A Bundesliga vive uma janela de transferências realmente modesta. Normalmente, os clubes alemães não são de fazer loucuras em suas contratações e mantém os pés no chão, confiando majoritariamente em atletas jovens. Ainda assim, o poder de barganha da liga sugere a sua redução, diante do que se nota em outros mercados, sobretudo na Premier League e na Serie A. Até o momento, apenas quatro jogadores vieram por valores acima dos €20 milhões – e três deles foram levados pelo Borussia Dortmund, que realizou polpudas vendas ao longo do último ano. Os 18 clubes da primeira divisão investiram €444 milhões em reforços até esta quinta-feira, o menor valor entre as cinco grandes ligas europeias – quase €1 bilhão a menos que a Premier League e 41% do total em relação à Serie A.

O momento de poucos investimentos é questionado na Alemanha. Antigo ídolo da seleção, Stefan Effenberg fez uma análise um tanto quanto desanimadora sobre o cenário. Para ele, não há mais atratividade para se jogar na Bundesliga. Cita o exemplo de Axel Witsel, principal nome adquirido nesta janela, mas que nunca atuou em uma das grandes ligas – embora tenha feito dinheiro em outros momentos da carreira. Segundo o veterano, o abismo só tende a aumentar.

“Quando eu olho para as transferências da Bundesliga, o jogador mais notável que veio de fora é Axel Witsel, contratado pelo Borussia Dortmund. Ele é indubitavelmente um atleta realmente bom, mas chegou do Tianjin Quanjian da China e nunca jogou em uma das melhores ligas da Europa. Se este é um dos mais notáveis jogadores que vieram nesta janela de transferências, então fica claro: a Bundesliga atualmente não é atrativa para os melhores jogadores. E é por isso que estou certo que a diferença entre a Bundesliga e a Premier League será maior nos próximos anos”, avaliou Effenberg, em entrevista ao Sport Bild.

Talvez o melhor exemplo desta mudança de cenário seja Max Meyer. O meio-campista recusou a proposta para permanecer no Schalke 04, pedindo um salário exorbitante. Sem contrato, acabou assinando com o Crystal Palace, um clube com ambições completamente distintas da equipe onde surgiu. Até recebeu sondagens de Arsenal e Liverpool, mas preferiu ir para um time modesto no qual satisfizesse suas altas pedidas financeiras, agora um dos 20 mais bem pagos da Premier League. E, assim, em busca de competitividade, visibilidade ou outros motivos, a Bundesliga perde cada vez mais as suas estrelas.

Nesta janela de transferências, o Bayern seguiu a promessa de não gastar fortunas. Mesmo com um elenco envelhecido e jogadores em declínio, desembolsou apenas €10 milhões, confiando na evolução do canadense Alphonso Davies. Leon Goretzka também chegou, mas sem custos. Se é para gastar, muitos alemães preferem visar jogadores que possam render lucros maiores depois, caso dos negócios feitos pelo RB Leipzig ou de Paulinho, novo nome do Bayer Leverkusen. No mais, o Campeonato Alemão reforça sua imagem como uma liga de desenvolvimento, o que acontece bastante na França, com jogadores jovens procurando as boas estruturas dos clubes para darem um salto. O Dortmund é o mais consagrado neste processo.

Apesar da inflação recente do mercado, esta é a temporada com menores gastos dos clubes nos últimos quatro anos – desde 2014/15. Em 2017/18, por exemplo, os clubes da primeira divisão alemã desembolsaram €272 milhões a mais do que em 2018/19. Além disso, há um ligeiro superávit entre as compras e as vendas de jogadores realizadas na atual janela. Sinais que só reforçar a compreensão da nova realidade.