Sidrack Marinho autorizou a cobrança de falta. Eram 44 minutos do segundo tempo. Três jogadores do Palmeiras estavam na bola. Longa distância, a partir da intermediária do Morumbi. Cléber entrou na barreira para confundir. Zinho chutou colocado no canto esquerdo, mas, de tão longe, foi fácil para o atento goleiro Paulo César desvendar a trajetória da bola. Ele caiu para encaixar, mas bateu roupa. Teoricamente, não haveria problemas. Oséas apareceu no rebote, e poderia tocar para trás, mas estava pressionado tanto pelo goleiro, quanto por outro marcador do Cruzeiro, que provavelmente bloquearia o recuo. Rodeavam a bola. Não havia ângulo para uma finalização direta. O atacante estava rente e quase na paralela da linha de fundo. Oséas criou o ângulo do nada. Encheu o pé no teto da rede. Fez 2 a 0, e o Palmeiras foi campeão da Copa do Brasil, há exatos 20 anos.

LEIA MAIS: Estes são os confrontos das quartas de final da Copa do Brasil 2018

Foi um título essencial para a equipe de Felipão, que havia sido trazido do Grêmio justamente para dar uma aura copeira à equipe montada pela Parmalat. Um gol espírita que afugentou alguns fantasmas do Palestra Itália. Felipão conquistou seu primeiro troféu pelo clube. O Palmeiras ganhou a Copa do Brasil pela primeira vez na sua história. E personagens como Oséias e Velloso puderam se redimir de falhas anteriores. Além de valer vaga na Copa Libertadores de 1999 que, como todos sabem, terminaria pintada de verde e branco.

Era a décima edição da Copa do Brasil, e o Palmeiras nunca havia tido muita sorte na competição. Participou pela primeira vez em 1992, chegando às semifinais. Em seguida, seria eliminado nas quartas e nas oitavas, duas vezes. Em 1996, alcançou sua primeira final, contra o Cruzeiro. A expectativa era alta. Alinhava-se naquele ano o encantador time de Vanderlei Luxemburgo, campeão paulista marcando 100 gols. Mas o desmanche já havia começado quando Müller foi para o São Paulo pouco antes das finais contra o Cruzeiro. O jogo de ida foi 1 a 1 no Mineirão. Na volta, apesar de um bom jogo, o Palmeiras perdeu por 2 a 1 e ficou com o vice.

Foi um jogo difícil para Velloso. O goleiro palmeirense fez boas defesas e salvou o que seria um golaço de Palhinha. Mas levou o primeiro gol de Roberto Gaúcho no canto que estava defendendo, aquele chute entre o goleiro e a trave, e soltou a bola para Marcelo Ramos marcar o gol do título do Cruzeiro, aos 38 minutos do segundo tempo. “Daquela vez, escapou e, ultimamente, estávamos chegando, mas não tínhamos sorte na hora de decidir”, disse Velloso, à Gazeta Esportiva, depois da final de 1998. “Desta vez, não teve jeito. Somos os campeões”.

Outro que se redimiu foi Oséas. No Campeonato Paulista daquele ano, o atacante havia feito seu famoso gol contra no dérbi com o Corinthians. “Foi uma resposta, sim, ao gol contra que marquei naquele jogo. No Campeonato Paulista, não mantive uma regularidade. Tive altos e baixos e acabei saindo do time. Tenho certeza que com esse gol eu dei a volta por cima”, disse, à Folha de S. Paulo, em 1º de junho. “Eu falei para os jogadores, quando começou a chover, que era para todos arriscarem de longe, já que o campo estava molhado e seria importante chutar de fora da área. Na hora, eu imaginei que, se a bola fosse no gol, Paulo César poderia soltá-la, já que ela estava escorregadia. O Zinho bateu bem a falta e eu corri para tentar o rebote. Dei sorte e bati com tudo”.

A conquista no Morumbi coroou o começo do trabalho de Felipão. O técnico gaúcho havia chegado em julho de 1997 e batido na trave algumas vezes. Foi vice-campeão do Brasileiro daquela temporada, perdendo do Vasco. Perdeu para o São Paulo na semifinal do Paulistão e do Rio São Paulo do ano seguinte. Com o título da Copa do Brasil, e a vaga na Libertadores, ganhou a oportunidade de fazer história em 1999, com a inédita conquista sul-americana do Palmeiras na final contra o Deportivo Cali.

A ida da decisão da Copa do Brasil de 1998 havia sido 1 a 0 para o Cruzeiro, gol de Fábio Júnior. O Palmeiras precisava vencer por dois gols de diferença no Palestra Itália e começou bem, com Paulo Nunes completando jogada da ponta-direita de Oséas. No final do segundo tempo, o centroavante palmeirense marcou o gol que valeu o título. E seria apenas o primeiro de três duelos decisivos entre paulistas e mineiros naquele ano. Nas quartas de final do Campeonato Brasileiro, em novembro, a Raposa daria o troco, com um gol de Fábio Júnior, aos 43 minutos do segundo tempo da terceira partida. Em dezembro, o Palmeiras voltaria à tona, ganhando a final da Copa Mercosul no antigo Palestra Itália.