O craque que não costuma errar passes vivia um pesadelo em Sochi. A perfeição de Toni Kroos era justamente a sua perdição. Se a Alemanha fazia uma partida desencontrada contra a Suécia, a falta de confiança crescia quando aquele que sempre acerta começava a falhar no mais trivial. O maestro conhecido por seu aproveitamento absurdo vacilava. Errava passes, como quase nunca acontece. E um desses clamorosos deslizes permitiu que os suecos anotassem o gol que abriu o placar. Não foi o único desacerto do camisa 8, e dois outros quase foram tão custosos quanto aquele. Ainda assim, ele continuava tentando. Não podia se esconder – ainda mais quem, neste momento, carrega a responsabilidade de ser o protagonista da Alemanha, em importância bem maior da que possuía há quatro anos. Com um passe certo, construiu a jogada do gol de empate. Com outros, buscava mudar a própria sorte. E aquele que poderia ser vilão sai como herói, num dos jogos mais dramáticos que o Nationalelf já viveu em Copas. Um acerto pode mudar tudo. E no momento final, no mais exigente, Kroos voltou a ser perfeito. Mais perfeito do que nunca.

A Alemanha que sofre na Copa do Mundo de 2018 sente mais as ausências do que as presenças, pensando no processo que decorreu desde o tetracampeonato mundial no Brasil. Falta um líder como Philipp Lahm, falta um meio-campista enérgico como Bastian Schweinsteiger, falta um matador como Miroslav Klose. Percebem-se as ausências através da apatia do time em vários momentos. Através do sangue que não toma o rosto e não transforma um novo herói, como na final de 2014. Através dos vários e vários erros, de quem parece perseguido uma sina, justamente por ser o atual campeão. Em uma Alemanha carente de lideranças, Toni Kroos naturalmente surge como uma referência, por tudo aquilo que já viveu.

Se em 2010 ele era apenas um garoto ganhando alguns minutos em campo em sua primeira Copa do Mundo, quatro anos depois Kroos se tornou um dos melhores do time, mas sem tantas responsabilidades assim. Sua missão era jogar bola, pura e simplesmente, ajudando o time de Joachim Löw funcionar. Funcionou, em especial no emblema daquela conquista, os 7 a 1. Mas as maiores cargas, especialmente as mentais, recaíam a outras lideranças. Eram Lahm, Schweinsteiger e Klose as três figuras a conduzirem o Nationalelf, por tudo o que já tinham vivido nos Mundiais anteriores, e pela forma como haviam sido marcados pelos insucessos seguidos a uma geração que sofria por não triunfar. Kroos gastou a bola em diversas partidas e, quando não conseguiu ser tão efetivo, a cobrança não recaiu sobre si. E em um dos seus raros erros, certamente respirou aliviado ao ver Gonzalo Higuaín desperdiçar o mais importante de seus famosos gols perdidos, em pleno Maracanã.

A Alemanha não sentiu tanto a ausência e declínio de seus líderes durante as eliminatórias, da Eurocopa ou da Copa. Os entraves vinham em situações de maior temperatura e pressão. A Euro 2016 é um claro exemplo. Kroos assumiu um papel mais destacado, principalmente por sua técnica, mas sucumbiu com o restante da equipe. O volante foi um dos raros a se salvarem na campanha pouco animadora dos alemães rumo às semifinais. Seu domínio no meio não valeu tanto assim, em uma eliminação na qual faltou ao Nationalelf justamente o que sobrou à França: atitude. Por mais que os germânicos tenham botado os anfitriões contra a parede, estiveram distantes de resolver a partida.

Após passear nas Eliminatórias da Copa, a Alemanha deu seus sinais de fraqueza nos amistosos preparatórios rumo à Copa do Mundo. Precisava ainda mais de suas lideranças. E elas surgiriam justamente entre os remanescentes do tetra, em momentos de extrema dúvida. Mats Hummels, Jérôme Boateng, Mesut Özil e Thomas Müller vinham mal tecnicamente. Manuel Neuer, fisicamente, em interrogação que durou até as vésperas da competição. Toni Kroos, por sua vez, já viveu fases melhores no Real Madrid, embora chegasse com o moral elevado ao conquistar o tricampeonato europeu com o Real Madrid. Seria ele, centro gravitacional no estilo de jogo praticado pelos alemães, também o escolhido a carregar o fardo maior como referência do Nationalelf.

Contra o México, Kroos não foi tão bem. Teve dificuldades na marcação, deixou espaços às suas costas, não acertou o pé nas finalizações. Tinha para si, ao menos, o álibi de quem mais insistiu. Não se escondeu. E depois das mudanças realizadas por Joachim Löw para o encontro com a Suécia, suas incumbências aumentavam. Até parecia que o Nationalelf jogaria em seu ritmo, diante do excelente início de jogo dos germânicos. Nos primeiros 13 minutos, o camisa 8 distribuiu 34 passes. O time inteiro dos suecos não passava dos 15.

O problema veio quando Kroos começou a errar. E era em seus desacertos que a Suécia começou a apostar, com a pressão exercida por Marcus Berg e Ola Toivonen. O imponderável aconteceu aos 31 minutos. O passe temeroso do camisa 8, desnecessário, tentando forçar a bola entre dois adversários ao recém-introduzido Ilkay Gündogan, permitiu que os escandinavos abrissem o placar. O gol que, naquele instante, significava a eliminação aos germânicos.O ponto seria recuperar o psicológico. E isso não aconteceu no primeiro tempo. Somente na volta à segunda etapa que a referência técnica melhorou. Uma boa jogada do maestro, aproveitando a projeção de Timo Werner na ponta esquerda, permitiu que o Nationalelf arrancasse o empate.

