Copa Africana de Nações: o passado do torneio reconstrói a história do continente

A história da Copa Africana de Nações se confunde com a descolonização do continente. A criação do torneio, em 1957, caminhou lado a lado com as independências e o Pan-Africanismo. Se a primeira edição contou com os únicos três países filiados à recém-criada Confederação Africana de Futebol, as guerras de libertação foram enriquecendo a competição a partir da década de 1960. Um a um, os países descolonizados se juntavam à entidade e a edição de 1962 contou com nove inscritos. Dez anos depois, já eram 23.

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Mais do que isso, é possível perceber os meandros políticos a cada vez que a Copa Africana de Nações foi realizada. Em diversas oportunidades, o futebol acabou utilizado para justificar o poder dos mais diferentes tipos de governo. Ditadores se aproveitaram de conquistar para tentar se legitimar. O que ainda assim não tirou brilho do esporte. Afinal, ele também serviu como um grito de liberdade para muitas lideranças que prezaram pela democracia.

Em 2017, o contexto socio-político não deixa de acompanhar a CAN. O Gabão recebe o torneio sob crises. A economia do país sofre o impacto da queda do preço do petróleo, seu principal produto de exportação. Sindicatos organizam greves gerais durante a competição. Enquanto isso, também há um conflito político diante da reeleição do presidente Ali Bongo, que encabeça o que é chamada de “ditadura familiar”, no poder desde 1967. Respaldada pela União Europeia, a oposição contesta o resultado das urnas e os confrontos nas ruas gabonesas se tornaram comuns nos últimos meses. Há, inclusive, um pedido de boicote aos jogos.

Abaixo, resgatamos e atualizamos um especial publicado originalmente em 2012, sobre a história política da Copa Africana de Nações. Confira, edição por edição, estes episódios:

1957 – Sudão

Campeão: Egito
Decisão: Egito 4×0 Sudão [Ad-Diba (4x)]
Técnico: Mourad Fahmy
Países participantes: 3
Países estreantes: Egito, Etiópia e Sudão
Artilheiro: Mohamed Ad-Diba (Egito), 5 gols
Melhor jogador: Mohamed Ad-Diba (Egito)

– Por seu poder político e influência histórica, o Egito foi convidado para sediar a primeira edição da Copa Africana de Nações. Contudo, o país vivia uma fase de transformações, especialmente após Gamal Abdel Nasser assumir a presidência, em 1956. Concentrado na criação de uma nova constituição e na nacionalização do Canal de Suez, o governo egípcio repassou a organização do evento para o Sudão, independente desde 1953.

– Um dos países fundadores da Confederação Africana de Futebol, a África do Sul participaria da primeira edição da CAN. Os dirigentes sul-africanos não concordavam em enviar um time multirracial para a disputa – ou participariam somente brancos ou negros. Diante da política do apartheid, a CAF optou banir o país e dar a vaga direta na final para o Sudão.

1959 – República Árabe Unida

Campeão: República Árabe Unida
Decisão: RAU 2×1 Sudão [Baheeg (2x) |Seddik Manzoul]
Técnico: Pal Titktos
Países participantes: 3
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Mohmoud El-Gohary (RAU), 3 gols
Melhor jogador: Mohmoud El-Gohary (RAU)

– Difusor do Pan-Arabismo, que visava o estreitamento de relações entre os países árabes, o general Nasser criou a República Árabe Unida em 1958, nação formada por Egito e Síria. Com a ascensão da burguesia militar, o futebol passou a ser alvo de fortes investimentos na nova nação. O ponto alto seria a Copa Africana de 1959, que serviu também como propaganda política para a RAU.

1962 – Etiópia

Campeão: Etiópia
Decisão: Etiópia 4×2 RAU [ Tekle, L. Vassalo, I. Vassalo, Worku | Fatah (2x)]
Técnico: Slavko Milosevic
Países participantes: 4
Países estreantes: Tunísia e Uganda
Artilheiro: Mengistu Worku (Etiópia) e Abdelfatah Badawi (RAU), 3 gols
Melhor jogador: Mengistu Worku (Etiópia)

– A terceira edição da Copa Africana de Nações deveria acontecer em 1961, mas foi adiada por um ano por conta da instabilidade vivida na Etiópia. O país passou por um malsucedido golpe de estado em 1960 e a Confederação Africana preferiu aguardar a total restauração do império de Haïlé-Sélassié antes de realizar a disputa.

