Quando o Stuttgart entrou em campo na Allianz Arena neste sábado, parecia um mero figurante no palco armado pelo Bayern de Munique. Os campeões da Bundesliga iriam aproveitar seu último jogo em casa para erguer a Salva de Prata. O chope gelado entregue aos bávaros foi entornado aos litros. Mas os suábios também mereceram suas goladas, por aquilo que aprontaram durante a tarde. Enquanto os anfitriões jogavam para cumprir tabela, os visitantes tinham um objetivo a perseguir, o que rendeu o desfecho mais inimaginável: goleada do Stuttgart por 4 a 1, em resultado que pode garantir a equipe na próxima Liga Europa. De uma temporada na qual os alvirrubros pareciam contentes em permanecer na elite após retornarem da segundona, talvez abocanhem um prêmio bem mais coerente à sua própria grandeza.

Não importa muito onde estava a cabeça do Bayern neste sábado. Fato é que o Stuttgart conquistou uma vitória inapelável. Daniel Ginczek abriu o placar aos cinco minutos, antes que Corentin Tolisso empatasse. Mas a partir do final do primeiro tempo, ninguém seguraria os suábios. Anastasios Donis foi o protagonista do jogo e retomou a vantagem antes do intervalo, partindo com tudo após roubar a bola no meio. E com menos de 10 minutos da etapa final, Chadrac Akolo e novamente Ginczek decretavam a surpresa, a um Stuttgart fatal em suas investidas. Já do outro lado, o goleiro Rob-Robert Zieler trabalhou bem para que a vantagem se construísse e se mantivesse, com boas intervenções desde antes da goleada.

O que o Stuttgart conseguiu é significativo. Foi sua primeira vitória sobre o Bayern desde março de 2010 – em time que ainda contava com Cacau, Jens Lehmann e Sami Khedira. A partir de então, os bávaros haviam vencido todos os 16 duelos, com 45 gols marcados e apenas 13 sofridos. Além disso, esta foi apenas a terceira vez que o Bayern tomou quatro ou mais gols dentro da Allianz Arena, desde a inauguração do estádio. A primazia é compartilhada com os 4 a 0 do Real Madrid na Champions de 2013/14 e com os 5 a 2 do Werder Bremen na Bundesliga de 2008/09.

A vitória levou o Stuttgart aos 51 pontos, encerrando o campeonato na sétima posição. Somou apenas dois pontos a menos que o incensado RB Leipzig, além de ficar a quatro da zona de classificação à Liga dos Campeões. Não é pouco, ainda mais quando se considera que, há um ano, os suábios comemoravam a conquista da segundona. E eles podem festejar mais, a depender do resultado da final da Copa da Alemanha. Depois de maltratarem o Bayern, os alvirrubros torcerão ferozmente ao time de Jupp Heynckes. Caso os bávaros batam o Eintracht Frankfurt na decisão, a última vaga na Liga Europa ficará justamente com o sétimo colocado.

Não é isso, de qualquer maneira, que diminuirá ou engrandecerá mais a campanha do Stuttgart. A equipe chegou a flertar com a zona de rebaixamento, especialmente por seu final ruim no primeiro turno, partindo à pausa de inverno com apenas dois pontos de vantagem em relação ao Z-3. O returno, em compensação, foi maravilhoso. Os suábios somaram 34 pontos, com 66% de aproveitamento, menos apenas que o Bayern no período. E várias foram as vítimas de peso, sobretudo nas últimas rodadas. Para ter condições de sonhar com a Liga Europa, os alvirrubros venceram suas quatro últimas partidas. Superaram o Werder Bremen, antes de atrapalharem os planos de Bayer Leverkusen e Hoffenheim no G-4. Por fim, a goleada na Allianz Arena, que culminou a escalada de três posições nestes quatro compromissos finais.

O sucesso do Stuttgart ainda exalta vários personagens bacanas. Ron Robert-Zieler voltou a se colocar entre os melhores goleiros da Alemanha, após a passagem apagada pelo Leicester. Holger Badstuber finalmente teve uma temporada completa livre das lesões sérias, e jogando em bom nível. Benjamin Pavard, Timo Baumgartl, Santiago Ascacíbar, Anastasios Donis e Chadrac Akolo são garotos para ficar de olho. E no ataque, Mario Gómez recobrou a idolatria da torcida, retribuindo com gols e atuações decisivas. A reação no returno foi protagonizada pelo veterano, trazido em janeiro, autor de oito tentos em 16 partidas. Sua única ausência, curiosamente, aconteceu contra o Bayern, mas por um bom motivo: o goleador pediu dispensa para acompanhar o nascimento de seu primeiro filho.

O Stuttgart traçou uma boa estratégia no mercado de transferências. Entre as jovens apostas e os medalhões recrutados, formou uma mescla interessante, com experiência e energia. Já o tempero que faltava foi dado pelo técnico Tayfun Korkut, contratado em janeiro. O comandante vinha de uma passagem frustrada pelo Bayer Leverkusen, durando apenas 12 jogos, com péssimo aproveitamento. Além disso, tinha causado tumulto no Kaiserslautern, ao abandonar o projeto planejado com o clube por desavenças internas. A volta para cidade onde nasceu, fez sua formação como jogador e também trabalhou como técnico da base o beneficiou. Vai com o moral bem alto para a sua primeira temporada completa à frente dos alvirrubros.

Caso a vaga na Liga Europa pinte mesmo, ela imporá uma maratona maior ao Stuttgart. Possivelmente obrigará o elenco a se ampliar. Mas isso é detalhe, em meio à satisfação que se vive entre os suábios. A Mercedes-Benz Arena lotou com mais de 56 mil a cada partida, confiantes neste retorno à primeira divisão. Podem ver agora o seu time reafirmando o seu espaço, a quem a segundona deve ser tratada como um mero ponto fora da curva. O lugar dos alvirrubros é entre os maiores. Fica de exemplo.