Há jogos históricos de Copa do Mundo que não terminam com o final feliz. A memória do que aconteceu em Moscou nesta terça-feira estará impregnada nos torcedores colombianos por anos. Não irão se esquecer da noite dramática, de futebol sofrível e pegado, mas também de reação e taquicardia. As lembranças delirantes irão dos entreveros em campo às reclamações sobre o juiz, do grito preso com a bomba de Uribe à catarse com o tento de Mina, da raça na prorrogação ao quase nos pênaltis. As sensações serão indeléveis – daqueles jogos que podem ser irrelevantes a quem não se envolveu diretamente, mas que marcam como ferro quente quem torceu, e sonhou, e sofreu, e chorou. Ao final, das imagens que ficam, há três faces. Três personagens que resumem a epopeia cafetera, por aquilo que provocam em sua gente, sem necessariamente serem os melhores ou os piores em campo.

Radamel Falcao García não fez a sua melhor Copa do Mundo. No entanto, fez a sua Copa, aquela que aguardou por tanto tempo, e que não pôde viver em 2014. O centroavante não estava em sua melhor forma, e não conseguiu ser tão efetivo quanto em outros tempos. Mas, se não foi o melhor Tigre em qualidade, foi o melhor em garra. Dos capitães desta Copa do Mundo, o camisa 9 é um dos que mais sentiram a importância da braçadeira. Em momentos de dúvidas, o veterano elevou o espírito dos cafeteros no grito, na liderança. Energia pura dentro de campo, que não se correspondia em chances de gol, embora viesse em uma raça sem fim para acreditar – por vezes, beirando o destempero, em meio aos ânimos exaltados e aos estranhamentos. Na prorrogação, quando o futebol prevaleceu às rixas, o matador dava ânimo aos companheiros, que passaram a confiar mais na virada. Por fim, quando veio a disputa por pênaltis, não podia ser ele a desperdiçar sua cobrança. Seguro, Falcao a converteu.

Falcao era o berro para acordar a Colômbia. Yerry Mina, foi aquele que valeu o alívio e a libertação após 90 minutos tão difíceis. O zagueiro termina a Copa do Mundo como o grande herói dos cafeteros. A quem vinha sob desconfianças, o defensor se transformou em protagonista em todos os jogos que disputou. Marcou três gols, algo inédito a um jogador de sua posição em Mundiais, média invejável a qualquer centroavante. Suas grandes exibições, ainda assim, vão muito além dos tentos, também por aquilo que fez na sua função. Atuou de maneira agressiva, foi preciso nos combates, dominou o espaço aéreo. No nervoso confronto contra a Inglaterra, ele era um dos que mais pilhavam os adversários, embora tenha ficado pilhado em outros instantes. Nada que o atrapalhasse a fazer o que mais sabe: maltratar os goleiros adversários com suas cabeçadas certeiras, ainda mais num momento tão cardíaco.

O porte físico de Mina se complementa com a impulsão e um tempo de bola invejável. Foi quem reergueu os colombianos nos acréscimos do segundo tempo. Sua face na comemoração é emblemática, soltando um daqueles urros que vêm das entranhas, e que muitos colombianos já não esperavam mais soltar. E na prorrogação, o zagueiro se tornou o símbolo do sacrifício. Mesmo com uma dor na virilha, seguiu em campo, e jogando bem, ajudando a segurar as tentativas da Inglaterra. Poderia ter sido substituído antes da disputa por pênaltis, para não se correr riscos. Ficou no gramado, compartilhando a agonia num abraço coletivo no círculo central.

Já nas arquibancadas, o elo entre jogadores e torcedores era sempre buscado pelas câmeras da transmissão oficial: James Rodríguez. Lesionado, o camisa 10 fatalmente foi uma ausência sentida pela Colômbia. A melhor atuação do time, contra a Polônia, contou com o melhor do meia. A contusão o privou de ajudar os seus companheiros, mas era ele quem representava nas tribunas a agonia e a explosão. No momento em que Mina anotou o gol de empate, o craque foi à loucura, abraçado por Esteban Cambiasso, assistente de José Pekerman. Não se aguentou distante e foi para o banco de reservas durante a prorrogação, para empurrar os seus companheiros. Com a derrota, se tornou um dos últimos a deixar o campo. Às lágrimas, desolado, a dor do não poder aumentava a do não fazer.

A Copa do Mundo que a Colômbia fez na Rússia se concentra nestas expressões. Um time que teve garra, mas nem sempre futebol. Que foi da alegria ao desamparo em diferentes instantes. Os cafeteros merecem aplausos pela partidaça contra a Polônia e pela maneira como suportaram certos momentos desfavoráveis. Não repetiram o encantamento de 2014. Ainda assim, se permitiram sonhar, superando alguns problemas do time, mas esbarrando também em limitações que ficaram aparentes ao longo do ciclo. Não é uma equipe brilhante, embora pudesse fazer mais na Rússia.

Individualmente, há outros nomes a elogiar além de Mina. David Ospina passou muita segurança ao time e sai da Copa como um dos melhores goleiros até o momento. Foi bem nos pênaltis contra a Inglaterra, mas não tanto quanto os cobradores ingleses, e operou um milagre ao parar o chute de Jordan Henderson. Na defesa, Santiago Arias deu muita consistência pelo lado direito. Wilmar Barrios é jogador para mais anos de seleção, tomando conta do meio. Uribe se tornou uma peça bastante útil ao longo da campanha. E, na armação, Quintero conseguiu suplantar a ausência de James em alguns momentos, com seu talento privilegiado nos passes. De escolha de última hora, reafirma seu nome com mais força do que há quatro anos.

A impressão final, de qualquer forma, é a de fim de ciclo. Não para a maioria dos jogadores, e sim para José Pekerman. O treinador vinha de desgastes e atritos, com os questionamentos suplantando a adoração que se criou após classificar a Colômbia para o Mundial de 2014, após 16 anos de ausência. Não tomou as melhores decisões na Rússia, mas algumas de suas escolhas foram importantes para mudar os rumos de uma campanha que começou com traços de hecatombe, com a derrota diante do Japão. A trajetória termina com tristeza pelo pouco que faltou para repetir o melhor desempenho na história, mas também como dignidade pela forma como se buscou o resultado no final do jogo contra a Inglaterra. Pelo bem ou pelo mal, as memórias não se apagam.