Pausa para um relato meio profissional, meio pessoal: há dez anos, a Trivela tinha um formato antigo de blog. Além das colunas, das notícias do dia, esse blog era para que os membros da redação pudessem comentar o que lhes desse na telha e tivesse a ver com futebol. E em 22 de julho de 2008, talvez tenha vindo o mais triste texto que o antigo “blog da redação” registrou: “Amigo”. Nele, Ubiratan Leal lamentava: o coração de Luiz Fernando Casciano Bindi havia parado, aos 35 anos de idade. Morria naquela data, tão precocemente, um amigo da Trivela, um amigo de quase todo mundo da redação da época, um sujeito que simboliza o espírito que a Trivela sempre tentou manter, até hoje: de um site feito por (e para) ensandecidos por futebol e todos os seus desdobramentos.

Tal gosto havia sido incutido em Bindi – “Bindão”, para os amigos mais próximos que não faltavam a ele – desde os primeiros momentos de que ele se lembrava na vida iniciada em 5 de dezembro de 1972: os momentos em que a avó Wally Matarazzo Casciano o colocava em frente ao rádio, para escutar jogos de futebol. O gosto foi fortalecido em 1982, quando se apaixonou, mais do que pela Copa do Mundo, pelos sonoros nomes da seleção da União Soviética (Dasaev, Sulakvelidze, Baltacha, Chivadze, Demianenko, Daraselia, Gavrilov, Bessonov, Bal, Shengelia e Blokhin). Por ali já se via o tamanho da precisão e do fanatismo que Bindi teria por futebol.

Não era a vida profissional dele: Bindi se formou em Geografia, e atuava nesse campo profissional. Ao mesmo tempo, era toda a vida desse paulistano que torcia “pelo Palmeiras, por coração; e pelo Juventus, por amor à Mooca” – mas dizia ter “um time em cada estado, um time em cada país”. Acompanhava todos os jogos que podia, ouvia todos os radialistas que conseguisse ouvir, lia tudo que lhe caísse nas mãos sobre o tema. E a partir disso, começou a desenvolver uma paixão dentro da paixão: escudos. Distintivos. Sim: Bindi era o mais absoluto especialista em distintivos de times de futebol que se pudesse imaginar. Escudos do mundo todo, do Real Madrid ao É Nóis da Vila Alpina, time de bairro de São Paulo. Era das únicas pessoas não-holandesas a saber que aquelas coisas vermelhas no escudo do Heerenveen não são corações, e sim folhas de lírio, reproduzindo a bandeira da Frísia, província holandesa na qual fica a cidade de Heerenveen. Sua coleção particular era admirável: cerca de 50 mil distintivos, cada um com uma história – algumas delas retratadas em “Os distintivos de futebol mais curiosos do mundo” (Panda Books, 2011), livro iniciado por Bindi e concluído postumamente por outro conhecido fanático por futebol, José Renato Sátiro Santiago Júnior.

O tempo passou, surgiu a internet… e só então Bindi pôde dar vazão à grande paixão que era o futebol em sua vida. Todo o material que coletara sobre escudinhos virou um site, o “Distintivos”. Por ela, passou a conhecer outros que dividiam a paixão – como o pessoal do “Jogos Perdidos”, com quem Bindi partia para assistir a partidas anônimas Brasil afora, mesmo que não fosse dos clubes pelos quais torciam. Outro manancial onde ele podia expor todo o conhecimento que tinha (e ganhar mais amigos com isso) era a comunidade Futebol Alternativo, no velho Orkut.

E aos poucos, o que era paixão também começou a virar profissão, paralelamente à geografia. Bindi começou a participar do programa “Fanáticos por Futebol”, que Marcelo Duarte mantinha na Rádio Bandeirantes paulista, com o quadro “Futebol é uma caixinha de surpresas”. Mantinha colunas em vários sites, como o “Papo de Bola”, de Edu Cesar. Era dos principais colaboradores desta Trivela. Montara o próprio blog, também chamado “Futebol é uma caixinha de surpresas” . Dava assessoria gratuita a tantos jornalistas quantos pudesse ajudar – Mauro Beting pode comentar algo sobre isso. Tudo, com extrema paciência (era budista) e grande receptividade a quem quer que precisasse. Bem disse Leandro Iamin, da Central 3, outro amigo dele: “Bindi era daqueles sujeitos para quem, se você ligasse às três da manhã perguntando quanto são dois mais dois, ele diria calma e amistosamente: ‘São quatro, meu caro'”.

Ajudava cada vez mais em livros – forneceu auxílio decisivo a “Escudinhos dos times do mundo inteiro” (Panda Books, 2006), do jornalista Rodolfo Rodrigues. Finalmente, fez o seu próprio: “Futebol é uma caixinha de surpresas” (Panda Books, 2007). Nele, alguns membros da redação da Trivela na época tiveram a honra de fazer o texto de uma das orelhas da publicação. E o texto de Ubiratan Leal (subscrito por Carlos Eduardo Freitas, Caio Maia e Leonardo Bertozzi) deu a chave para compreender quem e como era Luiz Fernando Bindi. Vale transcrever os dois primeiros parágrafos:

“Conhecer futebol – como conhecer qualquer outra coisa nesse mundo – não se limita a decorar dados estatísticos e históricos para cantá-los como uma ladainha sem alma. É preciso entender o futebol. Entender as causas e efeitos dos acontecimentos, o porquê de as coisas serem como são em um emaranhado de fatores que se cruzam de maneira muitas vezes inimaginável. Tendo essa perspectiva, dá para dizer sem medo: Luiz Fernando Bindi conhece futebol. Conhece muito.

Bindi é capaz de ver o mais nobre dos esportes em todas as suas camadas. Apaixona-se pelo jogo com o fervor de um típico neto de italianos, valoriza as origens de cada evento como bom ‘mooquense’ e, geógrafo de formação, sabe bem que estudar a sociedade é o melhor caminho para entender o futebol,um fenômeno social acima de tudo. Tudo com o apreço à precisão histórica de um quase jornalista de formação que já se consolida como jornalista de atuação (e pensar que um dia ele achou que não teria futuro nessa carreira…)”

O conhecimento de Bindi já andava mais em 2008. Ele começara a ser comentarista, nas transmissões da rádio 105 FM paulista. Era um dos colaboradores do blog de outro jornalista, Vitor Birner. Estava sendo mais e mais conhecido por quem quer que acompanhasse futebol com fanatismo… até o aziago 22 de julho de 2008, em que ele deixou a esposa Eliana, a cadela Belinha, a calopsita Sofia, a família e os amigos. É de se pensar o alcance que o trabalho dele teria hoje em dia, com a popularização de Twitter, Facebook, Instagram, podcasts. Talvez você que lê este texto o visse em mais lugares além daqueles em que ele já estava. Talvez só a internet já lhe bastasse. Talvez você o achasse chato, “nerd”. Talvez você se identificasse com o fanatismo que ele transpirava.

Enfim, não deu tempo. O que consola é pensar que, de certa forma, quem é fanático por futebol e conheceu Bindi dá sequência ao espírito que ele sempre teve ao falar dessa grande paixão. Espírito que tinha (e tem, e sempre terá) tudo a ver com a Trivela. E com Luiz Fernando Casciano Bindi.