É no saldo de gols. É apenas a terceira rodada do Campeonato Brasileiro. A essa altura da edição anterior do torneio, o líder, com o mesmo número de pontos, era o Santa Cruz, que acabou rebaixado como vice-lanterna. São todas ponderações válidas e necessárias, mas toda a racionalidade perde força diante do tamanho do simbolismo desta segunda-feira. O dia 29 de novembro de 2016 começou com o futebol em luto pela tragédia que levou embora jogadores, técnico e diretores de uma Chapecoense que vivia sua maior aventura. O dia 29 de maio de 2017, seis meses depois, termina com a Chapecoense na liderança do Campeonato Brasileiro pela primeira vez na história.

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Não podemos perder de vista que a Chapecoense foi obrigada a montar uma equipe do zero, em pouco tempo, sem acesso a nenhum baú de tesouro. Contratou renegados como Wellington Paulista e Reinaldo, autores dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Avaí, na noite desta segunda-feira. E venceu o Campeonato Catarinense. E estaria classificada para as oitavas de final da Libertadores, não fosse o imbróglio Luiz Otávio. E venceu o Atlético Nacional no jogo de ida da Recopa Sul-Americana. E aparece na ponta da tabela do Brasileirão com sete pontos, os mesmos de Corinthians e Cruzeiro, mas com três gols de saldo, um a mais que os concorrentes, o que nunca havia acontecido desde que o clube catarinense estreou na primeira divisão, em 2014.

A Chapecoense saiu da Arena Corinthians com um empate, em um estádio que não costuma reservar pontos para os seus visitantes e contra um time que, uma vez à frente no placar, também não costuma permitir que o adversário marque. Ganhou dos reservas do campeão brasileiro sem correr muitos riscos e venceu o Avaí na reedição da final do Campeonato Catarinense. São sete pontos bem valiosos, embora os rivais catarinenses tenham mostrado muito pouco futebol nesta segunda-feira, na Arena Condá.

A Chapecoense dominou o jogo inteiro. Apodi exigiu a primeira defesa de Kozlinski, logo aos 8 minutos. Betão cortou em cima da linha pouco depois. Aos 16, não teve jeito: Luiz Antonio acertou o travessão, a zaga do Avaí bateu cabeça, e Wellington Paulista mandou a sobra para dentro das redes. Kozlinski fez outra grande intervenção, em cabeçada de Luiz Otávio, antes de Reinaldo ampliar, no fim da etapa inicial, com um firme chute da entrada da área. A segunda etapa foi uma mera formalidade, com exceção das expulsões de Luiz Otávio e Leandro Silva, em um espaço de cinco minutos.

Simplesmente não daria para cobrar mais da Chapecoense, dentro de campo, neste primeiro semestre de reconstrução. Ninguém está dizendo que podem se acomodar, mas os homens de Vágner Mancini já fizeram mais do que se esperava em tão pouco tempo, mesmo que acabem brigando contra o rebaixamento até o fim do Campeonato Brasileiro, uma situação que a solidez do seu futebol, até aqui, não indica que acontecerá. E ainda estão vivos na Copa do Brasil e na Copa Sul-Americana, duas possibilidades de realçar ainda mais o primeiro capítulo da nova era do clube verde.

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