O Santos parecia ter feito um bom negócio para 2018, ao anunciar Jair Ventura. Contratava um técnico promissor, que fez muito mais do que se imaginava com o Botafogo, em uma equipe que excedeu as expectativas até meados de 2017. Não era o comandante perfeito, com alguns entraves já demonstrados à frente dos cariocas (a falta de alternativas e as insistências que o fizeram sair em baixa de General Severiano), mas vinha em ascensão e se sugeria como uma das melhores opções do mercado. Sete meses depois, o saldo é indigesto ao Peixe. O time ainda tateia uma forma de jogar, o aproveitamento não é bom, há claros riscos no Brasileirão, faltavam perspectivas com o treinador. Assim, a diretoria santista resolveu demiti-lo nesta segunda, após o empate contra a Chapecoense no final de semana. Consuma algo esperado, mas que poderia ter vindo antes.

Obviamente, há erros do Santos no processo. O time deixou a desejar no mercado de transferências, o que explica parte das carências da equipe. Mas muito mais discutível é a postura tomada pelos alvinegros ao longo da pausa da Copa do Mundo. Jair Ventura vinha sendo questionado desde o primeiro semestre, com a demissão cogitada às vésperas do Mundial. A diretoria do Peixe bancou o funcionário e deixou que ele trabalhasse com o grupo ao longo do último mês sem jogos. Esperava-se que melhorasse as bases da equipe, até pelas contratações que viriam nas próximas semanas. No entanto, nas primeiras oportunidades, quando ficou aparente que os santistas não evoluíram nada em relação ao que já se via até junho, o treinador perdeu o emprego. O departamento de futebol acabou por jogar fora mais de 30 dias de treinamentos, em que um novo técnico poderia ter se aclimatado ao ambiente e firmado as suas diretrizes. Deu uma segunda chance a Jair e agora precisa arcar com as consequências.

Sem poder chorar pelo leite derramado, fato é que o Santos tinha razão para estar insatisfeito com Jair Ventura – e não apenas pelo momento atual. O treinador chegou justamente para comandar uma mudança na equipe, até pela saída de lideranças importantes. O que se viu, entretanto, era o seu apreço por alguns atletas que não vinham rendendo o esperado e insistindo em formações que não aproveitavam o que tinha à disposição. Podem reclamar da ausência de Bruno Henrique, de fato custosa, mas não é apenas um jogador que desencadeia o desempenho ruim. Pelo contrário, os santistas precisam ser gratos a nomes como Vanderlei e Rodrygo, que salvaram a equipe de resultados piores algumas vezes ao longo do semestre, sobretudo na Libertadores.

Jair Ventura era um técnico com um conceito de jogo bem claro – e um tanto quanto ensimesmado. O treinador vinha renomado por um trabalho defensivo à frente do Botafogo, em que os contra-ataques valeram os principais sucessos dos alvinegros no período. Assumia uma equipe historicamente com vocação ofensiva. No fim das contas, o técnico terminou perdido no meio do caminho. Sequer viu sua proposta, de reagir aos adversários, funcionar. O Peixe nem soube se proteger e nem se tornou letal nos ataques verticais. E contou com um meio-campo tantas vezes improdutivo na criação, que explica um bocado da falta de resultados.

O Santos teve os seus momentos durante a Copa Libertadores, embora o grupo acessível tenha facilitado o caminho, com o time sofrendo mais do que deveria em certas situações. Já no Brasileirão, a equipe não conseguiu engrenar, vencendo apenas equipes da parte inferior da tabela. Faltava uma identidade e faltava também uma força maior como mandante. O 15° lugar na Série A se torna sintomático. E, além dos duelos contra o Independiente na competição continental, há uma pedreira pela frente na Copa do Brasil, com o Cruzeiro pintando como desafio já na próxima semana.

Demitir um treinador, principalmente quando se anunciava um projeto ao seu redor, sempre é algo discutível. Fato é que Jair Ventura mostrou pouco para se imaginar uma reinvenção nos próximos meses, seja em aspectos táticos ou na formação de uma equipe consistente a partir das individualidades. Neste sentido, a saída se torna compreensível. Problema maior ao Santos, agora, é encontrar um substituto. A diretoria já descartou a chegada de um técnico estrangeiro. Entre os primeiros nomes levantados, estão Dorival Júnior e Zé Ricardo.

Neste momento, as perspectivas do Santos precisam ser modestas. O time se movimentou bastante no mercado de transferências, com medalhões do porte de Bryan Ruiz e Carlos Sánchez, além da possível chegada de Derlis González. O costarriquenho e o uruguaio vêm em declínio na carreira, mas podem se tornar lideranças nesta fase conturbada. Vê-los render de maneira uniforme já seria suficiente. Ao clube, as expectativas atuais permitem apenas tentar correr por fora nos mata-matas. De qualquer forma, a prioridade deveria ser mesmo manter os pés no chão e se safar no Brasileirão. De resto, o que vier é lucro e méritos de quem conseguir reconstruir a equipe.

A Jair Ventura, os meses sem clube também podem ser bons. Depois de um início de carreira tão intenso, será importante ao comandante olhar para trás e analisar o que fez, entre erros e acertos. Que tenha achado um jeito de jogar que funcionou por certo tempo, algumas de suas insistências o atrapalharam. Será a maneira para se reafirmar realmente como um dos melhores treinadores da nova fornada, que não se prenderá apenas à campanha histórica do Botafogo rumo à Libertadores. No Santos, suas ideias não deram certo e o fim do casamento acaba mais comemorado do que lamentado pelos torcedores alvinegros.