– Em 1961, a Síria deixou a RAU por divergências com o modo como os egípcios vinham comandando o país recém-criado. Mesmo sozinho, o Egito manteve o nome República Árabe Unida até 1971, um ano após a morte de Gamal Abdel Nasser.

1963 – Gana

Campeão: Gana
Decisão: Gana 3×0 Sudão [Aggre-Fynn, Acquah (2x)]
Técnico: Charles Gyamfi
Países participantes: 4
Países estreantes: Gana e Nigéria
Artilheiro: Hassan El-Shazly (RAU), 6 gols
Melhor jogador: Hassan El-Shazly (RAU)

– Gana tornou-se independente em 1957 e, desde então, o presidente Kwame Nkrumah designou o futebol como uma das principais ferramentas de afirmação da identidade nacional. Dois anos depois de assumir, foi formada a seleção dos Estrelas Negras com um dos símbolos do patriotismo. No mesmo ano em que recebe a CAN em seu país, Nkrumah funda a Organização da Unidade Africana (OUA), um dos pilares do Pan-Africanismo, que visa reafirmar os interesses econômicos e sociais das nações do continente.

1965 – Tunísia

Campeão: Gana
Decisão: Gana 3×2 Tunísia [Odoi (2x), Osei Kofi | Chetali, Chaibi]
Técnico: Charles Gyamfi
Países participantes: 6
Países estreantes: Congo-Kinshasa (depois Zaire, atual República Democrática do Congo), Costa do Marfim e Senegal
Artilheiro: Osei Kofi (Gana), Bem Acheampong (Gana) e Eustache Manglé (Costa do Marfim), 6 gols
Melhor jogador: Osei Kofi (Gana)

– Chefe de Estado com moral no cenário político internacional da década de 1960, o presidente da Tunísia Habib Bourguiba tornou-se desafeto dos países árabes ao aventar uma reconciliação entre palestinos e israelenses, rechaçada pelos dois lados. Em efeito, a República Árabe Unida recusou-se a participar da Copa Africana e o Sudão, escolhido como substituto, também preferiu negar o convite.

1968 – Etiópia

Campeão: Congo-Kinshasa
Decisão: Congo-Kinshasa 1×0 Gana [Kalala]
Técnico: Ferenc Csanad
Países participantes: 8
Países estreantes: Argélia e Congo-Brazzaville (República do Congo)
Artilheiro: Laurent Pokou (Costa do Marfim), 6 gols
Melhor jogador: Kazadi Mwamba (Congo-Kinshasa)

– No poder do Congo-Kinshasa desde 1965, Mobutu Sese Seko prezou pela montagem de uma forte seleção nos primeiros anos de regime, recrutando jogadores principalmente na Bélgica. A campanha na CAN de 1968 acabou valendo como cartaz para o ditador. Três meses depois do título, ele decretou a criação da União de Estados da África Central, que alinhou politicamente os países da região.

1970 – Sudão

Campeão: Sudão
Decisão: Sudão 1×0 Gana [El-Issed]
Técnico: Jiri Starost
Países participantes: 8
Países estreantes: Camarões e Guiné
Artilheiro: Laurent Pokou (Costa do Marfim), 8 gols
Melhor jogador: Laurent Pokou (Costa do Marfim)

– A República Árabe Unida deveria se responsabilizar pela realização da sétima edição da Copa Africana, mas abriu mão do evento. Em 1967, o país se envolveu na Guerra dos Seis Dias com Israel, na qual perdeu a Península do Sinai. Desde então, o governo Nasser passou a realizar sucessivos bombardeios ao território perdido, cessando os ataques apenas em agosto de 1970.

