Não existe clássico sem tensão. Se não houver o mínimo de veias saltadas no pescoço e vasos sanguíneos cintilando no canto do olho, simples, não é clássico. Obviamente, há níveis diferentes desta apreensão. Não à toa, muitos jogos grandes acabam sem atingir as expectativas porque os jogadores, de tão absorvidos pela atmosfera angustiante, não se desprendem dos próprios fantasmas. Acabam por se esquecer de jogar bola. Uma vitória significativa em um clássico, por outro lado, quase sempre indica quem também vence a guerra de nervos. E ainda que não dê para dizer quem tem razão em um Gre-Nal de gritos, entradas firmes e empurrões, o futebol pendeu ligeiramente para o lado do Internacional. Aproveitou os espaços e se segurou extremamente bem nos momentos de provação. O Beira-Rio vibrou por superar o Grêmio no magro 1 a 0 e, de quebra, manter a liderança no Brasileirão mesmo com um desafio de tamanho calibre.

São raras as épocas em que Inter e Grêmio compartilham a boa fase. Desta vez, porém, dá para dizer que os rivais de Porto Alegre estão entre as equipes mais qualificadas do Brasil. Os colorados contam com várias opções em seu elenco e a única mudança significativa veio com a entrada de Uendel na lateral esquerda, no lugar do suspenso Iago. Já os problemas do Grêmio eram bem mais visíveis. Além das convocações de Kannemann e Éverton, Renato Portaluppi precisou lidar com a lesão de Jael e com o desfalque de última hora do capitão Maicon, com problemas na coxa. Quatro peças importantes na rotação, principalmente por aquilo que se perdia na criação.

O primeiro tempo no Beira-Rio foi mais de tensão do que de qualquer outra coisa. Logo com dez segundos, uma entrada dura deu a tônica de como seria o clássico. E o início contou com um Internacional um pouco melhor, acuando o Grêmio em seu campo de defesa. Os colorados exploravam principalmente os lados do campo, embora não conseguissem finalizar. Aos poucos, o jogo ficaria mais equilibrado, com as equipes alternando momentos. Mas se as chances de gol faltavam, resumidas praticamente a chutes de longa distância, os cartões sobravam. Nenhuma das equipes aliviava nas divididas, com o cartão amarelo subindo aos ares. Sinal do clima, na saída de campo os jogadores de ambas as equipes se desentenderam, em breve entrevero que renderia mais advertências.

O segundo tempo nem começou e os jogadores rodeavam o árbitro, questionando os cartões. No reinício, ao menos, o futebol melhorou. E o Internacional mais uma vez começou mais aceso, tentando buscar os espaços no ataque e contando com a velocidade no apoio. Uma das chaves no sucesso dos colorados neste Brasileirão está na potência oferecida por Patrick e Edenílson no meio-campo. Algo que seria bastante importante durante o Gre-Nal. Edenílson já tinha partido em velocidade algumas vezes no primeiro tempo. Acabou se tornando herói na pressão exercida pelos anfitriões. Méritos totais também de Uendel, que fez um bom jogo. Em lance no qual o Inter se impunha nas proximidades da área, o lateral cruzou e contou com o avanço inteligente do meio-campista, sem ser acompanhado pelos tricolores. Surgiu livre dentro da área e fuzilou de cabeça.

O Grêmio tentou a resposta imediata. E aí surgiu outro protagonista colorado neste Brasileirão, o goleiro Marcelo Lomba. Seriam dois milagres operados pelo arqueiro, primeiro para buscar no cantinho o desvio de André, depois para rebater uma pancada de Geromel dentro da área. Enquanto os gremistas avançavam com a entrada de Pepê, no lugar do apagado Thaciano, Odair Hellmann tentava segurar os adversários mais atrás com a entrada de Leandro Damião, renovando as energias do ataque. O centroavante incomodou, chegando a exigir uma ótima defesa de Marcelo Grohe. Mas a posse de bola era mesmo dos tricolores. Então, se escancarava a capacidade da defesa do Inter, cirúrgica para fazer os seus cortes e manter a entrada da área impenetrável. Victor Cuesta e Rodrigo Moledo mais uma vez de desdobravam no miolo de zaga, enquanto Rodrigo Dourado era soberano na cabeça de área.

Do outro lado, o Grêmio exibia um problema já conhecido. Por mais que a equipe tentasse abafar, tinha dificuldades na criação e em uma transição mais rápida. Sem que os atacantes funcionassem, Renato Portaluppi sacou Luan para a entrada de Jean Pyerre. E o garoto foi importante, dando mais ímpeto ao time, tentando mais as jogadas e chutando como dava. De qualquer maneira, era insuficiente, pela forma como o Inter mantinha o controle em seu campo defensivo. As tensões estavam nas mãos dos colorados. Na reta final do jogo, os dois técnicos fizeram suas últimas trocas. Odair tirou o ovacionado Uendel para a entrada de Fabiano e também deu alguns minutos a D’Alessandro. Já Thonny Anderson se tornou a última alternativa de Renato. Mas as trincheiras estavam bem mais ocupadas, em minutos de mais reclamações do que bola rolando. Ao apito final, como era de se prever, mais confusão. Os jogadores trocaram empurrões no meio-campo e, segundo relatos, também houve briga nos corredores do Beira-Rio.

Independentemente dos entreveros, o Internacional realmente esteve um passo à frente quando a bola rolou. Em um jogo tão igual, os detalhes resolvem, e os colorados conseguiram preponderar neste sentido tanto no ataque quanto na defesa. Já o Grêmio sente um momento de dúvidas na equipe, que não exibe o mesmo futebol de outros tempos, embora tenha potencial para se recuperar, como se viu na vitória épica sobre o Estudiantes na Libertadores. O Brasileirão, de qualquer forma, é bem mais interessante ao Inter. O time de Odair Hellmann recupera a liderança, com os mesmos 49 pontos do São Paulo, mas vantagem no saldo de gols. Já os gremistas aparecem em quinto, a três pontos de alcançar o Flamengo no G-4. Das tensões que se esvaem, o alívio e a comemoração ressoaram no Beira-Rio.