Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A Colômbia deixou a Copa do Mundo de 2014 com o moral bem alto. Fez uma campanha muito boa na fase de grupos, eliminou o Uruguai em atuação de gala e dificultou bastante a vida do Brasil. Os jogadores foram recebidos como heróis nacionais após o melhor desempenho do país em Mundiais. Mesmo que alguns veteranos saíssem de cena, existia a expectativa de que os Cafeteros melhorassem os seus resultados, considerando a quantidade de jovens valores no elenco de José Pekerman.

A campanha da Colômbia nas Eliminatórias, porém, foi oscilante. A classificação veio de maneira mais apertada em comparação ao que se viu em 2014, com a defesa sem demonstrar a mesma segurança e o ataque marcando menos gols. As quatro primeiras rodadas, aliás, já ligaram o sinal de alerta. Os Cafeteros conquistaram quatro pontos, sofrendo uma derrota acachapante para o Uruguai na visita a Montevidéu e também perdendo para a Argentina, quando os albicelestes visitaram Barranquilla.

Somente depois disso é que a Colômbia tomou impulso. Emendou três vitórias consecutivas, até sair derrotada na visita ao Brasil, fechando o turno com o triunfo sobre o Paraguai. Na retomada do segundo turno, mais tropeços em casa e excesso de empates. Um resultado crucial aconteceu em março de 2017, quando o time de José Pekerman bateu o Equador no confronto direto em Quito. O problema é que a equipe não engrenou e, na penúltima rodada, viu sua situação perigar bastante. Dentro de casa, os colombianos perderam ante o Paraguai, com uma virada inacreditável nos minutos finais. Iam para o último compromisso na zona de classificação, mas com chances de fracassar se não vencessem o Peru em Lima.

Em jogo amarrado no Estádio Nacional, James Rodríguez anotou o gol que dava tranquilidade à Colômbia. Quando Paolo Guerrero empatou, em falha bisonha de David Ospina, a igualdade já era suficiente. E assim aconteceu, com os dois times segurando um resultado benéfico a ambos, em que ninguém parecia disposto a atacar. Valeu a quarta colocação aos colombianos, com apenas sete vitórias nas 18 partidas, além de saldo de gols modesto de dois tentos positivos.

Antes disso, a Colômbia também ficou devendo nas duas edições da Copa América. Em 2015, fez uma campanha burocrática e caiu nas quartas de final diante da Argentina, nos pênaltis. Já em 2016, um pouco mais de ânimo, mas sem brilhantismo. Após eliminar o Peru, caiu nas semifinais, derrotada pelo Chile. Acabou se contentando com a terceira colocação, pouco a quem se projetava como um candidato às finais, por aquilo que vinha aprontando nos anos anteriores.

Por fim, a Colômbia não convenceu totalmente nos últimos amistosos. Conquistou um resultado histórico contra a França, é verdade. Após tomar dois gols em 25 minutos, buscou a virada por 3 a 2 em Saint-Denis, em atuação fatal no ataque. Por outro lado, os Cafeteros só empataram com Austrália e Egito, além de perderem para a Coreia do Sul. Pekerman já não é a unanimidade de outros tempos, enquanto o momento individual de alguns jogadores influencia. De qualquer maneira, é um elenco forte e com potencial de dominar um grupo equilibrado – como já tinha sido o de 2014, aliás.

Como joga

Mesmo sem acumular resultados que impressionam, a Colômbia apresenta variações táticas, e isso pode ser importante rumo à Copa do Mundo. José Pekerman adapta suas táticas conforme os adversários e também às peças que tem à sua disposição. Majoritariamente, os Cafeteros são escalados no 4-2-3-1, no qual a força do time se concentra na trinca de meias municiando o centroavante de referência. Mas Pekerman experimentou outras formas de se jogar ao longo dos últimos meses – o 4-4-2 e o 4-1-4-1 como principais. Pode ganhar mais presença de área na linha de frente ou boa chegada no apoio, enquanto sem a bola tem a chance de primar pela compactação ou pela marcação mais adiantada.