1972 – Camarões

Campeão: Congo-Brazzaville
Decisão: Congo-Brazzaville 3×2 Mali [M’Bono (2x), M’Pele | Diakhité, M. Traoré]
Técnico: Amoyen Bibanzulu
Países participantes: 8
Países estreantes: Quênia, Mali, Marrocos e Togo
Artilheiro: Salif Keita (Mali), 5 gols
Melhor jogador: François M’Pelé (Congo-Brazzaville)

– Se Mobutu utilizou a conquista do Congo-Kinshasa em 1968, quatro anos depois o vizinho Congo-Brazzaville respondeu à altura. Em 1969, foi instaurado no país um governo comunista, presidido por Marien Ngouabi. Da mesma forma, o título da Copa Africana acabou servindo para que o regime justificasse a sua soberania.

– Presidente de Camarões desde a independência do país, em fevereiro de 1960, Ahmadou Ahidjo pôde se aproveitar das benesses da CAN 12 anos depois. Para homenagear o chefe de estado, o principal palco da competição, construído na capital Iaundé, recebeu o nome de Stade Ahmadou Ahidjo.

1974 – Egito

Campeão: Zaire
Decisão: Zaire 2×0 Zâmbia [N’daye (2x)]
Técnico: Blagoje Vidinic
Países participantes: 8
Países estreantes: Ilhas Maurício e Zâmbia
Artilheiro: Ndaye Mulamba (Zaire), 9 gols
Melhor jogador: Ndaye Mulamba (Zaire)

– Mais uma vez Mobutu utilizou a conquista da seleção do Zaire (nome adotado em 1971) para reafirmar seu regime ditatorial diante da população. Após a decisão, o mandatário cedeu o avião presidencial para trazer a equipe de volta ao país com pompas de estado. Três meses depois, no entanto, após a desastrosa campanha dos leopardos na Copa do Mundo de 1974, Mobutu passou a perseguir os integrantes da seleção.

1976 – Etiópia

Campeão: Marrocos
Decisão: Marrocos 1×1 Guiné
Técnico: Gheorge Mardarescu
Países participantes: 8
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Aliou Mamadou Keita (Mali), 4 gols
Melhor jogador: Ahmed Faras (Marrocos)

– A Etiópia recebeu a competição sob forte desconfiança política, diante da cobertura da imprensa internacional sobre a fome que assolava a população do país. Em 1974, o império de Haïlé Sélassié foi derrubado, instaurando-se uma revolução. Na mesma época, a Eritreia intensificava a guerra de independência contra os etíopes. Apesar do estado de sítio, o país sediou a CAN, usada também para legitimar internacionalmente o novo governo.

1978 – Gana

Campeão: Gana
Decisão: Gana 2×0 Uganda  [Afriyie (2x)]
Técnico: Fred Osam-Duodu
Países participantes: 8
Países estreantes: Alto Volta (atual Burkina Faso)
Artilheiro: Philip Omondi (Uganda), Opoku Afriyie (Gana) e Segun Odegbami (Nigéria), 3 gols
Melhor jogador: Karim Abdul Razak (Gana)

1980 – Nigéria

Campeão: Nigéria
Decisão: Nigéria 3×0 Argélia [Odegbami (2x), Lawal]
Técnico: Oto Glória
Países participantes: 8
Países estreantes: Tanzânia
Artilheiro: Khaled Labied (Marrocos) e Segund Odegbami (Nigéria), 3 gols
Melhor jogador: Christian Chkwu (Nigéria)

– A Nigéria recebeu sua primeira CAN enquanto dava vivia a redemocratização. Após sucessivos golpes militares e outras tentativas frustradas, Olusegun Obasanjo foi o chefe do governo militar que conduziu os nigerianos às eleições de 1979. Quando a competição chegou ao país, Shehu Shagari já tinha tomado posse. Como já de costume, o troféu levantado pelo time de Oto Glória foi usado pelos governantes. Mas não adiantou muito. Acusado de corrupção e fraudes, Shagari sofreu novo golpe três anos depois.

