O Liverpool precisou de muitos anos para se acostumar a Wembley. Hoje em dia, tem uma vasta lista de partidas no lendário estádio inglês, mas a primeira visita dos Reds foi apenas em 1950, para decidir a Copa da Inglaterra, contra o Arsenal. Desde então, coleciona dezenas de decisões de FA Cup, de Copas da Liga e de Community Shield, o equivalente à Supercopa da Inglaterra, no local. E uma final de Copa dos Campeões da Europa.

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O primeiro jogo do Wembley original, antes da reforma, foi a decisão da Copa da Inglaterra, entre Bolton e West Ham, em 1923, ano da sua fundação. A partir dessa data, o estádio foi sempre usado para a partida mais importante da FA Cup até ser fechado para a renovação, no começo do novo século. Mas o Liverpool nunca teve muita sorte nessa competição. Havia uma certa maldição. A final contra o Arsenal foi apenas a segunda da história dos Reds e ambas foram perdidas – a primeira, para o Burnley, em 1914, enquanto a Primeira Guerra Mundial já tomava conta da Europa.

O título da Copa da Inglaterra foi levado para Anfield pela primeira vez em 1965, pelo grande time campeão treinado por Bill Shankly. Houve uma gigantesca movimentação de torcedores em busca de ingressos. Shankly recebia centenas de cartas e ligações e tentava responder a todas. Quem não era de Liverpool ou não frequentava Anfield não tinha a menor chance: o treinador daria ingressos apenas para os verdadeiros torcedores dos Reds, os que semana após semana se sacrificavam para apoiar a equipe. Após a vitória por 2 a 1 sobre o Leeds United, as televisões mostraram nacionalmente pela primeira vez a paixão daquele exército vermelho, comemorando o título inédito e cantando o nome de cada um dos jogadores. Quando a noite caiu, Londres foi pintada de vermelho.

O Liverpool disputaria mais três finais de Copa da Inglaterra, outras três de Charity Shield, antecessor do Community Shield, e uma de Copa da Liga nos anos seguintes. Ganhou um pouco mais de experiência em Wembley antes de entrar em campo contra o Club Brugge, para a quarta decisão de Copa dos Campeões do estádio londrino. E como o Real Madrid, a Internazionale, o Mancheter United e o Ajax, poderia ser campeão europeu em seu próprio país. Uma história que completa 40 anos nesta quinta-feira.

A chegada do rei

Dalglish assina contrato com o Liverpool

Foi em uma partida de críquete, segundo o livro Quiet Genius: Bob Paisley, British Football’s Greatest Manager, que a notícia chegou ao secretário executivo do Liverpool, Peter Robinson: um jornalista havia dado a dica de que o Celtic estava finalmente disposto a vender o seu principal jogador. Kenny Dalglish estava no radar dos Reds há bastante tempo, mas eles sempre recebiam a mesma resposta dos escoceses: Dalglish não está à venda. A situação, porém, havia mudado. O jogador estava mais do que nunca afim de uma mudança de ares, e os Hoops precisavam de dinheiro.

Robinson confirmou a informação do jornalista com o Celtic, interrompeu as férias de Bob Paisley e armou um esquema para ir à Escócia às escondidas. Ficou em Liverpool e enviou o treinador ao lado do presidente John Smith para fechar o negócio, o que não era o método usual. Paisley e Smith se hospedaram em um hotel com nomes falsos e se encontraram com Jock Stein depois de uma partida contra o Dumfermline, entrando pelas portas dos fundos. O mistério era para afugentar concorrentes e, pelo lado do Celtic, para que nenhum outro clube soubesse que Dalglish finalmente estava disponível, caso as negociações com o Liverpool fracassassem, de modo a não deteriorar o poder de barganha dos escoceses.

O momento era perfeito. O Liverpool precisava de um substituto para Kevin Keegan, que havia concordado em passar mais um ano em Anfield antes de ser vendido para outro clube europeu. Terminou sua passagem com o título europeu de 1977 e seguiu para o Hamburgo, comprado por £ 500 mil. Desse montante, £ 440 mil foram utilizadas para contratar Dalglish – a transferência mais cara da época era a ida de Paolo Rossi para o Vicenza, por £ 1,7 milhão.

Paisley precisou remodelar o seu ataque para encaixar Dalglish. Mudou de um esquema mais parecido com o 4-3-3 para um 4-4-1-1. O escocês não era tão rápido quanto Keegan. Tinha muito mais imaginação e capacidade de envolver os outros jogadores nas ações ofensivas, segurando a bola em uma posição mais recuada. Faria com que os meias da equipe se tornassem mais artilheiros, e um deles, um dos mais importantes da história do clube, também estava prestes a chegar.