A defesa é o setor que mais mudou em relação a 2014. David Ospina continua no gol, menos confiável do que em outros tempos, mas ainda é o principal nome que o país tem à disposição. Já na defesa, várias novidades. O miolo de zaga ganhou muito mais mobilidade, com as ascensões de Yerry Mina e Davinson Sánchez, jogadores para tomar conta da posição por anos. Nem sempre são seguros, mas o ganho é inegável. Na lateral direita, Santiago Arias é outro que se afirmou, campeão holandês com o PSV e constante no atual ciclo da seleção. O lamento fica à esquerda, onde Frank Fabra parecia pronto a estourar, mas sofreu uma lesão às portas do Mundial. Ainda assim, nada de recorrer aos veteranos neste primeiro momento. Johan Mojica vem de ótima temporada com o Girona e, embora não tenha tanta experiência na seleção, mantém o nível. Podendo jogar também no meio, é mais ofensivo.

A faixa central deve repetir a dupla de quatro anos atrás. Carlos Sánchez e Abel Aguilar são homens de confiança de Pekerman há tempos, combinando boa proteção e simplicidade para jogar. Uma lesão recente de Aguilar pode colocar em xeque seu posto, mas a reposição é tão boa (ou melhor) quanto. Wilmar Barrios e Jefferson Lerma são outros dois que apareceram só recentemente à seleção, mas chegam à Rússia referendados em seus clubes. O primeiro é imprescindível no Boca Juniors, enquanto o segundo foi destaque pelo Levante no Espanhol.

As alternativas para se modificar o time começam um pouco mais neste setor. Se quiser, Pekerman pode deixar Carlos Sánchez plantado na cabeça de área e adiantar Lerma à faixa seguinte, com quatro homens. Afinal, as meias colombianas estão muito bem servidas. Juan Guillermo Cuadrado e James Rodríguez se tornam as referências por ali, com o camisa 10 podendo atuar centralizado ou aberto pela esquerda. Mateus Uribe é um coringa de Pekerman e uma das escolhas preferidas do treinador nos últimos meses, podendo preencher o meio ou entrar em qualquer uma das pontas. Oferece mais técnica e também costuma anotar os seus gols, comparecendo à frente. Juan Fernando Quintero, por sua vez, auxiliaria na armação. Além disso, há jogadores mais agressivos para entrarem pelos lados, em especial Luis Muriel e José Izquierdo.

Na frente, a grande certeza é Radamel Falcao García, enfim pronto para disputar a sua primeira Copa do Mundo. O desempenho do capitão caiu no último semestre, com o Monaco. De qualquer maneira, é imprescindível e demonstrou isso na reta final das Eliminatórias, com gols importantes. Em forma, o Tigre de Santa Marta é letal e pode fazer a diferença em um torneio de tiro curto. Caso Pekerman decida utilizar dois homens mais centralizados, Muriel é o principal candidato, com Carlos Bacca fazendo sombra e Miguel Borja correndo por fora. Uma pena que as contusões tenham custado o sonho de outro atleta da linha de frente desta vez: Duván Zapata veio de bom ano com a Sampdoria, mas não se recuperou a tempo de ser incluído na lista final.

Aliás, vale ressaltar como a Colômbia teve uma das convocações mais parelhas à Copa do Mundo. Alguns jogadores preteridos por Pekerman poderiam constar na convocação final sem trazer prejuízos. William Tesillo, vendido pelo Independiente Santa Fe ao León, seria um bom zagueiro reserva. Gustavo Cuéllar e Victor Cantillo vêm em ótima sequência recente, volantes de boa saída de bola, mas perderam a disputa com Lerma e Barrios. Edwin Cardona foi importante em vários momentos do ciclo e tem muita qualidade individual, mas os problemas físicos e disciplinares pesam contra. E existiam outros medalhões em declínio, como Teo Gutiérrez e Gio Moreno.

Independentemente da escolha, a Colômbia conta com um time que possui potência física e um jogo bastante vertical no ataque. Jogadas de linha de fundo e bolas paradas serão armas importantes à equipe. Além disso, será fundamental encontrar um equilíbrio entre a agressividade e a proteção.

Time base: Ospina, Arias, Davinson Sánchez, Mina, Mojica; Carlos Sánchez, Abel Aguilar (Lerma); Cuadrado, James, Uribe (Muriel); Falcao. Técnico: José Pekerman.