1982 – Líbia

Campeão: Gana
Decisão: Gana 1×1 Líbia, 7×6 nos pênaltis [Alhassan | Beshari]
Técnico: Charles Gyamfi
Países participantes: 8
Países estreantes: Líbia
Artilheiro: George Alhassan (Gana), 4 gols
Melhor jogador: Fawzi Al-Esawi (Líbia)

– A edição de 1982 foi utilizada como palanque político por Muammar Gaddafi, em ano no qual a Líbia também receberia encontro da Organização da Unidade Africana (OUA). Na cerimônia de abertura, o ditador aproveitou para bradar contra o imperialismo americano e francês, além de atacar seus rivais políticos, fechando o discurso com a frase “Sim à África, não à Copa”. Gaddafi aproveitou o evento também para divulgar o Livro Verde, que descrevia a ideologia de seu regime.

– O Egito desistiu de participar da competição após o assassinato do presidente Anwar Sadat, em outubro. Sadat foi morto por membros da Jihad Islâmica Egípcia, contrários aos acordos de paz com Israel. O presidente também era contrário à realização da CAN na Líbia. Os faraós foram substituídos pela Tunísia.

1984 – Costa do Marfim

Campeão: Camarões
Decisão: Camarões 3×1 Nigéria [N’Djeya, Abega, Ebongue | Lawal]
Técnico: Radivoje Ognjanovic
Países participantes: 8
Países estreantes: Malauí
Artilheiro: Taher Abouzaid (Egito), 4 gols
Melhor jogador: Thóphile Abega (Camarões)

– O desempenho notável da seleção camaronesa ao longo da década de 1980 coincidiu com a chegada de Paul Biya ao poder, aonde permanece até hoje. A vitória na CAN de 1984 foi amplamente usada pelo presidente, que passou a utilizar os Leões Indomáveis para se aproximar da população. Tanto é que, seis anos depois, Biya lançou um decreto para que Roger Milla abandonasse a aposentadoria e disputasse a Copa de 1990.

1986 – Egito

Campeão: Egito
Decisão: Egito 0x0 Camarões, 5×4 nos pênaltis
Técnico: Mike Smith
Países participantes: 8
Países estreantes: Moçambique
Artilheiro: Roger Milla (Camarões), com quatro gols
Melhor jogador: Roger Milla (Camarões)

1988 – Marrocos

Campeão: Camarões
Decisão: Camarões 1×0 Nigéria [Kundé]
Técnico: Claude Le Roy
Países participantes: 8
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Lakhdar Belloumi (Argélia), Roger Milla (Camarões), Abdoulaye Traoré (Costa do Marfim) e Gamal Adbelhamid (Egito), 2 gols
Melhor jogador: Aziz Bouderbala (Marrocos)

– Classificada para a fase final da competição, a Argélia passou as décadas anteriores em intensos conflitos com o Marrocos. A situação já se abrandava quando as duas seleções se enfrentaram na fase de grupos da CAN 1988, embora o clima no estádio Mohamed V passasse outra ideia. Os rivais voltariam a se enfrentar na decisão do terceiro lugar, com vitória argelina nos pênaltis. Menos de dois meses depois, os países restabeleceriam suas relações diplomáticas.

1990 – Argélia

Campeão: Argélia
Decisão: Argélia 1×0 Nigéria [Oudjani]
Técnico: Abdelhamid Kermali
Países participantes: 8
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Djamel Menad (Argélia), 4 gols
Melhor jogador: Rabah Madjer (Argélia)

– A Argélia vivia um forte clima de animosidade política às vésperas da realização da CAN. Em outubro de 1988, 169 pessoas foram mortas em protestos contra o governo de Chadli Bendjedid, acusado de manter um regime centralizado demais. O Egito ameaçou boicotar o torneio por razões de segurança, mas acabou convencido pela CAF e enviou um elenco reserva para a disputa. Na decisão, membros da Frente Islâmica de salvação se infiltraram nas arquibancadas e vaiaram o presidente Bendjedid.

