ESPN aposta na exclusividade do Inglês para se fortalecer: “Pode ter 380 jogos importantes”

Como todo torneio de futebol com 20 clubes e 38 rodadas que respeita a matemática, a próxima temporada da Premier League terá 380 jogos, e a ESPN Brasil promete transmitir todos eles. Sozinha. Ano passado, o canal adquiriu os direitos de transmissão do Campeonato Inglês até 2019, mas decidiu compartilhar o que viria a ser a epopeia do Leicester com a Fox Sports. Agora, quer brincar sozinha e será a única responsável por mostrar as aventuras de José Mourinho e Pep Guardiola em Manchester para o Brasil.

LEIA MAIS: Pogba, um negócio que só faria sentido para o Manchester United

O golpe veio forte, no final de 2014, quando o Esporte Interativo venceu a concorrência para passar a Champions League. Era o principal produto da ESPN Brasil, que já havia sofrido com a chegada do Fox Sports ao mercado brasileiro. Naquela época, a emissora de Murdoch havia exercido a opção de compartilhar o Inglês, e arrebatado a exclusividade do Italiano e do Alemão. Sobrou pouca coisa. Mas a ESPN Brasil recuperou-se e, com acordos e parcerias, está atualmente em cinco dos seis principais campeonatos da Europa: Liga Europa, Italiano, Alemão, Espanhol e Inglês.

A retomada é traduzida em números pelo vice-presidente de jornalismo e produção da ESPN Brasil, João Palomino. Ele afirma, em entrevista exclusiva à Trivela, que a audiência do canal cresceu 26% na temporada 2015/16 em relação à de 2014/15. “Uma das mensagens é se reforçar como casa do futebol internacional”, afirma. “Tem outra que é muito importante, e da qual não abro mão, que é o fortalecimento da própria equipe. Formou-se em torno do Inglês todo um charme. Tem condições de ter 380 jogos importantes”.

Confira a nossa entrevista com Palomino sobre os planos da ESPN Brasil para transmitir o Campeonato Inglês:

Trivela: Por que tomaram a decisão de transmitir todos os jogos do Campeonato Inglês com exclusividade?

Palomino: Ter exclusividade de um campeonato hoje em dia é uma raridade. Você tem isso em campeonatos de pouca expressão. Nós entendemos que ter exclusividade de um campeonato com a relevância do Inglês muda a percepção e o patamar da empresa. Nós somos reconhecidos por termos uma força muito grande no futebol internacional e nos esportes americanos, além de um jornalismo contundente para o futebol nacional. Temos que defender e trabalhar esses pilares. Acreditamos que ter a exclusividade do Campeonato Inglês, e transmitir os 380 jogos, seria muito positivo para a empresa, para a equipe e, no momento em que temos uma concorrência tão forte – legal, bacana, que oferece alternativas -, também estamos oferecendo alternativas nas plataformas que já temos. Se podemos ter o Campeonato Inglês nos nossos canais, com um canal 24 horas de futebol inglês, com uma cobertura em tempo real tão forte como fazemos no site, estamos atendendo nosso fã de esporte da melhor forma possível.

Trivela: Essa decisão afeta algum acordo que a ESPN tem com outras emissoras?

Palomino: Essa questão dos direitos não cria inimizade entre as empresas. Nós dois entramos em uma disputa. Eu quero aquilo para mim, você quer para você, e vamos disputar. Quem oferecer mais dinheiro e melhores condições de exibição, vai adquirir. Isso não afeta em nada a negociação. Não participo das negociações, não é minha área, mas isso acontece rotineiramente: você briga por um direito aqui, enquanto compartilha um direito ali. Temos parceria com o SporTV e com a Fox. Ter a exclusividade não abala essas parcerias. Assim como a Fox e o SporTV têm a estratégia delas, temos a nossa e defendemos a nossa.

Trivela: Vocês tentaram trocar o Inglês por outro campeonato e não conseguiram ou foi de fato uma decisão de transmitir exclusivamente?