Dono do time

James Rodríguez e Radamel Falcao García

Falcao García e James Rodríguez (Foto: Getty Images)

De maneiras diferentes, a Colômbia terá dois protagonistas. James Rodríguez é o grande talento do time. O camisa 10 vem de uma Copa do Mundo espetacular em 2014. O ciclo posterior acabou decepcionando, principalmente por sua passagem pelo Real Madrid e as dificuldades em manter o rendimento. Contudo, não costuma deixar a seleção na mão. E, mais importante, é um jogador mais completo desde que chegou ao Bayern de Munique. O craque demonstrou outra face na Baviera, ajudando mais na construção de jogo ou mesmo na marcação. Pode ser um trunfo a Pekerman, ainda que a tendência seja mesmo deixar o meia com liberdade para atacar, seja pela ponta esquerda ou centralizado na armação. A seleção se vale demais não apenas de seus passes açucarados, como também de sua qualidade nas finalizações. Os melhores momentos nas Eliminatórias dependeram bastante de seu poder de fogo. Aos 26, chega maduro ao segundo Mundial.

Falcao, porém, não pode ser menosprezado por sua influência ao time. O Tigre não possui a mesma mobilidade de outros tempos, mas ajuda o coletivo a funcionar e serve como um porto seguro. Os companheiros sabem que, ao redor da área, qualquer bola em seus pés pode acabar nas redes. Mais do que isso, o veterano de 32 anos certamente virá com fome para fazer a Copa do Mundo de sua vida. Depois da frustração vivida em 2014, em que acabou de fora por lesão, mesmo se esforçando tanto para voltar a tempo, poderá cumprir o sonho. E o ciclo o ajudou. O retorno ao Monaco valeu demais para o centroavante recuperar a confiança, algo que parecia perdido entre as frustrações no Chelsea e no Manchester United. Chega num momento favorável para contribuir. Se não é o monstro que se previa ao Mundial do Brasil, até atravessar o seu calvário, continua como uma importante liderança.

Bom coadjuvante

Carlos Sánchez

Por clubes, a carreira de Carlos Sánchez é um tanto quanto nômade. Desde a preparação à Copa do Mundo de 2010, passou por Valenciennes, Elche, Aston Villa, Fiorentina e Espanyol, enfrentando altos e baixos. No entanto, é difícil encontrar um jogador que goze de tanto prestígio com José Pekerman. O volante carrega o piano da Colômbia desde 2011. Possui força física e muita qualidade na marcação, oferecendo o combate constantemente. Não à toa, acaba valendo demais dentro da engrenagem. É ele quem recua e segura as pontas quando os laterais, geralmente ofensivos, partem com tudo ao apoio – o que deve acontecer bastante nesta Copa, seja com Mojica pela esquerda, seja com o excelente Arias pela direita, este outro também um ótimo coadjuvante. Assim, a segurança defensiva dos colombianos depende bastante do volante. Será interessante também observar quem será o seu companheiro por ali. Aguilar, Barrios, Lerma e Uribe possuem características bastante distintas. Poderão se sobressair graças ao motor.

Fique de olho

Davinson Sánchez

Chamar Davinson Sánchez de “surpresa” já não cabe mais, considerando as suas duas primeiras temporadas na Europa. Campeão da Libertadores com o Atlético Nacional, seguiu a um ano espetacular com o Ajax e foi uma das gratas novidades com o Tottenham. Aos 22 anos, parece que possui muito mais rodagem do que os nove jogos pela Colômbia sugerem. Convocado a partir de 2016, assumiu a titularidade em julho de 2017 e desde então virou nome inquestionável ao lado de Yerry Mina. É uma opção bem mais confiável que Cristián Zapata ou Óscar Murillo. Tudo bem, aos 22 anos, Sánchez está distante de ser o defensor perfeito. Alterna partidas soberbas com erros custosos, principalmente por desatenção ou mau posicionamento. Mas já hoje pode se alçar entre os melhores zagueiros da América do Sul, seja por suas ótimas condições físicas, seja por sua capacidade técnica na saída de bola. A Copa do Mundo é a chance para que se coloque entre os protagonistas dos Cafeteros durante os próximos anos. No mais, vale ressaltar o número de jogadores com poucas partidas pela seleção, mas que podem pintar entre os titulares. Mojica, Barrios, Uribe e Lerma não passam de dez aparições pela equipe nacional e ainda assim devem ter espaço.