1992 – Senegal

Campeão: Costa do Marfim
Decisão: Costa do Marfim 0x0 Gana, 11×10 nos pênaltis
Técnico: Yeo Martial
Países participantes: 12
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Rashidi Yekini (Nigéria), 4 gols
Melhor jogador: Abedi Pelé (Gana)

1994 – Tunísia

Campeão: Nigéria
Decisão: Nigéria 2×1 Zâmbia [Amunike (2x) | Litana]
Técnico: Clemens Westerhof
Países participantes: 12
Países estreantes: Gabão e Serra Leoa
Artilheiro: Rashidi Yekini (Nigéria), 5 gols
Melhor jogador: Rashidi Yekini (Nigéria)

1996 – África do Sul

Campeão: África do Sul
Decisão: África do Sul 2×0 Tunísia [Williams (2x)]
Técnico: Clive Barker
Países participantes: 15
Países estreantes: Angola, Libéria e África do Sul
Artilheiro: Kalusha Bwalya (Zâmbia), 5 gols
Melhor jogador: Kalusha Bwalya (Zâmbia)

– Após quatro décadas de sanções por conta da política do apartheid, a África do Sul participou pela primeira vez da fase final da CAN. Dois anos depois de não passar pelas eliminatórias, o país receberia a competição em 1996, assumindo posto que seria do Quênia – que desistiu por conta de problemas financeiros. Neil Tovey, capitão dos Bafana Bafana, foi o primeiro branco a levantar a taça da competição.

– A Nigéria conseguiu a classificação, mas acabou boicotando o torneio. Nelson Mandela solicitou embargo total ao país no final de 1995, depois que o presidente Sani Abacha executou nove membros da etnia ogoni, acusados de matar quatro aliados do governo. Os nigerianos não foram substituídos na competição.

1998 – Burkina Faso

Campeão: Egito
Decisão: Egito 2×0 África do Sul [A. Hassan, Mostafa]
Técnico: Mahmoud El-Gohary
Países participantes: 16
Países estreantes: Namíbia
Artilheiro: Hossam Hassan (Egito) e Benny McCarthy (África do Sul), com sete gols
Melhor jogador: Benny McCarthy (África do Sul)

2000 – Gana e Nigéria

Campeão: Camarões
Decisão: Camarões 2×2 Nigéria, 4×3 nos pênaltis [Eto’o, Mboma | Chukwu, Okocha]
Técnico: Pierre Lechantre
Países participantes: 16
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Shaun Bartlett (África do Sul), 5 gols
Melhor jogador: Lauren Etame (Camarões)

– O Zimbábue deveria sediar o torneio, mas acabou substituído por Gana e Nigéria, sob as justificativas de que o governo de Robert Mugabe estaria pouco comprometido com a realização do evento. Ao longo da década seguinte, o país teve sérios problemas econômicos, chegando a taxas de desemprego de 94% da população, além de registrar inflação de 66.000% entre 2000 e dezembro de 2007.

2002 – Mali

Campeão: Camarões
Decisão: Camarões 0x0 Senegal, 3×2 nos pênaltis
Técnico: Winfried Schäfer
Países participantes: 16
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Patrick Mboma (Camarões), René Salomon Olembé (Camarões) e Julius Agahowa (Nigéria), 3 gols
Melhor jogador: Rigobert Song (Camarões)

2004 – Tunísia

Campeão: Tunísia
Decisão: Tunísia 2×1 Marrocos [Santos, Jaziri | Mokhtari]
Técnico: Roger Lemerre
Países participantes: 16
Países estreantes: Ruanda, Benin e Zimbábue
Artilheiro: Patrick Mboma (Camarões), Frédéric Kanouteé (Mali), Youssef Mokhtari (Marrocos), Jay-Jay Okocha (Nigéria) e Francileudo dos Santos (Tunísia), 4 gols
Melhor jogador: Jay-Jay Okocha (Nigéria)

– Sede e campeã em 2004, a Tunísia também passou por eleições presidenciais oito meses após o término do torneio. Depois de restringir os direitos da oposição, com uma lei de 2003 que alterava o Código Eleitoral, Zine El-Abidine ben Ali chegou ao seu quarto mandato, no governo desde 1987. O pleito foi considerado um “simulacro de democracia” por organizações como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch.

