É mais que a contratação de um grande jogador, é a porta para o retorno da Serie A como liga de grande repercussão mundial. Muitos viram a chegada de Cristiano Ronaldo à Juventus como um momento de virada do futebol italiano. É natural que a mídia internacional dedique mais espaço à Itália, ainda que a consolidação disso dependa também das demais equipes acompanharem esse movimento.

Mas não seria a primeira grande contratação a marcar a história do futebol italiano. Claro, nenhuma dela tem o impacto, de, sozinha, mudar uma das ligas mais tradicionais do planeta. Mas foram negociações que se tornaram símbolo desses momentos históricos. Selecionamos as 15 mais icônicas e colocamos em ordem cronológica. Confira:

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Obs.: Por dificuldade em fazer a conversão para dólares do valor das transferências em sua época, deixamos com o valor em liras até 2002, quando o euro entrou em circulação. Em sua última cotação, mil liras valiam aproximadamente € 0,50.

Giuseppe Meazza

Ano: 1940
Clubes (de – para): Ambrosiana – Milano (Internazionale – Milan)
Valor:

Meazza era o grande nome do futebol italiano bicampeão mundial na década de 1930, ídolo da Ambrosiana (nome da Internazionale durante o regime de Mussolini) e um dos melhores jogadores do mundo na época. Na temporada 1939/40, o craque teve um problema vascular e perdeu uma temporada completa. Acabou liberado e acertou com o Milano (atual Milan), o grande rival. Não teve tanto sucesso com a camisa rossonera, mas sua saída foi um símbolo do fim da geração bicampeã mundial e o início de uma nova relação de forças no futebol italiano.

Mazzola-Loik

Ano: 1942
Clubes: Venezia – Torino
Valor: 1,2 milhões de liras

Na década de 1940, o Torino começou a se estruturar para assumir o posto de grande clube da Itália. O empresário Ferruccio Novo assumiu o comando do clube e não teve medo de colocar a mão no bolso para formar um esquadrão. Rapidamente os grenás se tornaram uma potência nacional, mas perderam o título de 1941/42 para a Roma após um tropeço diante do Venezia. Para a temporada seguinte, o clube piemontês foi atrás dos principais jogadores venezianos: Valentino Mazzola e Ezio Loik. Estava construído o Grande Torino, supertime que conquistou o pentacampeonato da Serie A e serviria de base para a seleção italiana para a Copa de 1950, até que todos os jogadores morressem em um acidente aéreo em 1949.

Gren-Liedholm

Ano: 1949
Clubes: Göteborg/Norrköping (SUE) – Milan
Valor:

A Suécia era uma das forças do futebol mundial no pós-Segunda Guerra. Conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1948 (Londres) e tinha bons resultados no cenário internacional (seria ainda terceira na Copa de 1950). De olho nisso, o Milan já havia contratado Gunnar Nordahl em janeiro de 1949. Mas faltava algo. No caso, Gunnar Gren e Nils Liedholm, seus parceiros de ataque na seleção sueca. No meio daquele ano, os rossoneri fecharam a contratação dos dois atacantes, formando a linha ofensiva Gre-No-Li, uma das mais famosas da história do futebol italiano. O trio conquistou um título italiano (e mais três após a saída de Gren) e fez de Nordahl o artilheiro da Serie A em cinco temporadas.

Luis Suárez Miramontes

Ano: 1961
Clubes: Barcelona (ESP) – Internazionale
Valor: 250 milhões de liras

O Milan teve um grande momento na década de 1950 e no início dos anos 1960. A Internazionale precisava responder a isso. Já havia tirado do Barcelona o técnico argentino Helenio Herrera quando foi novamente à Catalunha para fazer compras. No caso, do espanhol “Luisito” Suárez. Os italianos pagaram 250 milhões de liras (142 mil libras), fazendo do atacante o jogador mais caro da história na época. Funcionou: os nerazzurri conquistaram dois Mundiais de Clubes, duas Copas dos Campeões (atual Champions League) e três Campeonatos Italianos em um período de cinco temporadas.

Dino Zoff

Ano: 1972
Clubes: Napoli – Juventus
Valor: 360 milhões de liras

Zoff demorou para estourar. Passou os primeiros anos de sua carreira no Mantova, onde estava quando recebeu sua primeira convocação para a seleção italiana, ainda antes da Copa de 1966. Pela Azzurra teve pouco espaço, sempre sendo preterido por Albertosi, mas fez parte do elenco campeão da Eurocopa de 1968 e vice da Copa de 1970. Em 1972, quando a Juventus resolveu comprá-lo do Napoli, parecia uma aposta arriscada em um goleiro de 30 anos que talvez tivesse deixado seus melhores anos para trás. Foi exatamente o contrário. Zoff foi um símbolo do futebol italiano nos dez anos seguintes, liderando uma Juventus que se recolocava como a grande força do país e batendo o recorde de mais tempo sem sofrer gol por uma seleção (1.142 minutos entre 1972 e 74). Foram seis títulos italianos, um da Copa da Itália e um da Copa da Uefa (atual Liga Europa). Tornou-se o sexto jogador com mais partidas com a camisa da Juve e ainda teve tempo de, aos 40 anos, ser o capitão que ergueu a taça do tricampeonato da Itália na Copa de 1982.

