Na sala de casa, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro tem uma estante quase sem espaço livre, daquelas de limpar com um cantinho de pano úmido entre os troféus amontoados de todos os tipos, taças, placas, bolas, caixinhas de veludo, certificados, flâmulas. Mas faltava uma peça.

Faltava um motorádio de Copa, um jogo mundialista nos almanaques para sempre que ele pudesse apontar para os netos, uma jornada do maior torneio de todos que tivesse acontecido sob o controle do português. Não falta mais.

Em sua quarta Copa, a terceira como dono do time e depois de aparições frustrantes na África do Sul e no Brasil, Ronaldo precisou de três bolas para colocar definitivamente seu repertório na primeira prateleira do futebol de seleções. O atacante que pedala e deixa o zagueiro no bote atrasado, que não perde pênalti sob pressão, que chuta com firmeza do jeito que a bola vem e que espera a falta porque confia na batida, faz o respiro hortência e guarda. Bem-vindo: Ronaldo está na história das Copas do Mundo.

E melhor, diante da Espanha. A Espanha que o fez virar protagonista e, por que não, gente grande. A Espanha que vê a última Copa do Mundo do mais talentoso jogador de sua geração mais vitoriosa, e que jogou bem: a linha com Iniesta, Silva e Isco funcionou, contando ainda com o melhor jogo internacional de Diego Costa.

E aí está o grande feito de Ronaldo. A Fúria fez um senhor jogo, dominou ao seu estilo e, se algumas vezes o tiki-taka ja foi acusado de pouco incisivo, dessa vez os baixinhos viram seu jagunço pelear sozinho, ir à guerra no meio de cinco portugueses e derrubar uma defesa inteira. Diego matador, meio-campo controlando, jogada de bola parada eficiente, um lindo chute para virar o jogo. Era para ser a noite da resposta espanhola, mas talvez nunca um jogador precisou de tão poucos toques na bola para colocar a partida de baixo do braço. Jogaço-aço-aço, dos melhores do século.

E se ao clássico de grande expectativa um grande jogo, ao Uruguai… Uruguai. A seleção com mais cara de time que há, unida ao limite com seu treinador e líder, prometeu uma formação com um meio mais técnico e arejado, mas que no fim das contas presenteia o amante da Copa com o seu mais tradicional quadro: muita entrega, uma comemoração efusiva perto do estouro do tempo e Tabárez, o grande personagem da turma, com um Uruguay, Nomá! gritado à bengala. Cavani e Suárez não foram Cristiano Ronaldo, mas a Celeste tem também seus jeitinhos de enfileirar vitórias. Quem sabe um encontro desses nas oitavas de final.