2006 – Egito

Campeão: Egito
Decisão: Egito 0x0 Costa do Marfim, 4×2 nos pênaltis
Técnico: Hassan Shehata
Países participantes: 16
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Samuel Eto’o (Camarões), com cinco gols
Melhor jogador: Ahmed Hassan (Egito)

– A conquista do troféu pelo Egito foi amplamente utilizado pelo governo de Hosni Mubarak, que passava por momento delicado no governo. Após pressão internacional, o mandatário havia instituído eleições abertas no ano anterior. Na onda do tetracampeonato egípcio, o presidente decretou feriado nacional no dia seguinte à decisão, bem como ligou pessoalmente para o técnico Hassan Shehata.

2008 – Gana

Campeão: Egito
Decisão: Egito 1×0 Camarões [Aboutrika]
Técnico: Hassan Shehata
Países participantes: 16
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Samuel Eto’o (Camarões), com cinco gols
Melhor jogador: Hosny Abd Rabo (Egito)

– Em 2005, a classificação inédita da Costa do Marfim à Copa do Mundo ajudou a reconciliar etnias segregadas no país. Os marfinenses viviam uma guerra civil desde 2002 e a trégua proporcionada pela participação ao Mundial abriu caminho ao cessar-fogo. Paz assinada em março de 2007 e ratificada nas eliminatórias da Copa Africana, três meses depois. Os Elefantes golearam Madagascar por 5 a 0, em jogo disputado na cidade de Bouaké, base dos rebeldes. Foi a primeira vez que os exércitos inimigos se uniram. Drogba, pivô no pedido de paz, anotou um gol.

2010 – Angola

Campeão: Egito
Decisão: Egito 1×0 Gana [Gedo]
Técnico: Hassan Shehata
Países participantes: 15
Países estreantes: nenhum
Artilheiro: Mohamed Nagy “Gedo” (Egito), com cinco gols
Melhor jogador: Ahmed Hassan (Egito)

– O ônibus da seleção de Togo foi metralhado no dia oito de janeiro, em atentado que causou três mortes. A ação terrorista foi assumida pela Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC), grupo separatista da região de Cabinda, responsável pela parte majoritária da produção de petróleo em Angola. Em resposta, os togoleses decidiram boicotar a competição. Dias depois, ainda tentaram voltar atrás da decisão, mas tiveram a participação negada pela CAF.

2012 – Guiné Equatorial e Gabão

Campeão: Zâmbia
Decisão: 
Zâmbia 0x0 Costa do Marfim [8×7 nos pênaltis]
Técnico:
Hervé Renard
Melhor jogador:
Christopher Katongo [Zâmbia]
Países participantes:
16
Países estreantes:
Botsuana, Guiné Equatorial e Níger
Artilheiro: 
Manucho (Angola), Drogba (Costa do Marfim), Aubameyang (Gabão), Mayuka (Zâmbia), Katongo (Zâmbia), Kharja (Marrocos) e Diabaté (Mali), com três gols

– A Primavera Árabe influenciou o desenrolar das eliminatórias. Diante da violenta guerra civil vivida na Líbia e da queda do ditador Muammar Gaddafi, a seleção local carimbou o passaporte para Gabão e Guiné Equatorial. Os conflitos no país obrigaram a equipe a mandar dois de seus três jogos em campo neutro e nem as dificuldades do técnico Marcos Paquetá em contatar seus jogadores atrapalhou os bons resultados. Na comemoração pela vaga, os jogadores levantaram a bandeira do novo governo instaurado.

– Na contramão, o multicampeão Egito não conseguiu lidar com a instabilidade política no país durante a disputa das eliminatórias. Diante dos protestos políticos que paralisaram até mesmo a liga local, os Faraós tropeçaram nas próprias pernas e terminaram a qualificação na lanterna de sua chave. E assim como Hosni Mubarak deixou o poder depois de 30 anos, o técnico Hassan Shehata, amigo pessoal do presidente, encerrou seu ciclo no comando da seleção.