Novamente, Kroos experimentou o dilema da incerteza. Em vários instantes, ficou no fio da navalha. Seus chutes quase sempre eram bloqueados pela defesa sueca. Seus passes não tinham tanto efeito. Quando acertou um cruzamento perfeito a Mario Gómez, o centroavante parou em um milagre do goleiro Robin Olsen. Além disso, seus avanços significavam um risco. O volante não queria se acomodar, se aproximava da área, dava opções de passes. O problema é que havia o perigo ao expor as suas costas, havia a lacuna ao não se limitar à sua tarefa na organização. A expulsão de Jérôme Boateng tornava tudo mais difícil, mas o Nationalelf precisava botar o peito à prova. Que o time sofresse com seus próprios fantasmas, necessitava encará-los. O que fez, com a ajuda de Kroos.

Durante os acréscimos, a bola procurava Kroos mais do que qualquer outro. Era ele quem precisava tentar. Os passes esticados não vinham dando certo. O lance decisivo acontece em um ataque frustrado da Suécia, que finaliza mal, nas mãos de Neuer. O goleiro lança à direita, mas é Kroos quem pede na esquerda. Avança um pouco e abre com Timo Werner na ponta. O camisa 9, fazendo uma função que poderia muito bem ser de Leroy Sané, parte para cima da marcação de Jimmy Durmaz e, quando ia ganhando a linha de fundo, é derrubado à beira da grande área. Falta perigosa, mas com pouco ângulo, que muito provavelmente proporcionaria a última chance para os alemães levantarem a bola na área.

Então, Toni Kroos apareceu – focado, frio, calculista. Logo se apresentou para cobrar a falta, acompanhado depois por Marco Reus. Reuniu-se com a outra liderança técnica do time e maquinou o que faria. A área da Suécia estava completamente fechada, com dois jogadores na barreira e mais oito se posicionando dentro da área, além do goleiro escandinavo. A Alemanha tinha cinco homens para atacar, além de um esperando a sobra na entrada da área. A inferioridade numérica era clara.

Mas havia uma brecha. Havia uma chance de surpreender e botar a bola no ponto perfeito, onde Robin Olsen não alcançaria. Dependeria de precisão, de coragem, de qualidade. Dependeria de confiança, aquilo que careceu aos alemães em diversos momentos da partida, mas sobrou a Kroos ao longo de sua trajetória. E é este tipo de momento que separa os bons jogadores dos craques. Kroos rolou. Reus ajeitou, dando uma posição mais favorável ao chute. Diante da indecisão dos homens na barreira, o camisa 8 colocou o tempero mais saboroso na bola – de chapa, com curva, longe do alcance do goleiro. Golaço que, em uma Copa do Mundo, se torna antológico. Precisão, coragem, qualidade. Tudo isso reunido em um rompante, o “buzzer beater” capaz de diferenciar os maiores. Kroos é um deles.

A explosão de Toni Kroos vem logo depois. E não tinha como ser de outra maneira. Abre os braços e encara a torcida, como quem quisesse dizer que estava ali, e fez acontecer. Logo depois, foi rodeado pelos companheiros numa celebração enlouquecida, digna da importância do tento. Os ponteiros do relógio andaram mais um pouco até o apito final do árbitro. Então, o camisa 8 desabou, ajoelhado no chão. Longe das lágrimas, demonstrou sua gana e sua vibração. A quem muitas vezes foi acusado de frio, entrou em erupção, em misto de ira e satisfação.

Na saída de campo, ainda mandaria os seus recados. “Fomos muito criticados, às vezes com razão. Muita gente na Alemanha teria ficado feliz se a gente tivesse perdido. O primeiro gol foi, sim, minha culpa. Mas é assim: se você dá 400 passes, acaba errando um ou outro. Tão fácil assim não desistimos”, declarou Kroos. Também ressaltou que o time teve colhões para a virada no segundo tempo. Colhões que teve, mais do que nunca, naquela falta sem ângulo.

A quem não se rende a Toni Kroos, uma das críticas comuns é o excesso de burocracia. De que não aparece nos momentos mais necessários ou não tenta resolver quando a temperatura aumenta. E uma atuação ruim de quem é tão importante ao funcionamento de seus times, além do mais, costuma ser fatal. As 144 vezes em que pegou a bola neste sábado, um recorde nos Mundiais desde que a estatística passou a ser computada, em 1966, pode dizer muito quanto à sua participatividade, mas não necessariamente quanto ao ímpeto. O gol aos 50 do segundo tempo, porém, leva as acusações aos ares. A Alemanha terá mais desafios e precisa corrigir seus erros nesta Copa do Mundo, sem dúvidas. Há um caminho de mais cinco jogos se os germânicos quiserem mesmo buscar o penta. Mas, ainda assim, o gol tardio marca (ao menos por ora) um renascimento. Acima do líder técnico, Kroos também foi aquele que levantou o moral dos alemães. Levantou-se de um pesadelo para acordar em plena glória.