Palomino: Todo planejamento foi feito em torno da exclusividade. Entendemos que o Campeonato Inglês é um campeonato importante, porque é inegável que são seis campeonatos internacionais muito importantes: Champions League, Liga Europa, Inglês, Alemão, Espanhol e Italiano. Estamos em cinco dos seis. Deles, não renovamos o direito de um (Champions). Temos os direitos divididos do segundo mais importante entre clubes de vários países (Liga Europa). E dos quatro, temos direitos divididos de três com a Fox: Alemão, Espanhol e Italiano. E dos relevantes, podemos dizer que o Inglês é o único exclusivo. Todos os outros têm algum acordo: Libertadores, Sul-Americana, Brasileiro.

Trivela: Além de audiência, claro, o que mais a ESPN quer ganhar com a exclusividade do Inglês? Reforçar-se como casa do futebol internacional?

Palomino: Essa é uma das mensagens. Tem outra que é muito importante, e da qual não abro mão, que é o fortalecimento da própria equipe. A equipe observar que a empresa está fazendo investimento alto para ter direitos relevantes. E temos direitos relevantes é uma questão que também atende a outros departamentos. Para as afiliadas é importante, para o marketing, para o jornalismo, para o comercial. Tudo isso foi pesado, colocado na balança, para direcionar a decisão que deveria ser tomada. E a partir dela, foi feito toda a racionalização para suportar ter um direito tão importante quanto esse de forma exclusiva.

Trivela: Daria para fazer o mesmo com outros campeonatos, não só exclusividade, mas também a transmissão dos 380 jogos, ou você acha que só a Premier League, por ter tantos times de apelo, comporta essa estratégia?

Palomino: O Italiano tem um número grande de equipes importantes, o Alemão tem um número relativo de equipes interessantes, e o Espanhol tem um número grande de equipes importantes. É claro que se formou em torno do Inglês um charme, justamente por conta de ter um número ainda maior de equipes que disputam o título, ou têm torcida no Brasil, ou que as camisas atraem as pessoas, ou que a história do próprio clube cria uma sinergia com as pessoas. Nunca se imaginou que o Leicester ficaria tão importante. Tem os dois times de Manchester. Tem Arsenal, Tottenham, Chelsea. Tem condições de ter 380 jogos importantes. Nos outros, há um número menor de jogos importantes, mas também há jogos importantes. Eu digo para você que conseguiremos mostrar os 380 jogos. Se tivéssemos outro campeonato exclusivo, seria uma delícia trabalhar com essa grade para oferecer o melhor para as pessoas.

Trivela: Esses 380 jogos serão transmitidos com narrador e comentarista, em português, com equipe da ESPN, ou alguns estarão só a imagem, com som ambiente?

Palomino: Isso ainda será definido porque depende da definição de cada semana. Pode acontecer que, em determinado final de semana, nós disponibilizarmos no Watch, como fazemos com o Alemão, que às vezes vai em inglês ou com som ambiente. Isso pode acontecer. Não está fora do nosso planejamento. Mas é algo feito sempre duas, três semanas (antes), que é aí que sabemos qual nossa capacidade de realização. É assim com qualquer emissora. Você faz as escolhas e as distribui.

Trivela: Haverá um canal 24 horas de Campeonato Inglês no Watch ESPN. O que vai passar nele?

Palomino: É um canal exclusivo da Premier League, produzido pela Premier League. Vamos pegar o melhor desse conteúdo e oferecer ao fã de esporte em vários momentos, assim como exibi-lo 24 horas. Ele é entregue fechado e nós decidimos o que fazer com ele.

Trivela: Que tipo de programação tem nesse canal?

Palomino: Tem programas de debates, jogos clássicos, histórias humanas relativas à maioria dos jogos, tudo isso.

Trivela: Essa estratégia deve fortalecer bastante o Watch ESPN a partir daqui.

Palomino: Acho que fortalece a ESPN. A ramificação é como vamos lidar com isso. Para nós, todos os canais são importantes. Não vamos fortalecer a ESPN+ ou o Watch ESPN. Vamos fortalecer a ESPN. Claro que ESPN+ e Watch receberão agora um conteúdo relevante.

Trivela: O que você acha que falta para os canais de streaming de esporte no Brasil pegarem de vez?