– Além da Primavera Árabe, outro evento notável ocorrido na organização política africana em 2011 foi a independência de Sudão do Sul, após realização de plebiscito em julho. A qualificação da CAN foi a última competição disputada pelo Sudão antes da cisão entre as duas regiões. A equipe sudanesa conseguiu a classificação à fase final da competição, após assegurar uma das duas vagas entre os melhores segundos colocados. Na Copa Africana, a equipe só contou com jogadores do norte.

2013 – África do Sul

Campeão: Nigéria
Decisão: 
Nigéria 1×0 Burkina Faso [Sunday Mba]
Técnico:
Stephen Keshi
Melhor jogador:
Jonathan Pitroipa [Burkina Faso]
Países participantes:
16
Países estreantes:
Cabo Verde
Artilheiro: 
Emmanuel Emenike (Nigéria) e Wakaso Mubarak (Gana), com quatro gols

– A Líbia havia vencido o direito de receber a CAN 2013. Entretanto, a guerra civil no país obrigou a mudança de sede em 2011. Por conta da realização recente da Copa do Mundo e da boa condição de seus estádios, a África do Sul acabou escolhida como substituta, embora não tenha entrado na disputa inicial para receber o torneio. Sem a vaga direta, os líbios não conseguiram avançar nas eliminatórias, jogando em campo neutro.

– Durante as eliminatórias, a vitória da Costa do Marfim que desclassificou o Senegal causou revolta nas arquibancadas em Dacar. A torcida da casa incendiou partes do estádio e obrigou os visitantes a se refugiarem no gramado, cercados pelas forças policiais que faziam a segurança no local. Entre os feridos na confusão estava El Hadji Malick Gakou, Ministro dos Esportes senegalês.

– A única seleção estreante na CAN 2013 foi Cabo Verde, capaz de grande façanha ao derrubar Camarões nas eliminatórias. A vitória sobre a equipe de Samuel Eto’o foi tratada com honras de estado pelo governo cabo-verdiano. Cada um dos jogadores recebeu uma premiação de € 38 mil pela conquista da classificação. Mérito diante da crise dos camaroneses. Em conflito com a federação por causa de premiações, Eto’o chegou a anunciar sua aposentadoria da equipe e teve o retorno solicitado pelo Primeiro Ministro Philemon Yang.

2015 – Guiné Equatorial

Campeão: Costa do Marfim
Decisão: 
Costa do Marfim 0x0 Gana [9×8 nos pênaltis]
Técnico:
Hervé Renard
Melhor jogador:
Christian Atsu [Gana]
Países participantes:
16
Países estreantes:
Nenhum
Artilheiro:
Thievy Bifouma (Congo), Dieumerci Mbokani (DR Congo), Javier Balboa (Guiné Equatorial), André Ayew (Gana) e Ahmed Akaïchi (Tunísia), com três gols

– Pela primeira vez, o Sudão do Sul disputou as eliminatórias da Copa Africana de Nações. No entanto, a guerra civil que se desdobrava no país obrigou o time a mandar os seus jogos em Cartum, capital do Sudão. Foram eliminados por Moçambique na segunda fase, apesar de segurarem o empate por 0 a 0 na segunda partida.

– Seychelles desistiu das eliminatórias da CAN 2015 depois que o governo local barrou a entrada do elenco de Serra Leoa para a disputa do jogo de volta entre as equipes na segunda fase. Serra Leoa foi o país mais afetado pela epidemia de ebola a partir de 2014, registrando 10 mil casos da doença e mais de três mil mortes até a última semana. Por causa do surto da doença, os serra-leoneses mandaram os seus jogos na fase de grupos em três países diferentes (Camarões, RD Congo e Costa do Marfim), assim como Guiné, que atuou em Marrocos e ainda assim conquistou a classificação.

