A Rússia está um pouco mais animada do que parecia, a Arábia Saudita é um tanto pior do que se poderia prever, e não que o Brasil está vazio na tarde de domingo, né, mas a impressão, para um meio-dia de quinta-feira com as duas piores seleções no acessório ranking da Fifa, é que a Copa do Mundo começou com um divertido jogo de hora de almoço.

Mas a melhor notícia do primeiro dia de Copa é que o time da Rússia até ofereceu seu ar da graça, mas talvez não tanta graça quanto poder assistir uma abertura de Mundial sob a narração de uma mulher, jovem, mineira. Numa função pasteurizada, que produz narradores diante de um mesmo padrão de gênero, média de idade e sotaque – são homens, já com seus bons anos de casa e majoritariamente paulistas ou cariocas -, novos ares são mais do que bem vindos, ufa!, e por isso registro meu apoio a Isabelly Morais, que narrou os cinco gols russos na Fox Sports 2 e abriu a temporada mundialista de vozes femininas na TV.

Porque, ao fim do mês, a Copa do Mundo se torna a mais influente cobertura jornalística que pode existir. Por muitos anos (e o especial aqui mesmo, na Trivela, não me deixa mentir) se lembrará de mais um Mundial em que os botecos ecoam Galvão Bueno, os ex-jogadores se tornam comentaristas efêmeros nas transmissões, a ESPN faz uma falta danada com sua presença crítica dos bons tempos, e um canal secundário, mas que está lá, no caminho do zapear, se propõe a contar a história do Mundial com acento feminino. A história do jornalismo esportivo se conta a cada quatro anos, e o capítulo de Isabelly e as colegas de casa é um golaço.

Falando em novos ares, não há muitas narrativas possíveis para o desempenho da seleção espanhola a partir de hoje. O presidente da Federação Espanhola Luis Rubiales demitiu Julen Lopetegui com um argumento autoritário mas muito justo, o de que não poderia ser o último a saber do acerto do técnico da Espanha com o Real Madrid. E quando o treinador se apresenta ao clube um dia depois negando que tenha errado na forma com que conduziu o acordo com o novo emprego, olha, o futebol precisa saber o que quer da vida. É tudo um negócio, sabemos, mas sensibilidade não faz mal a ninguém.

Voltando às narrativas: Fernando Hierro tem uma chance rara. Se os resultados vierem, especialistas voltarão até o mapa de calor do ponta-esquerda de seu ordinário Oviedo, trabalho filho único num meio de tabela de segunda divisão local, para encontrar os dedos do ex-zagueiro como técnico da Roja; se não, o técnico acidental terá poucos pesos nas costas diante de preparação, convocação e time que lhe caíram junto do boné. No meio disso, nossas teorias sobre relacionamento humano, encarnando terapeutas de boteco e psicanalistas de balcão a cada esquina.

Eu acho, puro palpite, que os boleiros gostam quando se apropriam de um certo vazio no comando. E essa é uma geração não só de vencedores, como de líderes, logo na maior turma da história de um país apaixonado por futebol. Estamos falando de um elenco com o capitão do Barcelona e o capitão do Real Madrid, ambos campeões do mundo, com uma moral do tamanho da Rússia no vestiário. Se tiver um olho no olho e uma vergonha na cara, podem reverter o baixo astral.

De toda forma, não custa lembrar: mas o senhor já combinou com os portugueses?