Antoine Griezmann não conseguia dissimular o abatimento visível em seu rosto, e nem tinha motivos para isso. Qualquer pessoa compreendia a decepção que sentiu dois anos atrás. Depois de sucumbir na final da Champions, perdendo um pênalti no tempo normal, ele amargaria outra derrota dolorosa naquele 10 de julho de 2016. Diante do Stade de France lotado, liderando uma França cheia de expectativas, não pôde fazer a diferença na decisão da Eurocopa. O camisa 7 arrebentou o campeonato inteiro. Merecidamente, recebeu o prêmio de melhor jogador. No entanto, entre um milagre de Rui Patrício e uma cabeçada por cima do travessão, não conseguiu ser o herói que Éderzito se tornou a Portugal. Foram dois anos de espera. Enfim, dois anos recompensadores, por tudo o que o atacante viveu em um novo domingo de julho. Ao longo da Copa, se não teve um desempenho arrebatador, foi o craque que a França precisava. Jogou com inteligência, chamando a responsabilidade para organizar o jogo em vários momentos. E, na final, protagonizou os Bleus rumo ao bicampeonato mundial. Mais uma vez, não precisou esconder as lágrimas que rolavam. Sua felicidade era plena, redentora.

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Em uma seleção francesa que não foi brilhante, mas jogou de maneira eficiente, Griezmann serviu de referência ao ataque. E se engrandeceu jogo a jogo, a partir dos mata-matas. Contra a Argentina, acabou sendo um coadjuvante da tarde de Kylian Mbappé, aproveitando o pênalti sofrido para colocar os Bleus em vantagem. Diante do Uruguai, fez a diferença tanto pela assistência quanto pelo gol, com as colaborações de Raphaël Varane e Fernando Muslera. Já nas semifinais, diante da Bélgica, pôde apresentar a sua excelente leitura de jogo. A assistência para Samuel Umtiti acabou sendo um bônus, diante da maneira como o atacante atuou, fazendo os Bleus funcionarem. Buscou o jogo no meio-campo, ajudou na construção, criou um punhado de chances, arriscou a gol. O camisa 7 jogou como um 10 ao longo do torneio, mais concentrado em pensar do que em resolver.

O crescimento de Griezmann ao longo da Copa do Mundo chegou ao seu ponto máximo no Luzhniki, em pleno domingo da final. Há várias discussões sobre a partida, das decisões da arbitragem à atuação superior dos croatas durante boa parte do tempo. Entretanto, se a França encerrou a noite com a taça nas mãos, a explicação passa invariavelmente pelos pés do atacante. Cavou a falta e mandou a bola na área, no lance que valeu o primeiro gol, diante da infelicidade de Mario Mandzukic. Anotou o segundo na marca da cal. Preparou a jogada para que resultou no terceiro, de Paul Pogba. Dominou com categoria, ajeitou e passou ao meio-campista tentar duas vezes.

O gol de Griezmann na decisão, em especial, possui um grande significado. O pênalti recolocava o camisa 7 na marca da cal. Retomava lembranças sobre como o seu 2016 terminou frustrante, independentemente do tanto que arrebentou. Desta vez, o nível de concentração transparecia em sua face, extremamente compenetrado. Pensativo naquilo que deveria fazer, por mais que os velhos temores sobre o que não tinha feito há dois anos talvez martelasse. Naquela ocasião, o colchonero preferiu nem refletir, enchendo o pé e esbarrando o travessão. Desta vez, a calma lhe valeu bem mais. Esperou a movimentação de Danijel Subasic e, ao ver o goleiro se deslocando apressadamente à sua esquerda, rolou a bola segura para a direita. Um peso saía das costas.

O primeiro tempo de Griezmann, por mais decisivo que tenha sido, não foi tão bom. A França como um todo não jogava bem. N’Golo Kanté não funcionava no meio-campo e, a partir disso, a Croácia conseguia se impor. O segundo tempo foi bem melhor aos Bleus, mais leve pelos fantasmas que não existiam mais ao camisa 7. Pois ele ajudou bem mais nos 45 minutos finais, principalmente pela maneira como participou. Muito ligado na primeira meia hora, deu velocidade ao time e permitiu que os franceses ampliassem à diferença. Depois, trataria de esfriar o duelo, prendendo e controlando. Além do mais, sem a posse, se desdobrou na marcação para segurar a vitória. Ao lado de Paul Pogba, teve mais ações do que qualquer outro em sua equipe. Confiança, que se converteu em sorriso.

A experiência do brilho impotente de 2016 forjou um protagonista ciente de sua responsabilidade. Um cara de jogo grande, como a decisão de uma Copa. E ao apito final, o reconhecimento a Griezmann vinha dos próprios companheiros. Vários deles saíram correndo em sua direção. Carregaram o atacante nos braços, festejando aquele que fez a ambição se transformar em realidade dentro do Luzhniki, diante de todas as dificuldades. Sem o camisa 7, possivelmente não teriam conseguido.

Após os abraços em seus companheiros e a euforia do sonho consumado, Griezmann viveu um momento mais introspectivo. Passou a encarar as arquibancadas, procurando a sua família. Chorou, copiosamente, em turbilhão de sentimentos. Terminou por desaguar em meio à chuva que caiu durante a entrega da taça, bem mais alegre. Tesouro nas mãos, parecia não querer largá-la. No outro braço, a filhinha compartilhava o momento eterno. “Eu nem sei onde estou. Estou muito feliz. Foi um jogo muito difícil. Começamos timidamente, mas depois conseguimos fazer a diferença”, declarou, na saída de campo, em meio à empolgação.

Griezmann foi eleito como o melhor em campo. Recebeu também a Bola de Bronze, como terceiro melhor da competição – uma condecoração que até poderia ter sido melhor. Foi o craque da França em uma Eurocopa e, agora, em uma Copa do Mundo, que já o coloca em um lugar especial na história dos Bleus. Aos 27 anos, tem talento e tempo para mais. Mais no próprio Atlético de Madrid, onde já vinha de uma final espetacular na Liga Europa e reiterou o seu compromisso, renovando o seu contrato durante o Mundial. Mais para se mostrar ainda um atacante letal e incisivo, como em outros momentos da carreira, mas também um jogador acima da média por sua inteligência e pela maneira como sente o jogo. Uma referência da França bicampeã.