– O surto do ebola também provocou a desistência do Marrocos de sediar o torneio. Diante da preocupação com a entrada de estrangeiros, o governo local solicitou a mudança das datas da competição, mas não teve o pedido atendido pela CAF. Sede do torneio dois anos antes, Guiné Equatorial assumiu a organização a partir de novembro de 2014. Um afago da confederação a Teodoro Obiang, ditador do país desde 1979, acusado de sequestros, assassinatos de inimigos políticos, tortura de prisioneiros, ameaças de mortes e fraudes eleitorais. Rica em petróleo, a nação tem o maior PIB per capita do continente, mas um baixo Índice de Desenvolvimento Humano. A competição, no fim das contas, serviu para sustentar a imagem internacional do regime.

– Por conta da guerra civil no país, a Líbia disputou sua única partida como mandante nas eliminatórias na Tunísia, mas caiu diante de Ruanda. Da mesma forma, a instabilidade interna obrigou a República Centro-Africana a disputar o seu jogo em casa contra Guiné Bissau em Brazzaville, capital do Congo. Em contrapartida, o Egito voltou a atuar diante de sua torcida no Cairo, apesar da eliminação na fase de grupos.

– Por causa dos ataques do grupo extremista islâmico Boko Haram, a Nigéria mudou o local de um de seus jogos nas eliminatórias. A região de Kaduna havia sido alvo de quatro atentados em julho, causando a morte de 102 pessoas. As Super Águias mandaram a partida para Calabar, próxima à fronteira do país e distante das principais ações terroristas.

2017 – Gabão

Países participantes: 16
Países estreantes: 
Guiné-Bissau

– Diante da mudança de sede em 2013, a Líbia teria o direito de receber a Copa Africana em 2017. No entanto, a instabilidade política fez com que o país desistisse do evento permanentemente. Em 2014, a CAF lançou novo processo de candidatura. Gabão, Argélia, Gana e Egito (que saiu no meio do processo, duas semanas após a morte de 22 pessoas em um embate entre torcedores e policiais no campeonato local) manifestaram o interesse. E, assim como acontecera pouco antes, os dirigentes resolveram eleger um país que já havia sediado a CAN na mesma década. Como Guiné Equatorial, o Gabão também vive uma ditadura e desfruta dos royalties do petróleo. O presidente Ali Bongo chegou ao poder em 2009, após a morte de seu pai, Omar Bongo, à frente do país por 42 anos. O processo de sua escolha foi considerado um golpe eleitoral pela oposição, assim como a reeleição, em agosto de 2016, que terminou com confrontos nas ruas do país e mortes. O estadista é acusado de corrupção e enriquecimento ilícito, além de perseguição aos opositores. Segundo Jack Blum, especialista da ONU, a família de Bongo desviou “cerca de 25% do PIB do país, e isso os fez incrivelmente ricos”.

– Por causa da guerra civil em seu território, a Líbia mandou os seus jogos pelas eliminatórias em campo neutro, duas vezes no Egito e uma na Tunísia. Já Serra Leoa e Guiné se afastaram de seus territórios em um jogo cada, por causa do surto de ebola. Atuaram na Nigéria e no Marrocos, respectivamente. Em contrapartida, o Sudão do Sul pôde disputar as suas primeiras partidas em casa. Os três confrontos aconteceram na capital do novo país, Juba.

– O Chade desistiu das eliminatórias da CAN antes mesmo de começar a disputá-las. O presidente da federação alegou que os efeitos da crise econômica mundial motivaram a decisão. De fato, o país atravessa problemas sérios, com a queda do preço do petróleo e as relações comerciais estremecidas, principalmente com Nigéria e Camarões, diante de ataques dos extremistas do Boko Haram. Além disso, as tensões internas entre grupos religiosos vêm aumentando nos últimos meses.

– Estreante nesta Copa Africana de Nações, Guiné-Bissau atravessa uma crise política intensa há dois anos. Cinco governos diferentes já passaram pelo poder e os atores políticos não chegam a um consenso, aumentando os atritos nos últimos meses. Diante das incertezas, por pouco a seleção não foi afetada. Num primeiro momento, o estado não disponibilizou a verba prevista para bancar despesas no Gabão, incluindo a viagem. O embarque aconteceu apenas nesta semana, com dias de atraso.