O triunvirato escocês

Souness, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Naquela época, os clubes ingleses, nenhum deles mais do que o Liverpool, especializaram-se em uma manobra para driblar a receita federal. Como os impostos sobre lucros eram gigantescos no Reino Unido, alguns negócios eram fechados nos últimos dias do ano fiscal, mais ou menos na mesma época em que fechava a janela do Campeonato Inglês, no meio de março. A verba gasta em transferências poderia ser declarada como gasto no momento da contratação, em vez de espalhada ao longo do primeiro ano do contrato do jogador, para reduzir o tamanho do superávit. Quem tinha dinheiro sobrando, como era o caso dos Reds, preferia apostar em reforços desconhecidos do que colocar aquelas libras na boca do leão. Um desses jogadores foi Alan Hansen.

Hansen chegou do Partick Thistle, em maio de 1977, por aproximadamente £ 100 mil não dedutíveis do imposto de renda. Foi uma recomendação de Jock Stein, amigo de Paisley. Ainda era jovem, com apenas 22 anos, e disputaria posição com Emlyn Hughes e Phil Thompson, zagueiros já estabelecidos na equipe. Na prática, substituiria Tommy Smith, autor de um dos gols da vitória sobre o Borussia Monchengladbach, em Roma, e que estava nos seus últimos atos pelo Liverpool, que defendia desde o começo da década de sessenta. Estreou contra o Derby County, em Anfield, no fim de setembro, já demonstrando todo o seu potencial. Era calmo e crescia nos momentos decisivos. Ganhou a posição de Hughes na temporada seguinte e disputaria 620 partidas pelo Liverpool. Conquistou oito títulos ingleses e três Copas dos Campeões e foi o capitão da primeira dobradinha da história do clube, em 1986.

Paisley ainda achava que faltava uma presença forte no meio-campo. Ian Callaghan, outro remanescente da era Shankly, também caminhava para o fim da sua passagem por Anfield. Por meio de um vendedor de carros, que fornecia máquinas para os jogadores do Liverpool, o treinador recorreu a Phil Boersma, um ex-jogador dos Reds que o próprio Paisley havia vendido ao Middlesbrough. O clube de Yorkshire tinha em seus quadros mais um escocês, um “urso de jogador com o toque de um violinista”, como Graeme Souness eventualmente seria descrito.

Souness começou carreira no Tottenham, mas, de tanto importunar o lendário Bill Nicholson por uma chance no time principal, foi despachado para o Middlesbrough. O seu gosto pela noite e pelos aditivos etílicos lhe valeram o apelido de Champagne Charlie. Nada que interferisse com o seu futebol ou com a excepcional confiança de que era um jogador especial. E de fato era. Um meio-campista completo, cheio de energia e qualidade técnica, capaz de ditar o ritmo da partida, dar passes improváveis e acertar balaços de fora da área. Em dezembro de 1977, visitou Goodison Park para enfrentar o Everton. Paisley o viu jogar uma última vez antes de fechar negócio por £ 350 mil. Souness chegou a Anfield em janeiro.

Seu primeiro gol pelo Liverpool já foi especial. Um chute de primeira com a perna esquerda que abriu o placar contra o Manchester United. No total, marcou 55 vezes pelos Reds em 359 partidas. Em 1982, tornou-se capitão do time e é, ao lado de Emlyn Hughes, Phil Thompson e Steven Gerrard, um dos quatro homens que levantaram a taça de campeão da Europa pelos Reds. Quando Kenny Dalglish deixou abruptamente o cargo de técnico do Liverpool, em 1991, Souness atendeu ao chamado, deixando para trás um Rangers vencedor, pelo qual já havia conquistado três edições do Campeonato Escocês – e, no fim das contas, acabou sendo um desastre como treinador em Anfield.

O talento escocês sempre foi um catalisador para o Liverpool. Desde Billy Liddel, herói do título pós-guerra, ao time de Shankly, Ron Yeats e Ian St. John. Agora, Paisley tinha três excelentes exemplares do país em torno dos quais poderia construir seu time: Alan Hansen, Graeme Souness e Kenny Dalglish, o triunvirato escocês.

O gol de £ 790 mil

Contratar sangue novo era imperativo para o Liverpool, mas uma pequena revolução não seria executada sem consequências. Depois de dois títulos ingleses seguidos, os Reds não conseguiram a consistência necessária para acompanhar o Nottingham Foreste de Brian Clough, o surpreendente time que conquistou a Inglaterra na sua primeira temporada retornando da segunda divisão. A sólida equipe que eliminaria o Liverpool bicampeão na primeira rodada da edição seguinte da Copa dos Campeões.