Personagem além da bola

Juan Guillermo Cuadrado

Cuadrado, da seleção colombiana

Em tempos de medo na Colômbia, sobretudo na década de 1990, o narcotráfico circundou a vida de vários jogadores da seleção. Nenhum deles com as marcas profundas enfrentadas por Cuadrado. O ponta nasceu em Necoclí, uma cidade banhada pelo Mar do Caribe, mas próxima à fronteira do Panamá, considerada uma das mais perigosas do mundo, e parte do departamento de Antioquia, a região do país mais afetada pela calamidade instaurada. Um pouco mais ao sul atuava o Cartel de Medellín e outras organizações criminosas. O golfo de Urabá, onde fica o município, era uma região estratégica para a rota do tráfico e também foco de forças paramilitares, que derramavam o sangue do povo local, atacando campesinos e afrodescendentes.

Quando tinha quatro anos, Cuadrado viu o terror bater na porta de sua casa. A realidade era tão perturbadora que os pais logo ensinaram o menino a se esconder sob a cama, cada vez que ouvisse tiros. O ritual se repetiu em certa noite de 1992, até que o choro de sua mãe indicasse algo a mais. A vítima desta vez era o próprio pai, Guillermo, motorista de um caminhão de refrigerantes.

Sem Guillermo, Marcela assumiu a criação de Juan. Para garantir o sustento do garoto, trabalhava duro nas colheitas de banana, deixando-o sob cuidado dos tios ou da avó. As lembranças do pai eram turvas. E a válvula de escape do menino se encontrava na bola, desenvolvendo sua habilidade nas praias de Necoclí. A mãe, naturalmente, não admitia que o menino deixasse a aula para jogar. Mas logo percebeu que o futebol seria um aliado e, através dele, passou a incentivá-lo a frequentar a escola.

O medo ainda levou Juan e Marcela a se mudarem de cidade, partindo a Apartadó. No entanto, logo seria o futebol que os levaria a outros cantos do país. O menino mirrado foi levado por Nelson Gallego ao Deportivo Cali e, ali, começou a se desenvolver. Não ficou tanto tempo no clube e sua fragilidade física causou frustrações em testes que realizou pela Argentina, incluindo River Plate e Boca Juniors. A chance verdadeira estaria justamente em Antioquia, em Medellín, contratado para as categorias de base do Independiente.

Cuadrado estreou na equipe principal do DIM graças ao técnico Juan Jose Pelaez. Todavia, sua afirmação aconteceu com Santiago Escobar. O irmão de Andrés, outra vítima da guerra que ocorria na Colômbia, foi quem lapidou o talento de Juan Guillermo e o tornou um jogador bem mais completo, também com consciência de sua função tática. Logo sua carreira deslancharia. Passou por Udinese, Lecce, Fiorentina e Chelsea, até chegar à Juventus, onde vive um dos melhores momentos da carreira. Virou um dos destaques da seleção. Um dos símbolos da Colômbia que procura valorizar sua identidade de outras maneiras, deixando para trás o passado sangrento.

Técnico

José Pekerman

Torcida colombiana mostra apoio ao técnico da seleção para as eleições presidenciais

O lugar de Pekerman na história da seleção colombiana está garantido. O treinador da Argentina na Copa de 2006, famoso por seu trabalho excepcional nas categorias de base, assumiu os Cafeteros em 2012. Acabou tornando-se o responsável por encontrar o “elo perdido” que tirara o país de três Mundiais consecutivos. Se a equipe dos anos 1990 era reconhecida por seu talento um tanto quanto irresponsável rumo ao ataque, os times após a virada do século perderam isso, mas primavam pela segurança defensiva. O novo comandante uniu os dois elos, montando uma seleção bem mais equilibrada, que devolveu o orgulho aos compatriotas em 2014. Quatro anos depois, a trajetória do professor possui os seus desgastes. Contudo, permanece como o grande responsável pela consistência nesta caminhada, sabendo dar protagonismo aos melhores jogadores e a renovar as opções da equipe nacional. A Rússia será importante para determinar melhor o seu lugar na história do futebol local.

