Usain Bolt no Manchester United, Usain Bolt no Borussia Dortmund, Usain Bolt no Real Madrid, Usain Bolt no Mamelodi Sundowns, Usain Bolt sei lá onde. De tempos em tempos, o octacampeão olímpico vai visitar o treino de alguma equipe de futebol e surgem notícias dando a entender que ele estaria pensando em se tornar jogador de futebol profissional. Ele alimenta o assunto com declarações calculadas. Tudo dentro do script, o problema é que tem gente – entre imprensa e público – que leva isso a sério.

Então, vamos direto ao assunto: Usain Bolt não se tornará jogador de futebol. E a questão nem é se ele sabe ou não jogar. O jamaicano tem 31 anos e, se tivesse de se profissionalizar em uma nova modalidade, teria sérios problemas de adequação física. Afinal, seu corpo foi desenvolvido para correr muito rápido e talvez seja bastante vulnerável a lesões em movimentos comuns no futebol e raros no atletismo. Isso porque estou descartando o fato de que ele já vinha sofrendo com contusões no esporte que o consagrou.

A questão técnica é outra. Bolt talvez até saiba jogar bem para um boleiro amador, mas teria de passar toda uma pré-temporada fazendo preparação técnica e tática e talvez mais uma temporada em um time de desenvolvimento (equipe B ou C, categoria de base, liga semi-profissional) para estar apto a jogar com um mínimo de seriedade em um clube profissional. Aos 31 anos, ele não teria tempo para isso.

Outra questão muito importante, e sempre ignorada quando se fala seriamente em Bolt como futebolista, é que seu esporte preferido não é o futebol e, se tivesse de arriscar uma segunda carreira, provavelmente a prioridade não seria colocar a bola nos pés. O jamaicano sempre se disse um amante do críquete, esporte pelo qual herdou a paixão do pai. Seu sonho de criança era ser um arremessador da seleção das Índias Ocidentais (no críquete, o Caribe atua como uma seleção única, as Índias Ocidentais). E ele tentou seguir esse desejo. Era arremessador de uma equipe de sua escola quando o técnico percebeu que ele corria muito rápido antes de fazer cada arremesso, sugerindo ao garoto procurar o treinador de atletismo.

O problema é que o críquete é um esporte muito popular em alguns países, como Índia, Austrália, África do Sul e Inglaterra, mas ignorado nos demais. As notícias envolvendo Bolt e o críquete repercutem pouco na imprensa internacional, mas elas existem. Nessa conversa com um jogador da seleção australiana (vídeo em inglês), ele fala sobre como se via jogando no Melbourne Cricket Ground se não seguisse a carreira no atletismo e como aprendeu a gostar do esporte com seu pai. Além disso, mostra um pouco de sua habilidade. No vídeo abaixo, ele está no treino do Mamelodi Sundowns, da África do Sul, e fala sobre como sempre gostou de jogar futebol, mas deixou claro que sua primeira paixão foi o críquete.

Então, se Usain Bolt não tem condições físicas e técnicas para tentar uma carreira no futebol e provavelmente escolheria outra modalidade se pudesse, por que ele continua indo a treinos a falando que quer virar jogador? Ora, porque as pessoas acreditam nisso e dão notícia. E é isso que ele e seus patrocinadores querem, alimentando o mito que se criou em cima do jamaicano, talvez o maior velocista da história e dono de grande carisma. Assim, ele consegue se manter no noticiário mesmo com a carreira nas pistas já encerrada.

Isso significa que suas aparições não deveriam ser apresentadas na imprensa ou discutidas pelo público? Claro que não. Elas geram imagens legais, cenas curiosas e encontros marcantes. Dependendo do caso, até pode surgir uma conversa entre duas estrelas mundiais de modalidades diferentes, algo sempre legal. A questão é tratar esses momentos dessa forma: uma ação de marketing muito boa, e que gera situações legais. Mas não dá para alimentar a ideia de que aquilo pode ser o início de uma nova carreira para o velocista.