubes da terceira divisão para baixo no campeonato local.

Um desses caras é Christian Bannis. O meio-campista defende o Tarup-Paarup, da terceira divisão dinamarquesa, e trabalha em uma companhia de seguros. Durante o início da semana, recebeu a convocação e precisou perguntar ao seu chefe se poderia pegar alguns dias de folga, viajando à Eslováquia para representar a equipe nacional. Felizmente, o patrão foi compreensivo. Em campo sua missão foi acompanhar ninguém menos que Marek Hamsik, principal referência do time adversário. Conseguiu se dar bem contra o ídolo do Napoli.

“Não é o tipo de ligação que você espera. Eu estava trabalhando quando recebi a convocação, foi muito engraçado. Apenas perguntei ao meu chefe e ele disse que não havia problemas. Foi uma experiência muito boa estar com a seleção. Fizemos piadas o tempo todo. Eu nunca imaginaria que poderia jogar uma partida tão grande como essa. Estávamos muito felizes nos vestiários, por aquilo que fizemos”, declarou Bannis, em entrevista ao ESPN FC.

“Sim, certamente é um tipo diferente de jogo. Geralmente atuo na terceira divisão. Aqui, quando você pega a bola, precisa decidir o que fazer muito rapidamente. No entanto, foi uma grande alegria e, logicamente, uma experiência fantástica atuar contra jogadores renomados. Tínhamos expectativas altas por aquilo que vimos e não fomos surpreendidos pela Eslováquia. Assistimos a vídeos e conhecíamos muitos jogadores antes. É um excelente time e estamos felizes em ter a oportunidade de enfrentar esses atletas de elite”.

Já o herói da noite foi o goleiro Christoffer Haagh. Se o placar ficou barato pela diferença entre as equipes, o arqueiro merece consideração. Ele, afinal, já tinha defendido a seleção antes – mas a de futsal. Não teve problemas para se adaptar à meta maior ou ao gramado. Acumulou milagres. “Trabalho com administração. Além disso, tenho minha própria empresa sobre coisas de goleiro e jogo futsal. Ontem, quando cheguei ao escritório do meu chefe e pedi alguns dias de descanso, ele me disse que poderia ir”, contou, ao ESPN FC.

Sentimento resumido por Daniel Holm, ponta do Skovshoved, da terceira divisão: “Essa partida significa muito para mim. Desde que eu era criança, sempre sonhei com a seleção. Foi especial. Não acho que a Eslováquia se esforçou ao máximo. Eles jogaram um pouco mais devagar, mas ao mesmo tempo você vê que eles estão em um nível mais alto. Fiquei um pouco nervoso, mas é normal. É uma situação específica para a Dinamarca, mas faço isso pelo futuro da seleção. Estou feliz com minha oportunidade. Mas a seleção tem que jogar com os melhores, espero que eles voltem para o jogo contra Gales”.

Sonho compartilhado ainda por Kevin Jorgensen, um carcereiro que também estava em campo. Ou pelo YouTuber Rasmus Johansson, famoso por vídeos de futebol freestyle. Pelo capitão Christian Offenberg, um vendedor; pelo carpinteiro Christian Bommelund Christensen; pelo mecânico Anders Fonss; até mesmo pelo estudante Kasper Skraep, que sequer se formou no colegial, mas já vestiu a camisa vermelha. Uma ocasião atípica que pode parecer vergonhosa para alguns, mas significa o maior momento da vida a tanta gente simples. Aí está a magia.