Palomino: Temos um canal que é para banda larga, o Extra. Temos quatro canais: ESPN Brasil, ESPN+, ESPN e o Extra. O Extra tem boa parte da programação dos três canais e está sendo vendido para a banda larga. Este é um movimento que não foge da nossa atenção. Temos que ver como vamos navegar nesse ambiente. Nosso conteúdo está nas operadoras, e há uma preservação desse conteúdo para as operadoras, porque tem gente que paga por isso. Estamos entendendo todos os meios possíveis para chegar ao fã do esporte, mas tem que ser por meios relevantes que sustentam o próprio negócio. Senão, é enxugar gelo. E algo que está sendo um desafio para todas emissoras é o valor dos direitos, nacionais e internacionais. Essa discussão passa necessariamente por decidir onde você vai distribuir. Não somos um canal aberto de televisão. Somos um canal fechado, por assinatura. E há necessidade de preservar esse princípio e decidir onde você vai trafegar. Onde é fácil: você precisa estar no iPad, no mobile, no desktop, em qualquer device que seja possível ter conteúdo, mas o como é mais importante.

Trivela: Já tem algum planejamento para transmissões in loco de partidas do Campeonato Inglês?

Palomino: Isso faz parte do planejamento. Está sendo feito paralelamente. Porque temos que atender os outros campeonatos também. Nós temos que atender os outros campeonatos também. Eu tenho minha opinião. Qual a sua opinião sobre isso?

Trivela: Acho que você sente o jogo melhor, envolve-se com o jogo desde que está indo para o estádio. Entende melhor como está a partida. A visão é melhor, você vê o campo inteiro, vê o jogo coletivamente.

Palomino: Isso para o profissional. E para quem está vendo o jogo pela televisão?

Trivela: O profissional pode usar essas vantagens para passar uma informação melhor para quem está fazendo o jogo, mas depende de o profissional saber fazer isso.

Palomino: Correto. É isso que justifica o investimento que nós fazemos para mandar os caras para fora. Na minha visão, para quem está em casa, quando ele vê o narrador e o comentarista, isso passa um ar – e é impossível ter uma métrica para isso – de credibilidade. É crível. O que eles vão falar é o que estão vendo, não apenas o que está no monitor, assim como você vê o monitor. Queremos inclusive ampliar isso. Não temos ainda uma definição, porque passa por outras discussões. A rodada às vezes prevê três jogos seguidos, e às vezes é um desperdício de dinheiro mandar uma equipe se não tiver jogos colados.

Trivela: 380 jogos de Campeonato Inglês. Não teme uma certa overdose de Campeonato Inglês?

Palomino: Não. Vamos distribuir em vários canais e também no Watch. O campeonato que vai dizer se será legal ou não. Temos certeza que será legal. Tem Mourinho de um lado, Guardiola do outro. Tem Ibrahimovic. Outros técnicos chegando. Tem de novo o Leicester. O Arsenal e o Tottenham precisam colocar a cabeça para fora. Tem um campeonato que promete ser muito disputado. A rigor, o Campeonato Brasileiro também tem 380 jogos. Posso ver os 380 jogos porque tenho o pacote do Premiere. Não acredito nessa overdose. Só se o cara escolher assistir só o Campeonato Inglês.

Trivela: A ESPN divide o Campeonato Espanhol, mas, primariamente, os direitos são dele. Se essa estratégia der certo com o Campeonato Inglês, vocês pensam em fazer a mesma coisa com o Espanhol no futuro?

Palomino: Não posso responder porque não é minha área. Essa estratégia passa por discussões maiores, em outros departamentos, mas acho que são dois pontos de análise. É importante ter exclusividade, pode ter certeza que qualquer empresa, se pudesse, teria a exclusividade de todos os campeonatos. Ao mesmo tempo, dividir fortalece o próprio negócio, a própria TV por assinatura. E já estamos vendo acontece algo que acontece nos EUA. Que não é ter a exclusividade do campeonato, mas do jogo, e alguns campeonatos são exclusivos. Aqui é a mesma coisa. É um mercado muito volátil, que muda demais. Nossa estratégia é sempre participar de todas as discussões. Como você chega para disputar o campeonato dependa da realidade do próprio campeonato. Às vezes é uma quantia que permite adquirir a exclusividade, às vezes é uma quantia que não permite.

TRIVELA FC: Venha ganhar descontos em cervejas, camisas e ainda fazer a Trivela melhor!