A notícia não era exatamente inesperada, mas não deixa de ser uma bomba ao Milan. A Uefa confirmou que o clube não poderá participar de uma edição das competições europeias nas duas próximas temporadas, o que impedirá os rossoneri de entrarem na Liga Europa 2018/19. Os italianos não apresentaram as garantias financeiras pedidas pelo Fair Play Financeiro e as negociações de um acordo voluntário fracassaram. Os prejuízos no último triênio superaram os €30 milhões, conforme determinado pelas regras. Assim, a Fiorentina participará da Liga Europa, enquanto os milanistas poderão se classificar ao torneio em 2019/20, desde que passem pelo crivo do Fair Play Financeiro. O que, no momento, é algo menor diante das incertezas envolvendo o atual dono da instituição, o empresário chinês Yonghong Li.

“A Câmara Adjudicatória do Comitê de Controle Financeiro de Clubes (CFCB), presidida pelo português José Narciso da Cunha Rodrigues, tomou uma decisão relativa ao caso do Milan que lhe foi remetido pelo Investigador Chefe do CFCB, devido à violação do Regulamento de Licenciamento e Fair Play Financeiro da Uefa, especialmente no que toca à regra do equilíbrio de gestão. O clube fica impedido de participar na próxima competição de clubes da UEFA para a qual se qualificasse nas próximas duas (2) temporadas (ou seja, 2018/19 ou 2019/20, se conseguir a qualificação) A decisão completa e fundamentada será publicada no Uefa.com em devido tempo”, afirmou a entidade, em nota oficial.

O Milan fará uma apelação junto à Corte Arbitral do Esporte (CAS), tentando reverter o processo. Segundo as informações da imprensa italiana, a Uefa foi bastante minuciosa em sua punição, para evitar qualquer brecha que permitisse a reversão do caso. O rigor abre mesmo um precedente para que outros clubes representativos também possam ser punidos, como o Paris Saint-Germain e o Manchester City. Será um ponto importante a monitorar sobre o Fair Play Financeiro, diante das acusações de sua leniência com algumas equipes.

Cabe ressaltar que o desequilíbrio nas contas do Milan durante o último triênio considera o período de gestão de Silvio Berlusconi, com dívidas correspondentes a €220 milhões. A Uefa chegou a advertir Yonghong Li sobre o entrave, mas os rossoneri investiram alto em contratações ao longo da última temporada. Além disso, o chinês não cumpriu com compromissos internos para aumentar o capital do clube e oferecer as garantias financeiras. Calcula-se que a dívida atual do clube cheguem a €100 milhões. A entidade europeia fez um acompanhamento a partir de dezembro de 2017, sem aceitar os acordos apresentados pelos milanistas.

Os entraves do Milan, ainda assim, são bem mais amplos que a mera questão do Fair Play Financeiro. Yonghong Li concluiu a transação de compra do Milan depois de firmar um empréstimo de €300 milhões junto a um fundo de investimentos, em juros que chegam na casa dos €80 milhões. Nos últimos meses, o empresário chinês buscava renegociar a dívida ou encontrar uma nova forma de cobrir o rombo com novos empréstimos, sem sucesso. Há diversas suspeitas sobre a legitimidade dos negócios do magnata, incluindo a insolvência de companhias na China e as acusações de que seria um “laranja” agindo por outras pessoas.

Diante dos atrasos de Li em pagar os valores acordados, o Elliott Management, responsável pelo empréstimo, deverá assumir o controle do Milan. À companhia americana, será importante este novo passo para que seu patrimônio não desvalorize, buscando compradores à agremiação. Anteriormente, o chinês já vinham negociando a possibilidade de encontrar novos investidores que comprem ao menos parte de suas ações. Rocco Commisso, dono do New York Cosmos, e Thomas Ricketts, da família que gerencia o Chicago Cubs na MLB, seriam dois potenciais interessados.

Nesta semana, Commisso garantiu que o negócio sairá apenas “em seus próprios termos” e que não aceitará ser acionista minoritário. O bilionário estava próximo de adquirir o Milan, em transação avaliada em €500 milhões, mais garantias quanto ao pagamento dos empréstimos. Todavia, quando o negócio estava pronto para ser fechado, Li teria mudado de ideia e tentado manter entre 25 e 30% das ações rossoneri. Irritado, Commisso resolveu dar um passo para trás, por desejar tomar o controle total da agremiação.

Veículos como a Sky Sports Italia e o Tuttosport especulam que esta é uma manobra de Li, aguardando o valor proposto por Thomas Ricketts. No entanto, o Milano Finanza também aventa a possibilidade de que a recusa é uma jogada do Elliott Management, que tomará posse do clube se o chinês não cumprir seus compromissos até o próximo mês de outubro. A companhia americana será dona do clube por uma dívida de €303 milhões, valor bastante inferior aos €740 milhões oferecidos pelo chinês a Berlusconi em 2017.

A ausência do Milan na Liga Europa representa um prejuízo de cerca de €20 milhões, valor relativamente pequeno diante das possibilidades do clube. No entanto, é um dano muito maior à imagem dos rossoneri, considerando que há um fato concreto sobre a instabilidade financeira, o que tende a desvalorizar as negociações na busca de um novo comprador, assim como pode dificultar até mesmo a vinda de jogadores diante dos entraves. Resta saber como as turbulências afetarão o desenvolvimento da temporada da equipe, tentando se reerguer e buscar uma vaga na Liga dos Campeões. Por ora, este é um assunto secundário. A prioridade deverá ser mesmo a estabilidade financeira – e, ao que tudo indica, sem mais Li como dono, o que pode ajudar na apelação junto ao CAS.