Uma história da seleção nas Copas

A história da Colômbia nas Copas do Mundo é tão marcada por aquilo que aconteceu nos anos 1990, pelo bem e pelo mal, que muita gente se esquece da estreia dos Cafeteros em Mundiais. Aconteceu bem antes disso, em 1962. Em Eliminatórias enxugadas pelas ausências do anfitrião Chile e do campeão Brasil, já confirmados diretamente no Mundial, as três vagas restantes foram decididas em três confrontos diretos. Escapando de Argentina e Uruguai, os colombianos tinham as suas chances contra o Peru, ainda em fase de desenvolvimento. A vitória por 1 a 0 em Bogotá valeu ouro, com a equipe se garantindo graças ao empate por 1 a 1 em Lima. Comandando o time estava Adolfo Pedernera, craque argentino que se aposentara na década anterior, após bons anos no timaço do Millonarios.

A mera presença na Copa já representava demais ao futebol da Colômbia, Eldorado em outros tempos, mas que estava banida pela Fifa antes do Mundial de 1954 e não resistiu ao Paraguai no classificatório de 1958. Enfim, a campanha no Chile traria suas complicações logo de cara. O Grupo 1 era bastante cascudo, botando pela frente os uruguaios, além de União Soviética e Iugoslávia, dois países que vinham de trabalhos consistentes a partir da década de 1950, com medalhas olímpicas e finalistas da Euro 1960. Os colombianos eram vistos como completos azarões e, por isso, intensificaram sua preparação, em concentração militar que durou três meses.

A Colômbia começou a Copa dignamente. Perdeu para o Uruguai, é verdade, mas complicou bastante a Celeste. Saiu em vantagem, graças a um gol de pênalti de Zuluaga, e ia segurando o empate até os 30 do segundo tempo, quando os charruas viraram para 2 a 1. Foi um jogo duro, que tirou dois jogadores colombianos de ação durante a partida, perdendo também o restante da Copa por conta das leões. O grande duelo, porém, viria na segunda rodada. Um empate emocionante com a União Soviética por 4 a 4, certamente um dos jogos mais insanos da história das Copas.

Havia todo o contexto político por trás. A Colômbia, naquela época, era uma das principais bases do governo dos Estados Unidos no continente, em meio à Guerra Fria. Encarar a União Soviética significava duelar, de certa maneira, com os inimigos. Em sua viagem ao Chile, inclusive, os vermelhos pararam em Cali e disputaram amistoso contra o América, prevalecendo o empate por 0 a 0. Entretanto, os atletas trocaram os números de suas camisas para confundir os observadores locais, o que foi tratado como “contraespionagem”. Favoritíssimos, os soviéticos abriram três gols de vantagem em 11 minutos e os colombianos descontaram apenas aos 21, com Germán Aceros. No início do segundo tempo, mais um golpe quando a URSS anotou o quarto. A reação começaria somente aos 23 da etapa complementar.

O segundo gol da Colômbia, aliás, é histórico. Marcos Coll cobrou escanteio fechado e contou com uma falha de Lev Yashin, no primeiro (e até hoje, único) tento olímpico da história dos Mundiais. Abriu caminho para que Antonio Rada fizesse o terceiro e, já aos 41 do segundo tempo, Marino Klinger empatasse. O árbitro era o brasileiro João Etzel Filho, que gostava de se gabar por ter prejudicado os soviéticos, uma pretensa represália por suas origens húngaras. Contudo, os lances dos gols Cafeteros não apresentam indícios tão claros de manipulação.

Na última rodada, a Colômbia tinha chances de classificação. Precisava vencer a Iugoslávia e torcer por uma vitória da União Soviética sobre o Uruguai. No dia anterior, os soviéticos venceram os charruas, o que abriu o caminho aos colombianos em Arica. Porém, acabaram pulverizados pelo bom time iugoslavo: 5 a 0, com dois tentos de Galic e outros dois de Jerkovic, símbolos do período. Apesar da queda e da goleada, o papel dos Cafeteros havia sido satisfatório. Terminaram recebidos como heróis.