Não foi uma campanha ruim, e os dois confrontos diretos com o Forest terminaram empatados, mas, apesar de uma arrancada final de respeito, com nove vitórias e três empates nas últimas 12 rodadas, o Liverpool terminou o Campeonato Inglês a sete pontos do campeão – época em que a vitória ainda valia dois pontos. A sorte nas copas inglesas não foi melhor. Eliminado na estreia da FA Cup para o Chelsea, os Reds alcançaram a final da Copa da Liga. O adversário: o Nottingham Forest. Depois do empate por 0 a 0 no primeiro jogo, em Wembley, o Forest venceu por 1 a 0 o replay em Old Trafford e ficou com a taça.

O Liverpool havia dividido a Charity Shield com o Manchester United, na primeira das três visitas a Wembley naquela temporada, e goleado o Hamburgo, de Kevin Keegan, por 7 a 1 no placar agregado (1 a 1 na Alemanha e 6 a 0 em Anfield). Mas nenhum desses campeonatos tiraria a sensação de vazio da temporada. Apenas mais uma Copa dos Campeões da Europa teria esse efeito.

A campanha foi bem sossegada. O Dynamo Dresden foi batido por 5 a 1, em Anfield, na segunda rodada. Os alemães orientais assustaram na volta, com um desempenho fabuloso, mas ficaram no 2 a 1. O Benfica foi despachado sem cerimônias nas quartas de final, com duas vitórias inglesas. O adversário das semis dava medo. O mesmo Borussia Monchengladbach que havia sido derrotado na final europeia do ano anterior. O placar do jogo de ida, na Alemanha, foi 2 a 1 a favor dos donos da casa. Na volta, um show de Dalglish, que armou a jogada do primeiro gol, marcado por Ray Kennedy, e anotou o segundo. Jimmy Case fechou a vitória por 3 a 0.

O adversário seria outro velho conhecido. O Club Brugge, treinado pelo gênio tático Ernst Happel, havia eliminado Atlético de Madrid e Juventus rumo à final. O clube belga estava acostumado a boas campanhas europeias naquela década e, em 1976, havia perdido para o próprio Liverpool na final da Copa da Uefa. Wembley estava empacotado com 92 mil pessoas, 90% das quais torciam para o Liverpool, anos antes de esta partida tornar-se alvo da entrega desenfreada de ingressos para patrocinadores e neutros. A atmosfera era toda a favor dos ingleses, como se fosse uma excursão escolar a Londres da galera que todas as semanas aparecia em Anfield para apoiar o Liverpool.

Houve cinco mudanças da equipe que havia derrotado o Monchengladbach, um ano antes. Hughes foi deslocado à lateral esquerda, no lugar de Joey Jones, dando lugar a Phil Thompson no coração da defesa. Alan Hansen assumiu o lugar de Tommy Smith, e Callaghan, outro veterano, abriu espaço para Souness. No ataque, Dalglish e David Fairclough substituíram Keegan e Steve Heighway, que voltava de lesão e foi introduzido durante o segundo tempo.

Happel, com a equipe desfalcada, adotou uma postura ultra-defensiva e deu poucos espaços para os campeões europeus. O goleiro Birger Jensen precisou fazer apenas duas grandes defesas, em bomba de Jimmy Case e em uma cabeçada de Hansen. Ray Kennedy perdeu uma grande chance quando, sozinho e na pequena área, desequilibrou-se e mandou para fora. Depois do intervalo, McDermott escapou livre e ficou cara a cara com Jensen, que conseguiu abafar. Dalglish, em uma cobrança rápida de falta, apareceu em ótima situação, mas bateu cruzado para fora.

O único gol da partida surgiu aos 19 minutos do primeiro tempo. McDermott soltou com Dalglish dentro da área, que mandou um balãozinho para a marca do pênalti. A defesa do Brugge cortou. Souness precisou de apenas três toques na bola: um para matá-la no peito, outro para puxar à perna direita e um terceiro para libertar o Kraken. Dalglish recebeu o passe, deixou a bola passar e concluiu, com uma cavadinha por cima de Jensen, um gol que custou £ 790 mil em reforços nos 12 meses anteriores. O primeiro decreto real de Kenny Dalglish, que viria a ser coroado rei pela torcida por tudo que fez pelo Liverpool nos 15 anos posteriores.

O Brugge ainda teve uma chance de ouro para empatar. Hansen errou um recuo, e Clemence saiu do gol para abafar. A sobra ficou para Jan Simoen, que bateu para o gol. Phil Thompson se esticou todo para cortar em cima da linha e determinar que, mais uma vez, a Europa era do Liverpool, duas vezes campeão da Copa dos Campeões e um dos únicos até então a alcançar o feito dentro do seu próprio país, em um estádio Wembley que pulsava em vermelho.