O futebol tem uma capacidade ímpar de unir as pessoas. Tão grande que já foi capaz de parar guerras. E não são poucas as histórias que seguiram na mesma direção. Ao longo das décadas, são vários os exemplos: seja do futebol nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial ao conflito civil interrompido na Costa do Marfim depois da classificação à Copa do Mundo. No entanto, a contrapartida também é verdadeira, e tem seu grande exemplo ocorrido em 1969. Um jogo decisivo foi o estopim para a guerra que entre Honduras e Salvador, cujo armistício aconteceu há exatos 45 anos – no mesmo 20 de julho em que o homem chegou à lua pela primeira vez.

Hondurenhos e salvadorenhos permaneceram em guerra por 100 horas. As motivações dos dois países para o conflito foram diversas: a migração crescente de salvadorenhos para o território vizinho, o monopólio de terras hondurenhas por grandes corporações multinacionais ligadas à fruticultura, a disputa por uma área fronteiriça na costa do Oceano Pacífico. Porém, o início para o confronto armado veio dentro de um campo de futebol, durante o duelo entre as duas seleções nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970.

As duas seleções se enfrentavam pelas semifinais do qualificatório, que decidiria o adversário do Haiti pela vaga no Mundial. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, vencido pelos hondurenhos por 1 a 0, foi marcado por brigas intensas entre torcedores. O mesmo se repetiu no reencontro, com o revide dos salvadorenhos por 3 a 0, que forçaram uma partida-desempate – não sem que antes dois adeptos dos visitantes fossem assassinados.

O encontro na Cidade do México aconteceu no dia 26 de junho, no Estádio Azteca. Dentro de campo, nova vitória de El Salvador, 3 a 2 na prorrogação. Contudo, no mesmo dia, os salvadorenhos dissolveram as relações diplomáticas com os vizinhos, afirmando que o governo hondurenho não dava garantias de segurança ao seu povo ou punia o genocídio dos imigrantes perseguidos – em 1967, a reforma agrária promovida em Honduras permitiu a expulsão de salvadorenhos que ocupavam terras ilegalmente.

Iniciada em 14 de julho, 18 dias depois do terceiro jogo pelas Eliminatórias, a Guerra do Futebol deixou cerca de 5 mil mortos e mais de 15 mil feridos, enquanto dezenas de milhares de salvadorenhos foram deportados. As forças militares de ambos os países realizaram tanto ataques terrestres quanto aéreos, que atingiram as duas capitais. O cessar-fogo aconteceu seis dias depois, graças à intervenção da Organização dos Estados Americanos, que ameaçou sancionar tanto Honduras quanto El Salvador. O tratado de paz, contudo, só foi assinado em 1980. E os salvadorenhos, que acabaram passando pelos haitianos no qualificatório, foram eliminados na primeira fase da Copa, derrotados por União Soviética, México e Bélgica.

Depois de 45 anos, a situação não passa nem perto da tensão daqueles anos, embora as disputas territoriais continuem. Por mais que os ânimos continuem acirrados nos duelos entre as seleções, não há nem comparação com aquele momento. Um episódio que ainda marca a história dos dois países e também a história do futebol. Enquanto foram muitos os “Jogos da Paz”, a Guerra do Futebol ainda é única.

Abaixo, a primeira parte de uma série de reportagens feita pela ESPN Deportes sobre o episódio. Em espanhol: