“Meu pai não teve pai. Não lhe deram esse direito. Tenho, diariamente, o direito a ele negado. Não sei se um dia vou dar a alguém o direito por mim exercido e negado ao meu pai. Não é um dever. O seu, de ser pai na acepção da palavra, ele cumpre. Melhor a cada dia. Entre direitos e deveres, ele me deu o de escolher meu time de coração da forma como melhor entendesse. Sem pressão. Sem achar ser um dever ir atrás das mesmas cores do pai. Nunca aceitou a opinião de quem dizia ser um direito dele escolher o time pelo filho. Meu pai se sentia no dever de me dar o direito à liberdade, essa palavra”.

(‘O time do pai’, texto do livro De Letra: O Futebol É Só Um Detalhe)

O futebol que apaixona não é apenas aquele de arquibancadas calorosas, num domingo de sol na cabeça pelo time de coração. É o do abraço que se dá na comemoração de um gol, do passo acompanhado na chuva pós-derrota, do sorriso compartilhado àquele que sofre igual. O futebol que apaixona não é apenas aquele de gramados verdejantes na tela da televisão, entre números e comentários especializados, embasados ou não. É o do prato de comida dividido em cima do sofá, da gozação sadia com o amigo-rival, do vô ou da vó que nem liga para o futebol, mas está bem ali do seu lado quando a lembrança impregna.

Futebol é o que se joga fora dos grandes estádios, e sim dentro do sonho em comum que permeia qualquer criança com a bola nos pés – que nem precisa ser necessariamente bola, aliás. Futebol é o que se fala de pai para filho, de irmão para irmão, de amigo para amigo, e que serve só de pretexto para construir uma relação de carinho. Futebol estereofônico, glamourizado entre astros e cifras, mas que tem sua verdadeira valia por aquilo que consegue fazer brotar no peito. Que é o que se sente e o que se vive, no qual futebol é só detalhe.

É sobre esse futebol que Leandro Marçal escreve no livro “De Letra: O Futebol É Só Um Detalhe”, do selo Drible de Letra – em contos retirados de sua coluna no site Ludopédio e outros tantos inéditos. Não vá atrás do livro se você espera ler as histórias de grandes craques ou de personagens “de verdade”. Os textos nas 125 páginas falam sobre um esporte que não passa necessariamente na televisão, embora seja mais real do que o vomitado nos noticiários. São personagens muitas vezes fictícios, ainda que totalmente verossímeis. Porque, afinal, um deles pode ser você, ao viajar na narrativa envolvente de cada um dos contos, que remetem bastante ao futebol que se experimenta no cotidiano. A modalidade que não entra pelos olhos, mas sim pelo coração.

E a grande arte de Marçal está nisso: captar a sutileza do que constrói nossa relação com esta coisa “mais importante entre as menos importantes”. Entender o jogo e recontar o que acontece nas principais competições, como fazemos na Trivela, demanda dedicação. Absorver o sentimento e imaginar a poesia, em um nível que não se transmite pelos meios de comunicação, exige sensibilidade – algo para bem poucos. Isto se lê a cada página e torna mais atrativo se transportar àquele universo alternativo. É um livro para devorar em poucas horas, mas, ao mesmo tempo, para revisitar de tempos em tempos, à procura daquilo que está dentro da nossa própria mente. Futebol que nos apaixona, afinal, é memória afetiva.

O livro se divide em três partes. “Futebol na infância” se debruça justamente sobre essa teia de relacionamentos que construímos através do futebol. É de onde foi extraído o parágrafo que abre esta resenha. A segunda, “Futebol: Um universo paralelo”, entra mais no esporte que se vê no estádio ou na televisão, mas deixa martelando algumas coisas na cabeça além dos 90 minutos – por vezes, até existenciais. São reflexões sobre fatos concretos, como o acidente com o avião da Chapecoense ou a venda de Neymar. Por fim, “Futebol daqui pra frente”, se concentra na maneira como a gente se liga no futebol, entre os mais diferentes caminhos e objetos. Vai da representatividade do sanduíche de pernil a pitadas de ficção científica.

Se a literatura sobre o futebol no Brasil carece de títulos, por mais que tenha se expandido nos últimos anos, o futebol puramente literário é algo ainda mais em falta. Isso é o que se lê em “De Letra”. Dos raros exemplares de um futebol que não é só pelo futebol, mas sim pelo dia a dia. Uma leitura que não se encontra em qualquer lugar.

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Ganhe o livro

A Trivela oferecerá um exemplar grátis do livro “De Letra: O Futebol É Só Um Detalhe” aos seus leitores. Para tanto, basta escrever um texto de até dez linhas na caixa de comentários, com o tema “Qual a melhor lembrança que a Copa do Mundo provoca em mim”, resgatando experiências pessoais. Por favor, identifique também seu e-mail. Uma resposta será escolhida pela redação do site e o livro será enviado através dos Correios. A promoção será encerrada às 12h da próxima sexta-feira, 11 de maio.