A arbitragem – e todos os fatores que a envolvem – nunca foi o forte do futebol português. Embora o país tenha revelado bons árbitros, como Pedro Proença (que apitou final de Liga dos Campeões e da Eurocopa e atualmente é o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional), o sistema é falho, começando pela má preparação de juízes e bandeirinhas e passando pela falta de apoio que os homens do apito recebem dos profissionais do futebol, pelo descrédito que a arbitragem tem na sociedade portuguesa e pelas constantes acusações sem provas feitas pelos clubes.

Neste início de 2017, Portugal está vendo o que provavelmente é a maior crise de arbitragem dos últimos tempos. Erros grotescos em massa, atingindo grandes equipes (e por isso ganhando mais notoriedade), ameaças de morte, proteção policial aos árbitros e denúncias de todos os lados formam um clima tenso como há algum tempo já não se via – apesar da ruindade predominante nas arbitragens.

Na semana passada, Porto e Sporting foram eliminados da Taça da Liga em derrotas para equipes pequenas, nas quais os árbitros se tornaram protagonistas.

O lance mais bizarro aconteceu na derrota do Porto para o Moreirense por 1 a 0. Ao correr de costas, o árbitro Luís Godinho chocou-se com Danilo, meio-campista do Porto, e resolveu dar o segundo cartão amarelo ao jogador, expulso por causa de uma trombada absolutamente casual. Os portistas reclamam ainda de um pênalti não marcado sobre André André.

Por sua vez, o Sporting perdeu para o Vitória de Setúbal por 1 a 0, graças a um pênalti anotado por Rui Oliveira sobre Edinho, que despencou na área quando recebia a marcação de dois jogadores alviverdes. Coincidência ou não, ambos os árbitros pivôs das polêmicas contam com pouca experiência apitando jogos dos grandes clubes de Portugal.

As reclamações, claro, aconteceram de pronto. Elas começaram ainda no gramado (no jogo do Sporting, atletas e comissão técnica cercaram o trio de arbitragem assim que a partida acabou), passaram pelas entrevistas coletivas e permearam o noticiário e as conversas de torcedores nos dias seguintes.

Institucionalmente, os dois clubes optaram por palavras fortes para demonstrar indignação. A publicação oficial Dragões Diário, do Porto, disse que “Luís Godinho interferiu claramente com a verdade desportiva” e ainda afirmou que “é tempo de gritar basta, de desmascarar todo este polvo que criou um monstro em que árbitros sem experiência, sem provas dadas, são transformados em internacionais proveta”, referindo-se a uma recente promoção recebida por Godinho. “Que motivo pode levar um árbitro a expulsar um jogador depois de o atropelar?” , questiona, referindo-se à expulsão de Danilo. O clube ainda divulgou uma conta, pela qual já são 19 pênaltis não marcados a favor do Porto nesta temporada.

Nuno Saraiva, diretor de comunicação do Sporting, classificou o ocorrido com seu time como “falta de vergonha”. Ele ainda citou o “descrédito total de uma competição”, referindo-se à Taça da Liga e disse que os erros são um “insulto a jogadores, treinadores, dirigentes, torcedores e investidores”.

Ameaças

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As graves falhas da arbitragem já seriam um grande problema por si só, mas ganharam companhia. Os dias que se seguiram foram tensos, inclusive com várias ameaças a pessoas envolvidas com o apito.

A principal delas aconteceu no centro de treinamento utilizado pelos árbitros portugueses. Torcedores do Porto invadiram o local para ameaçar de morte Artur Soares Dias – considerado o melhor juiz da temporada passada. Embora nada tivesse a ver com a confusão na Taça da Liga, ele apitaria o jogo seguinte do clube (trabalhou sem grandes percalços no empate por 0 a 0 com o Paços de Ferreira, pelo Campeonato Português).

Artur não foi o único ameaçado. Situação semelhante aconteceu com Nuno Almeida, que chegou escoltado ao estádio onde trabalhou em Vitória de Guimarães 0 x 2 Benfica, também pelo campeonato nacional.

Outro alvo foi Luciano Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, ameaçado e insultado por torcedores não identificados em frente à sede da entidade.

A Federação Portuguesa de Futebol pediu auxílio à Polícia de Segurança Pública (PSP), que reforçou a segurança em torno dos árbitros e até de seus familiares. A PSP informou que não irá divulgar dados sobre as ações, por questões estratégicas.

E agora?

A crise vivida pela arbitragem é reflexo da incapacidade de organização do futebol português, em muitos aspectos. Da mesma forma como os árbitros erram demais, os dirigentes pouco fazem para melhorar a situação e se preocupam somente com os próprios problemas.

É fato que Porto e Sporting foram prejudicados e têm motivos para reclamar. Mas nenhum representante desses clubes soube, além de criticar o trabalho dos homens do apito, também reconhecer que seus times foram incapazes de vencer adversários de poderio e investimento muito menores.

Outros clubes, que desta vez nada tiveram a ver com as confusões, permaneceram em silêncio, mesmo com tanta tensão no ar. Parecem não entender que eles podem ser os prejudicados de amanhã e que melhorar o nível de organização do futebol lusitano, passando pela arbitragem, é bom para todo mundo.

Infelizmente, o ano seguinte à maior conquista de Portugal em todos os tempos (a Eurocopa 2016) começa da maneira que exemplifica perfeitamente porque o país não consegue entrar no primeiro mundo da bola. Enquanto a desunião entre os dirigentes imperar, as queixas (ainda que justas) só acontecerem quando seus próprios clubes forem prejudicados e houver falta de interesse numa melhor organização, o futebol português continuará sendo o que é. E árbitros e seus familiares seguirão com escolta policial para o dia a dia, como se isso fosse normal.