O momento mais marcante da participação de Senegal na Copa do Mundo de 2002 não aconteceu exatamente em campo, mas à beira dele. O gol de Papa Bouba Diop contra a França, além da vitória, permitiu uma enorme festa dos Leões de Teranga perto da bandeira de escanteio. Ficou o quadro eterno dos senegaleses eufóricos, dançando ao redor das camisas jogadas no chão, deixando atônitos os franceses e o restante do planeta por uma das maiores surpresas já vistas nos Mundiais. A alegria logo se substituiu ao empenho por segurar os então campeões do torneio, entre a pressão e as bolas na trave. E, por fim, voltou a se extravasar ao apito final, com mais danças e sorrisos incontroláveis pela façanha que se tornava real.

Entre os que se esforçaram e os que se alegraram, figurava Aliou Cissé. O camisa 6, dono da braçadeira de capitão, era um dos mais experientes daquele elenco. Jogando na cabeça de área, garantia a segurança para que outros companheiros brilhassem mais à frente. Era um dos homens de confiança do técnico Bruno Metsu e terminou como um dos principais responsáveis por levar Senegal até as quartas de final, em caminhada que tinha bola e ímpeto para seguir ainda além. De qualquer maneira, aquele grupo de senegaleses seria sempre lembrado.

Cissé não teve a chance de disputar outra Copa do Mundo como jogador. Defendeu os Leões de Teranga até 2005, despedindo-se num empate contra Togo, decisivo para tirar sua seleção do Mundial da Alemanha. Sua ligação com a equipe nacional seria retomada apenas em 2012, já aposentado. O ex-capitão virou assistente e, no ano seguinte, técnico do time olímpico. Já em 2015, diante da fraca campanha de Senegal na Copa Africana de Nações, o antigo camisa 6 assumiu a seleção principal. Teve um digno desempenho na CAN 2017 e, mais importante, deu ao elenco uma nova motivação, aproveitando melhor os seus principais jogadores. Conquistou a classificação à Copa de 2018, 16 anos depois daquele êxtase na Coreia do Sul.

Se a experiência em Copas do Mundo é importante para qualquer seleção, Aliou Cissé carregava a incumbência de unir a história separada por mais de uma década. Por isso mesmo, levou à comissão técnica seus ex-companheiros Omar Daf, Tony Sylva e Lamine Diatta, todos presentes em 2002. A reverência dos jogadores atuais aos velhos ídolos se torna evidente. É o que declarou Sadio Mané ao site da Fifa, dias antes da estreia: “Ter ao nosso lado grandes nomes do futebol senegalês é a nossa chance. Eles estão nos guiando e passando sua experiência. Nós pegamos a tocha e estamos escrevendo nossa história”.

Os jogadores também elogiam a maneira como Aliou Cissé se aproximou do grupo. Em 2012, quando acabara de chegar à comissão técnica da equipe olímpica, o então assistente viajou à Europa para se encontrar com algumas das principais promessas. Criou um elo de confiança que permanece, há seis anos. “Ele é próximo dos jogadores. Sempre encontra as palavras certas para realmente nos motivar”, analisa Cheikhou Kouyaté, ao Guardian. Neste caminho, porém, Cissé teve que lidar com uma grande perda. Em 2013, o técnico do milagre na Coreia do Sul, Bruno Metsu, foi vitimado por um câncer. Antes de comandar o meio-campista na seleção, também havia sido seu treinador no Lille e no Sedan. Através do mentor é que o então jogador descobriu sua vocação, que agora exerce à beira do campo.

“Bruno estava muito à frente de seu tempo, ele conseguia unir equipes onde quer que fosse”, analisa Cissé. O capitão de 2002 prefere evitar comparações com o time de 2016. Mas não se nega que muito do que ele aprendeu e vivenciou com Metsu também serve para o atual plantel. “É uma grande geração. O que nós estamos mudando é a mentalidade. Não se trata apenas de fazer um passe ou algum drible, mas sim de melhorar o nível de todo o futebol africano. É o nosso objetivo”, apontou, na época da CAN 2017. Um processo ambicioso de evolução que se notou nesta terça-feira, em Moscou.

Senegal ainda é uma equipe com suas carências. No entanto, apresentou um futebol sólido contra a Polônia. É um time de ações diretas e bons jogadores. Entre o vigor físico defensivo e a velocidade do ataque, os Leões de Teranga voltaram a vencer em Copas do Mundo, logo em sua estreia, 16 anos depois. A prova irrefutável do elo, mais uma vez, aconteceu na comemoração. Enquanto Aliou Cissé se continha, cerrando os punhos para comemorar, os seus jogadores em campo exibiam o legado de 2002: a euforia e a irreverência, presentes em mais uma celebração dançante. A história se repete ao menos no início. O papel do treinador será permitir que, outra vez, se amplie rumo aos mata-matas. Na saída de campo, enfim, o comandante abriu o sorriso e festejou junto à torcida.

“Nós conseguimos controlar o jogo taticamente e emocionalmente. Essa vitória significa que entramos na competição da melhor maneira possível, mas nós sabemos que será um jogo difícil contra o Japão. Garanto que toda a África está torcendo por nós. Recebi telefonemas de todos os cantos. Nós estamos orgulhosos por representar a África”, apontou, na coletiva de imprensa. Foi a única seleção africana a vencer na primeira rodada.

Aliou Cissé é o técnico mais jovem da Copa do Mundo, aos 42 anos. O único negro e um dos dois únicos a treinar seu próprio país entre os representantes africanos. O que recebe o menor salário de todos os 32 comandantes. E, independentemente de tudo isso, um dos mais promissores. Aquele que possui uma história marcante em Copas e permite ao país reviver sua maior alegria. É quem fez 2002 estar ainda mais presente em Moscou.