*Por Joana Bueno, jornalista e dona do Camisa 14

Pouco importa crise ou 7 a 1. Ao menos fora do Brasil a seleção brasileira ainda é sinônimo de futebol-arte, bonito, vencedor. No último domingo 48,5 mil torcedores foram ao Estádio Ernst Happel, em Viena, assistir à equipe da Áustria enfrentar os pentacampeões mundiais, e o clima era bastante diferente de uma semana antes, quando o Nationalteam recebeu a Alemanha em Klagenfurt. Jogadores brasileiros foram aplaudidos quando anunciados e substituídos, o belo gol de Neymar foi celebrado até pela torcida da casa e, mesmo que a maioria dos presentes no estádio tivesse esperança de que a equipe austríaca pudesse vencer os visitantes, ou mesmo marcar um gol de honra, em geral o torcedor voltou para casa satisfeito, mesmo diante de uma derrota de 3 a 0.

É bem verdade que o Brasil não tem com a Áustria a rivalidade que esta tem com o país vizinho. Se uma semana antes o hino alemão chegou a ser até vaiado no Wörtherseestadion, e a torcida austríaca cantou durante quase os 90 minutos e celebrou a primeira vitória contra a Alemanha em 32 anos como se fosse um título, em Viena o clima era amistoso – ao menos fora de campo. Os torcedores cantaram bem menos, provavelmente mais interessados em assistir à partida que em empurrar o seu time – a exceção ficou por conta de uma menina de cerca de nove anos que passou a partida inteira cantando “immer wieder Österreich” (sempre Áustria), até que em meados do segundo tempo o estádio quase inteiro decidiu acompanhá-la. E a honra por receber o maior campeão do mundo e alguns dos maiores craques da atualidade era notável.

Na apresentação dos jogadores, Neymar e Marcelo foram extremamente aplaudidos, e inúmeros torcedores mirins foram ao estádio vestindo a camisa 10 da equipe canarinho ou do Paris Saint-Germain – a idolatria a Neymar é incontestável, não importa o país. Quando Gabriel Jesus deu lugar a Roberto Firmino, o jogador do Liverpool também foi recebido com uma grande ovação. E, por mais que o excesso de firula e as reclamações do atacante do PSG tenham gerado algumas vaias, Neymar foi muito celebrado também ao ser substituído e na comemoração de seu gol, marcado após um drible desconcertante deixar Dragovic estirado na área.

O respeito foi além do futebol, e a homenagem a Maria Esther Bueno também foi motivo de muitos aplausos. Antes do apito inicial, a maior tenista do Brasil foi mostrada no telão enquanto o narrador do estádio contava ao público austríaco alguns de seus feitos. Mesmo que o minuto de silêncio pedido pela CBF tenha sido negado pela federação austríaca, a lenda do tênis foi lembrada e aplaudida.

A postura da Áustria em campo também foi outra. Contra a Alemanha, marcação adiantada, pressionando a saída de bola. Contra o Brasil, a equipe austríaca optou por esperar o Brasil no seu campo de defesa, na expectativa de um contra-ataque. Com a costumeira dificuldade contra times retrancados, a Seleção demorou a criar boas oportunidades em campo e só deslanchou mesmo no segundo tempo. Mesmo que os gols tenham sido marcados pelo celebrado trio ofensivo, formado por Gabriel Jesus, Neymar e Philippe Coutinho, quem se destacou mais uma vez foi Willian, sempre voltando para buscar a bola na defesa e armar boas jogadas e ainda trocando bons passes com Paulinho pela direita.

No fim das contas, o 3 a 0 ficou barato. E terminar a partida sem nenhum jogador lesionado às vésperas da Copa também foi lucro. Enquanto a torcida da casa respeitou os “pontinhos” amarelos no mar vermelho que se tornou a arquibancada do Estádio Ernst Happel e aplaudiu os vencedores, em campo a seleção austríaca não quis saber de clima amistoso. Neymar, principalmente, foi caçado em campo, e aproveitou para valorizar cada falta. A perseguição a um dos maiores astros da Copa fica de aviso: durante o Mundial os adversários devem fazer ainda pior, e é provável que a torcida rival também pegue no pé do atacante, que ainda tem fama de “cai-cai”.

Último amistoso antes da Copa terminado, botei minha bandeira vermelha e branca debaixo do braço – uma cerveja patrocinadora da seleção austríaca colocara bandeiras em cada um dos assentos do estádio, fazendo um bonito espetáculo visual quando agitadas pela torcida – e me dirigi ao metrô a tempo de pegar o trem de volta para a minha cidade, Klagenfurt, a quatro horas de Viena. No vagão lotado, duas senhoras que voltavam de sua tradicional caminhada de fim de semana se surpreenderam com a multidão de camisa vermelha e perguntaram: “A Áustria jogou contra quem? Brasil? E quanto foi? Cinco a zero? Sete?”. Quando disse o placar final, elas ficaram surpresas: “Só três? Jogamos bem, então!”. Por aqui, o Brasil ainda é o país do futebol.

*Sobre a autora

Apaixonada por futebol desde 1981. Entusiasta de quase todos os outros esportes. Turista de estádios. Combinando a bola no pé e os dedos no teclado em seu próprio espaço.

Texto publicado originalmente no blog Camisa 14. Confira outros artigos de Joana Bueno na página.