Como o futebol explica o país

Andrés Escobar, uma das vítimas do narcotráfico

A história do narcotráfico na Colômbia se reflete diretamente sobre o futebol. Não são poucos os clubes a terem ligações com narcos ou paramilitares, direta ou indiretamente. E a origem desse cenário se dá a partir dos anos 1970, em meio à crise econômica que afetou em cheio a elite do país. Empresários locais eram os principais mantenedores das agremiações esportivas, mas, com a desvalorização da moeda e as dificuldades financeiras, não conseguiam pagar as estrelas em seu elenco. Concomitantemente, o tráfico de drogas “prosperava” e surgiu uma nova oportunidade de negócio aos narcos.

Saindo geralmente de classes mais baixas, os traficantes viram no futebol uma oportunidade de “ascensão social”, para se aproximarem também das elites. Mais do que isso, o sucesso dos clubes também dava o “circo” à população. E as instituições, além de tudo, poderiam se tornar amplas máquinas para lavar o dinheiro do tráfico. As contratações internacionais e os salários dos atletas eram fraudados para, assim, facilitar os trâmites com os dólares vindos do tráfico. Desta maneira, na virada dos anos 1980, alguns dos principais times do país passaram a ter seus “chefes”.

Gilberto Rodríguez Orejuela tentou comprar o Deportivo Cali, finalista da Libertadores em 1978, mas o regimento do clube não permitia acionistas majoritários. Assim, virou dono do América de Cali, sustentado pelo Cartel de Cali. Pablo Escobar, através de seus sócios, se aproximava do Atlético Nacional e do Independiente Medellín. Em Bogotá, o Millonarios foi comprado por Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, próximo a Escobar e também ligado ao contrabando de esmeraldas. No Independiente Santa Fe, Fernando Carrillo Vallejo se tornou o primeiro narco a controlar o clube, antes de outros o substituírem. E o mesmo se dava com equipes menores – tal qual Deportivo Pereira, Unión Magdalena ou Tolima. A partir de 1983, com as acusações públicas do Ministro da Justiça sobre o dinheiro sujo do futebol, os narcos saíram de cena formalmente e colocaram “testas de ferro” em seu lugares, controlando a partir dos bastidores.

Desde o início da década de 1980, afinal, foram vários episódios sinistros envolvendo futebol e narcotráfico. Em dezembro de 1981, quando América e Atlético Nacional disputavam a final do Campeonato Colombiano, papéis foram atirados por um avião. Diziam que “delinquentes e guerrilheiros serão executados”, em movimento que culminou na criação dos grupos paramilitares. Já em 1989, a liga nacional chegou a ser cancelada pela morte de um árbitro, em caso ligado a apostas ilegais.

Os assassinatos tornaram-se uma rotina. Dirigentes e/ou narcotraficantes passaram a pagar com a vida por suas ilegalidades, assim como milhares de pessoas que sequer tinham a ver com qualquer crime. É o caso do zagueiro Andrés Escobar, após a Copa do Mundo de 1994. Além disso, as denúncias de intimidação e beneficiamento são amplas, envolvendo inclusive as campanhas dos colombianos na Libertadores. O América de Cali chegou a três finais nos anos 1980 e o Atlético Nacional ficou com o título em 1989.

Já durante a década de 1990, com a guerra ao tráfico, alguns clubes tiveram suas finanças duramente afetadas. O melhor exemplo é o América. O Cartel de Cali começou a perder influência e a crise no clube se alastrou. Pior, a agremiação entrou para a chamada ‘Lista Clinton’, que embargava pessoas e empresas por conta de suas relações com o narcotráfico. Todavia, com a derrocada dos cartéis de drogas, os grupos paramilitares ampliavam sua força no comando paralelo do país. E isso também acabaria influenciando o futebol. Passaram a lavar dinheiro não necessariamente à frente de clubes, mas empresariando jogadores.

Nos anos 2000, o futebol na Colômbia viveu certa transição. As crises dos grandes abriram espaços a clubes menores do interior. E um exemplo da ligação com os paramilitares está no Envigado. O clube era conduzido sob os cuidados de Gustavo Upegui, ligado à chamada ‘Oficina de Envigado’, grupo paramilitar que se desenvolveu a partir do Cartel de Medellín. O manda-chuva, um dos sócios de Pablo Escobar, aproveitava as estruturas para descobrir talentos. Um deles, James Rodríguez. O menino mirrado precisou de um tratamento hormonal para auxiliar em seu crescimento e Upegui o bancou. Seria assassinado em 2006, mesmo ano em que o meia fez sua estreia como profissional.

