Um membro do comitê executivo da Fifa que escolheu o Catar como sede da Copa do Mundo 2022, segundo depoimento de Alejandro Burzaco dado durante o julgamento de dirigentes sul-americanos de futebol. Julio Grondona, ex-presidente da AFA (Asociación del Fútbol Argentino), confessou ao executivo que recebeu dinheiro para votar no Catar, além de ter presenciado a negociação com dirigentes catarianos. Pelo depoimento, tudo indica que outros dirigentes sul-americanos, como Ricardo Teixeira, e Nicolas Leoz, também receberam por seus votos.

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Grondona e Burzaco eram muito próximos. O ex-executivo de marketing se tornou uma figura poderosa no futebol sul-americano e argentino em particular. Burzaco era responsável por pagar propina inclusive a membro do então governo Kircher que comandavam o Fútbol para Todos, programa governamental que dirigia o futebol argentino – e não por acaso, a operação era feita pela Torneos y Competencias, empresa que tinha Burzaco como principal executivo. Na época, Burzaco atuava como diretor informal da AFA, mudando datas e horários de jogos com aval de Grondona.

Então vice-presidente da Fifa, do Comitê Executivo da entidade e também da Conmebol, além de coandar a AFA, Julio Grondona confessou o recebimento do dinheiro. O Catar venceu a disputa com Japão, Coreia do Sul, Austrália e Estados Unidos na disputa para sediar o Mundial de 2022. O testemunho foi dado em um Tribunal de Justiça nesta terça-feira, no julgamento de José Maria Marin, ex-presidente da CBF; Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol; e Manuel Burga, ex-presidente da Federação Peruana de Futebol.

A vitória do Catar na disputa para sediar a Copa 2022 foi anunciada em dezembro de 2010 depois de quatro fases de votações. Desde o anúncio surgiram diversas denúncias de irregularidades, que suscitam polêmica sobre a vitória catariana. O testemunho de Burzaco é um dos mais fortes indícios de que houve compra de votos na disputa.

Segundo o relato de Burzaco, ele estava cuidando do pagamento de propina no valor de US$ 1 milhão para Grondona e outro US$ 1 milhão para outro dirigente da Fifa, Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. Grondona informou a Burzaco que ele aceitou propina pelo voto de sede da Copa do Mundo.

O ex-executivo da Torneos y Competencias informou que pagou ao menos US$ 15 milhões em propina para assegurar os direitos de transmissão da Copa América que na época pertenciam a outra empresa de marketing.

Burzaco afirmou que em janeiro de 2011, Grondona disse a ele para também pagar a ele a propina de US$ 1 milhão que era de Teixeira, porque o brasileiro “devia a ele” já que votou pelo Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022.

O ex-executivo de marketing argentino esteve com Nicolás Leoz, então presidente da Conmebol; Ricardo Teixeira, então presidente da CBF; e o próprio Grondona a Zurique para a votação para decidir a sede da Copa, em 2010, e ouviu deles a intenção deles de apoiarem o Catar. “Não era algo privado”, contou Burzaco.

Enquanto a votação acontecia, Burzaco afirmou que Grondona contou a ele que Leoz inicialmente votou pelo Japão, depois na Coreia do Sul. Durante um intervalo, ele e Teixeira puxaram Leoz de lado para “dar uma chacoalhada” e perguntaram: “O que diabos você está fazendo? É você que não está votando no Catar?”. Quando os dirigentes voltaram para a próxima rodada de votos, Leoz votou no Catar, relatou Burzaco.

Grondona não contou a Burzaco a quantidade total de dinheiro que recebeu pelo seu voto no Catar ou quem era a fonte que o pagou. O ex-executivo, porém, afirmou que presenciou uma discussão entre Grondona e os dirigentes do Catar em um evento da Fifa meses depois e que o presidente da AFA estava furioso que havia notícias que o implicavam em corrupção e insinuou que ele recebeu pouco pelo seu  voto. “Basicamente, Grondona disse a eles [dirigentes do Catar]: vocês irão me pagar US$ 80 milhões ou escrevam uma carta dizendo que nunca me pagaram”, contou Burzaco.

O julgamento dos dirigentes sul-americanos continua e devemos ter mais depoimentos com revelações sobre as operações do futebol sul-americano. Ao que parece, é só o começo do novelo e há muito para ser puxado ainda. Mais do que isso, esse é mais um indício que a votação para escolher a sede da Copa 2022 foi manipulada. Resta saber até onde esse novelo de corrupção levará. Se é que irão continuar puxando o fio.