Quando o Barcelona relembrar o que aconteceu na temporada 2017/18, o Estádio Cornellà El-Prat é parte indissociável desta história, Da mesma maneira como o Espanyol, apesar de toda a desigualdade que se vive no dérbi, poderá relembrar com orgulho de suas atuações contra os rivais. Os pericos não perderam em casa para os blaugranas nos dois clássicos da temporada. Mais do que isso, derrubaram uma longa invencibilidade com o triunfo na Copa do Rei e, agora, quase colocaram a sequência sem derrotas também a perder no Espanhol. Por mais que o jogo deste domingo não possua um ganhador, ou que não tenha sido exatamente vistoso, ele fica marcado na antologia da rivalidade, por tudo o que aconteceu durante os 90 minutos. Daqueles embates memoráveis, com cara de dérbi pela pegada de ambos os times, pelos lances duros, pela vontade. Ao final, prevaleceu o empate por 1 a 1 – alívio do Barça e garra do Espanyol.

Mesmo sabendo dos cuidados que o Cornellà El-Prat inspira, Ernesto Valverde poupou forças. Aproveitou a sua rotação e deixou alguns protagonistas no banco de reservas – entre eles, Lionel Messi, Ivan Rakitic e Jordi Alba. Apesar disso, o Barcelona dominava a posse da bola, com mais de 75% de posse de bola. O time conseguia pressionar o Espanyol contra a sua área, mas sem levar apuros ao goleiro Diego López. A primeira chance clara quase fez valer a “Lei do Ex”. Atuando aberto na esquerda e participativo, Philippe Coutinho recebeu na entrada da área, ajeitou e soltou a perna. O chute estalou o travessão, antes de sair.

O Espanyol, todavia, não era passivo e pressionava a saída de bola dos rivais. Léo Baptistão aparecia bem no ataque dos pericos e chamava a responsabilidade para si. Quase forçou o erro de Marc-André ter Stegen e também cabeceou uma bola com muito perigo, por cima do travessão. No final do primeiro tempo, o Barça voltaria a criar, mas a falta de precisão era um problema. Luis Suárez não demonstrou a precisão de Messi em uma cobrança de falta, para fora, e Paulinho não emendou da melhor maneira em uma de suas aparições na área.

A chuva apertou na Catalunha durante o segundo tempo. E o gramado, que já parecia um bocado judiado, se transformou em uma várzea, com várias poças d’água. Isso beneficiava o jogo mais físico do Espanyol, sem que o Barcelona conseguisse encadear os seus passes. Aos 13 minutos, então, Valverde resolveu mandar Messi e Sergi Roberto a campo, nos lugares de Semedo e Paco Alcácer – o que deslocou Coutinho à direita, onde não fez tanto. Nada que surtisse efeito imediato ao Barça. Pelo contrário, foram os pericos que abriram o placar aos 21 minutos. Os erros blaugranas se repetiam. E depois de um tiro de meta ruim de Ter Stegen, Sergio García levantou a bola na área. Gerard Piqué furou e Gerard Moreno aparece às suas costas para escorar às redes. O goleiro ainda tocou na bola, mas não evitou o tento dos anfitriões.

Era uma partida muito pegada, tanto pelas condições do terreno quanto pela intensidade dos times. E à cada volta do ponteiro no relógio, ficava claro que o Barcelona teria que rasgar sua cartilha para evitar a derrota. O gol nasceu aos 37 minutos, compreensivelmente em uma bola parada. Messi cruzou em direção à área e Piqué se redimiu, cabeceando às redes. Na comemoração, o zagueiro provocou. No jogo de volta da Copa do Rei, já tinha sido denunciado pelo Espanyol por provocações e por tratar os pericos como “o clube de Cornellà”, negando seu pertencimento a Barcelona e em conotação classicista. Além disso, o posicionamento político do defensor quanto à independência da Catalunha é outro entrave. Ao longo da noite, os torcedores nas arquibancadas vaiaram o veterano. Sua resposta, ao balançar as redes, foi colocar o dedo sobre a boca pedindo silêncio.

A atitude de Piqué foi a deixa para que o dérbi pegasse fogo na reta final – e não pelo futebol. Gerard Moreno deu uma entrada forte no zagueiro, que também deixou sua perna. Os jogadores de ambos os times se estranhavam e até mesmo Messi entrou na pilha. Faltou bola para que qualquer um dos lados buscasse a vitória, sem sequer um chute após o empate. Ao apito final, prevaleceu a tensão, com bate-boca e até mesmo Piqué tentando esfriar os ânimos de Samuel Umtiti.

O empate valeu uma marca notável ao Barcelona. Pela primeira vez em sua história, o clube passa os primeiros 22 jogos do Campeonato Espanhol sem perder. Permanece tranquilo na liderança, com 58 pontos conquistados, 12 de vantagem em relação ao Atlético de Madrid – que ainda entra em campo na rodada, recebendo o Valencia. Já o Espanyol, a despeito da maneira como peitou os seus rivais, é apenas o 15°. Soma 25 pontos, a oito da zona de rebaixamento e a oito das vagas na Liga Europa. E se o desempenho no geral não é extraordinário, este time merece ser lembrado pela maneira como não se apequenou diante da fase impressionante dos blaugranas.