Decepção é um dos sentimentos mais comuns na vida de qualquer pessoa. Quando você passa pelos corredores de uma locadora e vê um filme sobre Garrincha, surge o primeiro grande motivo para alugar a fita. Quando começa a ler a sinopse e descobre que o filme é “baseado na obra de Ruy Castro” tem-se então um segundo e igualmente forte motivo para levar o DVD para casa. Pois bem: Garrincha – Estrela Solitária (Brasil, 2005), de Milton Alencar, é um filme sofrível.

O livro de Ruy Castro é espetacular no detalhamento da pesquisa realizada e pela forma como o autor organiza as informações garimpadas. Em tese, deveria facilitar a criação de um filme sobre a vida do que muitos afirmam ter sido o segundo maior jogador brasileiro de todos os tempos. Ou o maior, se contarmos apenas os ´mortais´. É normal um filme baseado num livro não ser tão bom quanto o original, mas o que mais assusta na obra de Milton Alencar é a assustadora falta de fidelidade ao livro de Castro.

Quem leu o livro se pergunta, por exemplo, onde foram parar figuras centrais na vida da “Alegria do Povo” como Carlito Rocha, mitológico cartola do Botafogo, ou Armando Nogueira e Nélson Rodrigues, que testemunharam muitas das façanhas do gênio. Apenas Nilton Santos recebe o merecido destaque no filme. Fatos como os principais títulos de Mané pelo Botafogo, sua passagem fracassada pelo Corinthians e a frustrante participação na Copa de 1966 são solenemente ignorados. Os problemas no joelho, que transformaram em tango uma vida que era puro samba, também passam quase despercebidos no filme.

Grande parte da história é narrada em primeira pessoa e o diretor abusa dos “flashbacks”, usando estranhamente como ponto de partida o desfile da Mangueira no carnaval de 80, quando Garrincha, então um zumbi de si mesmo, saiu como destaque. O desempenho dos atores, mesmo dos conhecidos André Gonçalves Taís Araújo e Marília Pêra, chega a ser patético e determinadas cenas guardam uma deprimente semelhança com os chamados filmes B, tamanha a falta de expressão, realismo e qualidade.

Também desabona o filme a desproporção entre as cenas de sexo e futebol. É sabido que Mané era infernal nos dois aspectos, mas o filme mostra muito mais os glúteos do craque em suas peripécias sexuais do que suas pernas tortas em suas odisséias esportivas. Parece que o diretor foi acometido por uma nostalgia das pornochanchadas brasileiras dos anos 70 e 80. A economia quanto aos momentos espetaculares da carreira do craque chega a ser irritante. Quem vê o filme fica com a clara impressão que a Copa de 1958 foi mesmo uma versão sueca e sem returno do campeonato estadual do Rio de Janeiro.

Para não dizer que o filme não tem mérito algum, merecem destaque positivo as cenas que retratam a influência indireta e fundamental de Elza Soares na conquista do bicampeonato mundial, sua famosa visita ao vestiário após a final contra a Tchecoslováquia e os trejeitos da cantora bem interpretados por Taís Araújo. As imagens da recepção dos bicampeões no Rio de Janeiro também são interessantes. Deve-se registrar também que o filme recebeu 6 premiações.

Enfim, entre prós e contras o filme deixa bastante a desejar. É amador, não prende a atenção do telespectador, é infiel ao livro, não parece ter sido feito para os amantes do futebol e joga no lixo uma oportunidade de ouro para contar um dos maiores dramas da história do nosso futebol. O encerramento do filme resume tudo isso: quando se espera o tradicional texto de encerramento de uma obra dessa natureza, tudo que se lê é: “Garrincha morreu em janeiro de 1983”. Se um inconformado telespectador for então em busca de imagens, gols e depoimentos na sessão “Extras” do DVD, dará com os burro n’água. Quem quiser conhecer a Estrela Solitária deve matar o desejo com o livro e não o filme.