O que você faz depois de um trabalho brilhante na comissão técnica da Islândia, incluindo classificar o seu país pela primeira vez a uma Copa do Mundo? Pede demissão e vai trabalhar como dentista. Foi o que fez Heimir Hallgrímsson, de 51 anos, que foi o técnico do time nórdico na Copa do Mundo de 2018 na Rússia. Assistente técnico de 2011 a 2014, co-treinador da seleção de 2014 a 2016 e técnico sozinho desde então, ele participou dos dois momentos mais importantes do futebol islandês, na Eurocopa 2016 e na Copa 2018, ambas participações inéditas para os islandeses.

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“Depois de sete bons anos colaborando com a KSI, eu decidi não continuar como técnico. Eu estou feliz e grato por fazer parte desse grupo forte que tivemos. Parte do grupo abriu caminho para as gerações futuras e fez tantas coisas pela primeira vez na história. É um privilégio deixar o projeto como está hoje. Os jogadores no aude da sua carreira e um grupo com muita experiência”, afirmou o técnico, que fez elogios à tudo que foi feito no futebol do país nos últimos anos.

“Estrutura, ambiente de trabalho e fluxos de trabalho. Os bons resultados nos garantiram para os próximos anos. O sucesso e o desempenho criou um respeito pelo futebol islandês. Enquanto os jogadores estão honrados e sejam o principal fator no sucesso, os elementos da comissão técnica são inestimáveis. Os projetos à frente são grandes e empolgantes. Eu agradeço a todos os meus companheiros de trabalho, jogadores e torcedores pela cooperação e eu desejo a todos o maior sucesso nos próximos anos, porque a jornada está no caminho certo”, afirmou o treinador, em comunicado.

“O futebol islandês nunca esteve melhor e nunca atraiu tanta atenção na Islândia e fora do país como agora. Nós tínhamos grandes esperanças que Heimir fosse continuar, mas ele decidiu deixar o cargo, por um pedido dele mesmo, e eu gostaria de agradecê-lo pela cooperação e desejar a ele o melhor no futuro. A KSI irá começar procurar um novo técnico para a seleção do país”, afirmou o presidente da Federação Islandesa de Futebol (KSI), Gudni Bergsson.

Hallgrímson trabalha na seleção da Islândia desde 2011, como assistente técnico. Até ali, tinha trabalhado como técnico no Höttur, um time feminino, depois nos times femininos e masculinos do IBV, ambos clubes islandeses e que ele defendeu como jogador. Ele ficaria conhecido mundialmente mesmo no trabalho na seleção da Islândia, participando dos momentos mais importantes da história do futebol do país até aqui.

Na campanha das Eliminatórias para a Copa de 2014, no Brasil, a Islândia bateu na trave. Na repescagem, perdeu para a Croácia, que conquistou o direito de vir ao Brasil para o Mundial. Em 2014, se tornou co-treinador do time principal ao lado do sueco Lars Lagerback e foi um dos responsáveis por guiar o time ao seu primeiro grande torneio, a Eurocopa de 2016. O time surpreendeu, avançou nas oitavas de final, eliminando a Inglaterra, e caiu diante da anfitriã, França. Foi quando o time chamou mais a atenção do mundo.

A campanha na Copa de 2018 acabou ainda na primeira fase, embora o time tenha surpreendido com um empate por 1 a 1 com a Argentina na estreia. Depois, o time perdeu da Nigéria e da Croácia e acabou eliminado. O treinador decidiu deixar o cargo, apesar dos desejos da KSI de mantê-lo no cargo para a Liga das Nações da Uefa, que começa neste segundo semestre.

Antes da Copa, Hallgrímsson já tinha indicado que poderia deixar o cargo. Em entrevista ao jornal inglês The Sun, ele falou sobre manter a sua prática como dentista. “Eu ainda tenho a minha clínica e eu mantenho meus dedos trabalhando. Então eu tento ir para lá o máximo que eu posso e posso gastar algum tempo e praticar a odontologia. Alguns técnicos jogam golpe, eu pratico odontologia”, afirmou.

Heimir Hallgrimsson no seu consultório de dentista (Foto: reprodução)

Hallgrímsson foi jogador de futebol profissional na Islândia, sem muito destaque, entre 1986 e 2007. Estudou odontologia e exerce a profissão desde a época que estava dentro dos gramados, como jogador, o que é comum na Islândia. “A realidade de um técnico de futebol é que você nunca sabe quando estará sem emprego, então é bom ter outra profissão para exercer. Os clientes gostam, eu gosto. Eles falam de futebol até que eu esteja de saco cheio… Então eu dou anestesia a eles”, brincou Hallgrímsson.

Curiosamente, Hallgrímsson também disse que odeia a famosa comemoração viking, que se tornou muito conhecida no mundo inteiro desde 2016, na Islândia. “No momento, eu odeio. É usada um pouco demais. Foi ótimo, foi um momento, mas toda vez que você sai na rua e, do outro lado, eles começam a bater aquelas palmas, especialmente os estrangeiros”, contou o técnico ao Sun. “era algo nosso, ainda que nós tenhamos roubado da Escócia, mas agora virou algo global, não temos que achar algo novo”.

A Islândia voltará a campo em setembro, nos dias 8 e 11, na estreia da Liga das Nações, contra Suíça e Bélgica, respectivamente. As duas adversárias nestas duas primeiras rodadas estavam na Copa do Mundo da Rússia. Até lá, a Islândia terá que achar um novo técnico para tentar fazer com que o país com menor população que já participou de uma Copa do Mundo continue em sua caminhada histórica.