Se na Colômbia crescia um movimento para reconstruir o país, em meio ao arrefecimento da longa guerra, o futebol também vivenciou um momento de transformação a partir de 2008. As dívidas dos grandes clubes eram insustentáveis e eles buscavam soluções para o seu futuro. O Millonarios virou exemplo ao se transformar em sociedade anônima, tentando se desvincular de qualquer relação que persistisse com os tempos de El Mexicano. A intenção de passar uma borracha no passado era tão grande que a diretoria até considerou abrir mão de dois títulos nacionais conquistados sob as ordens do narco.

Logo a atitude seria seguida por outras agremiações. A partir da virada da década, mais clubes se transformaram em sociedades anônimas, em legislação que incentivava a mudança. Deixavam de ser instituições que poderiam acobertar criminosos, para funcionar como empresas, visando a saúde financeira. O modelo que acabou se tornando fundamental para revitalizar o futebol colombiano nesta década.

O sucesso de Atlético Nacional e (principalmente) Independiente Santa Fe a nível continental refletem este momento de reconstrução. Da mesma maneira, o Millonarios encerrou um longo jejum na liga nacional. E o América de Cali, que passou cinco longos anos na segunda divisão, dá passos firmes em busca da estabilidade, deixando a Lista Clinton em 2013, após 14 anos de embargo. O novo modus operandi afastou os clubes dos velhos vícios e problemas – embora não impeça totalmente a atuação de criminosos. Ainda assim, representa as transformações mais amplas dentro da sociedade colombiana, reforçando mesmo uma imagem favorável do país em prol do turismo e de outros investimentos. A tragédia com a Chapecoense, em partes, reproduz a solidariedade e o acolhimento que marcam a identidade dos colombianos, mas ficaram obscurecidos por tantas notícias trágicas da época dos narcos.

E se o futebol une, há quem queira usá-lo para se aproximar. Após negociações pela paz com o governo, em 2017 as FARC anunciaram seu cessar-fogo, finalmente confirmando o fim da guerra ocorrida no país ao longo de décadas. E uma das estratégias para romper barreiras estará em campo. No mesmo período, as antigas forças paramilitares anunciaram um acordo com a ‘Fundación Fútbol y Paz Construyendo País’. Querem auxiliar a formação esportiva junto a jovens e, mais do que isso, criar um clube que dispute as divisões profissionais do Campeonato Colombiano. O nome? La Paz.

“Há quatro anos iniciamos este caminho e surgiu a ideia de reunir todos os atores envolvidos no conflito, para constituir uma nova equipe. No começo parecia uma ideia local, mas estamos vendo que há uma luz no fim do túnel”, afirma Félix Mora, da fundação, que espera reunir na agremiação ex-guerrilheiros, vítimas e membros da sociedade civil. Posição reafirmada pelo ex-combatente José Vicente Lesmes: “Com a concretização do processo de paz, e já na legalidade, buscando espaços em todos os cenários da vida nacional, nós vemos uma excelente oportunidade para fomentar o movimento de massas ao redor de um esporte de tanta aceitação dentro da população, especialmente as mais vulneráveis”. Há jogadores que se aproximaram do projeto, como Faustino Asprilla e Carlos Valderrama. O primeiro contato com a liga nacional aconteceu em 2017, iniciando as negociações pela admissão.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

Repetir a campanha de 2014 já seria um grande feito à Colômbia. O grupo é acessível e a classificação é palpável, se as dificuldades recentes forem superadas. O problema começa a partir das oitavas de final, quando as chances de pegar um adversário de peso crescem exponencialmente. Boa parte da geração, porém, indica ter bola para mais de um Mundial no futuro. Resta saber como será o futuro de Pekerman.

Jogos na Copa

Terça-feira, 19/06 – 9h – Colômbia x Japão

Domingo, 24/06 – 15h – Polônia x Colômbia

Quinta-feira, 28/06 – 11h – Colômbia x Senegal

Ficha técnica

Seleção colombiana
Infogram