A França não brilhou na Copa do Mundo e, sendo sincero, nem foi necessário. O melhor elenco da competição adotou uma estratégia pragmática para vencê-la. Não fez questão de ter a bola, muitas vezes abdicou dela. Defendeu com muita qualidade, da zaga ao meio-campo, e aproveitou a velocidade de Antoine Griezmann e Kylian Mbappé nos contra-ataques. Quando precisou, recorreu à bola parada para poder adotar sua postura favorita. A concepção da estratégia foi de Didier Deschamps, e ela carrega consigo características marcantes da carreira do treinador francês, para o bem e para o mal.

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Para o bem: o sucesso absoluto. Apesar de ser contestado com frequência, e frequentemente com razão, todos os trabalhos de Deschamps no banco de reserva foram competentes e atingiram seus objetivos. Ele disputou o título francês e chegou à final da Champions League com o Monaco, seu primeiro grande feito. Conquistou o acesso à elite italiana com a Juventus, depois do rebaixamento por causa do escândalo do Calciopoli, mas pediu demissão logo em seguida. Foi campeão francês com o Olympique Marseille, quebrando um jejum de 18 anos. Seu segundo grande feito. E o terceiro: tornou-se o terceiro homem do futebol campeão do mundo como jogador e treinador, ao lado de Zagallo e Beckenbauer.

Capitão do título de 1998, Deschamps torna-se uma figura gigante dentro do futebol francês. A maneira como alcança suas metas pode ser discutida – a parte “para o mal” das características do treinador -, mas precisaríamos brigar com os fatos para negar que ele dá um jeito de chegar lá. Depois da derrota sofrida para Portugal na decisão da Eurocopa, em casa, Deschamps não quis saber de fogos de artifício.

Embora sua equipe não tenha brilhado o tempo inteiro, ele adotou uma tática que potencializasse a qualidade individual de cada um dos seus jogadores: uma defesa impecável, com zagueiros nas laterais e obeliscos no miolo da zaga; um meio-campo que rouba a bola, especialidade de Kanté, e dispara para o contra-ataque, nas arrancadas de Pogba e Matuidi; e um ataque que aproveita a velocidade de Griezmann e Mbappé, apoiado pelo trabalho de movimentação e de pivô de Olivier Giroud.

Se o grande mérito de um treinador na Copa do Mundo é perceber o momento de mudar, Deschamps levou nota dez nesse teste. As alterações foram realizadas logo depois da estreia contra a Austrália, quando os franceses fizeram uma partida morna demais e com muitas dificuldades para criar oportunidades de gol. Após a vitória por 2 a 1, com gol de pênalti e outro meio sem querer, Deschamps se lembrou do que havia dado certo na Eurocopa, com a entrada de Moussa Sissoko, pela direita.

Ele trocou Tolisso por Matuidi, para fortalecer o meio-campo e ganhar um jogador que poderia abrir pelos lados e apoiar o ataque com mais intensidade. Ganhou uma variação da formação 4-3-3, que se manteve a base do time, para um 4-2-3-1, com Matuidi subindo pela esquerda. Além disso, tirou Ousmane Dembélé e colocou Olivier Giroud. Abriu mão do talento enorme do jogador do Barcelona, mas recebeu um jogador que foi importante com a sua movimentação, trabalho de pivô e presença de área – embora pudesse ter dado uns chutes a gol de vez em quando.

Os resultados da França nas últimas competições internacionais foram bons: quartas de final da Copa do Mundo de 2014 e a final da Eruocopa, dois anos depois. Mas a derrota, em casa, para Portugal, como grande favorita, acabou sendo uma frustração pesada. No entanto, passou algumas lições que foram absorvidas por Deschamps. Além da entrada de mais um jogador de meio-campo, Kanté, reserva naquele torneio, foi titular incontestável na Rússia e um dos melhores jogadores.

Mais importante ainda: a mentalidade para encarar a final. Os jogadores admitiram que houve um excesso de confiança antes da partida contra os portugueses, em Paris, o que definitivamente não apareceu no estádio Luzhiniki. Deschamps foi muito bem nesse trabalho, assim como na administração do grupo. Não houve crises ou dramas e jogadores insatisfeitos – pelo menos, nada que tenha vindo a público. Considerando que quase todas as reuniões de franceses para disputar torneios de futebol terminam em pequenas insurgências, isso é basicamente um milagre.

Depois de vencer a Austrália, a França derrotou o Peru, com um grande primeiro tempo, e, já classificada e reserva, fez um jogo vergonhoso contra a Dinamarca. Atropelou a Argentina, o único adversário que cedeu espaços mesmo quando não precisava, e contou com a bola parada – e uma falha de Muslera – para despachar Uruguai e Bélgica. Na maioria das vezes em que foi para o ataque conseguiu colocar a bola nas redes. Pode ter sido apenas sorte, e evidentemente sempre há um pouco disso em campanhas vitoriosas, mas o que mais se ressalta no jogo da França é a eficiência, e ela não vem por acaso.

Vem pelo trabalho liderado por Deschamps, seja no treinamento das jogadas ensaiadas, seja na confiança que ele transferiu para os jogadores de que seriam necessárias poucas oportunidades para fazer os gols que a França precisava. Apesar dos questionamentos que sofreu, e continuará a sofrer porque provavelmente haverá muita discussão sobre a qualidade do jogo francês, Deschamps aprendeu com os erros e as frustrações do começo do seu trabalho para conceber um time campeão. Um time com a cara do seu treinador. Para o bem e para o mal.