Falcão, da Roma

Falcão

Ano: 1980
Clubes: Internacional (BRA) – Roma
Valor: 1,4 bilhão de liras

Após o vexame na Copa de 1966, a liga italiana fechou as portas para estrangeiros (quem já estava podia ficar, mas ninguém poderia mais entrar). A medida visava valorizar o jogador local, mas acabou levando os clubes italianos a terem pouca competitividade no cenário internacional. Com o estouro do escândalo Totonero, de manipulação de resultados por uma máfia de apostas, era o momento de se reabrir. Em 1980, o holandês Michel van de Korput se tornou o primeiro estrangeiro em quase uma década no futebol italiano ao assinar com o Torino. Outros seguiram: Krol (Napoli), Prohaska (Internazionale), Liam Brady (Milan), Eneas (Bologna), Luis Silvio (Pistoiese)… Alguns fracassaram, outros tiveram sucesso. Mas nenhum teve o impacto de Paulo Roberto Falcão, contratado pela Roma junto ao Internacional. O volante se tornou um líder da equipe que rapidamente se colocou como grande sombra da Juventus. Conquistou um título italiano, perdeu a Copa dos Campeões apenas nos pênaltis e ganhou o apelido de “Rei de Roma”.

Michel Platini

Ano: 1982
Clubes: Saint-Étienne (FRA) – Juventus
Valor: 250 milhões de liras

Foi uma pechincha. O contrato de Platini com o Saint-Étienne havia se encerrado e, pelas regras de transferências do futebol francês na época, bastou à Juventus pagar uma taxa para ficar com o passe do jogador que era tido como o melhor do mundo por muita gente (para efeito de comparação, o valor foi o mesmo que a Inter gastou para contratar Luisito Suárez 20 anos antes). A chegada de Platini reforçou no mundo a ideia de que a Serie A estava se tornando a liga mais forte do mundo. Com o francês na linha de frente, os juventinos conquistaram um Mundial de Clubes, uma Copa dos Campeões, uma Recopa e três Campeonatos Italianos. Após sua saída, a Juventus demorou muito tempo para retornar ao topo.

Diego Maradona

Ano: 1984
Clubes: Barcelona (ESP) – Napoli
Valor: 13 bilhões de liras

Era uma negociação surreal. Por maior e mais fanática que seja a torcida do Napoli, o clube era visto até os anos 80 como uma equipe regional que nunca havia sido campeã nacional. O presidente deste clube ir até Barcelona para comprar o jogador que era tido como o mais talentoso do planeta, o melhor do mundo para muitos, não fazia sentido. Mas o momento do futebol internacional era este, e os clubes italianos tinham condições de contratar quem quisessem. E assim Maradona foi para o Napoli, mudando o clube celeste de patamar no cenário doméstico e internacional e consolidando definitivamente a Serie A como a grande liga do futebol mundial nos anos 80 e 90.

Gullit – Van Basten

Ano: 1987
Clubes: PSV/Ajax (HOL) – Milan
Valor: 12 bilhões de liras / 2 bilhões de liras

O Milan foi coadjuvante no processo de virada do Campeonato Italiano. Rebaixado na Justiça – e, depois, uma segunda vez em campo – devido à participação no escândalo Totonero, os rossoneri tinham poucas condições de encarar Juventus, Internazionale, Roma e até Fiorentina. Mas o clube foi se reconstruindo com a chegada de um novo dono, Silvio Berlusconi. O empresário de construção civil colocou dinheiro e deixou o time nas mãos de Arrigo Sacchi. Com a contratação de Gullit e Van Basten, seria formado um trio holandês com o volante Rijkaard, comprado na temporada seguinte. O Milan rapidamente se tornou referência mundial, com um futebol envolvente e técnico, fugindo do estereótipo do futebol italiano. Eliminou o Real Madrid de Butragueño da Copa dos Campeões metendo 5 a 0. Conquistou o bi da Copa dos Campeões e o bi Mundial.

Roberto Baggio

Ano: 1990
Clubes: Fiorentina – Juventus
Valor: 16 bilhões de liras

Desde a saída de Platini, a Juventus não conseguia mais seguir o mesmo ritmo de Milan, Internazionale, Napoli e até Sampdoria. Era preciso trazer um novo nome de referência, e a ascensão de Baggio como o futuro craque da Itália era a oportunidade disso. A Juventus pagou uma quantia recorde para a época, o que motivou protestos nas ruas de Florença que chegaram a atrapalhar a concentração da seleção italiana, que se preparava para a Copa do Mundo. Desde então, o time bianconero se tornou o mais odiado dos torcedores de Florença, que até hoje se ressentem dessa transferência. Mas, para a Juventus, deu resultado: o clube voltou a conquistar o campeonato italiano após nove anos de fila.

Gianluigi Lentini

Ano: 1992
Clubes: Torino – Milan
Valor: 18,5 bilhões de liras

O futebol italiano estava no pico de popularidade e relevância. Jogadores começavam a ser negociados por valores que pareciam impossíveis, mas ninguém estava preparado para a bomba: Gianluigi Lentini, atacante revelação do Torino, havia sido comprado pelo Milan por US$ 53 milhões. Era um valor completamente fora da realidade, ainda mais por um jogador que parecia apenas promissor. Oficialmente, a transferência foi registrada em US$ 9,5 milhões, uma quantia normal para os padrões da época, mas aumentou a especulação de que havia algo “estranho” nos milhões que circulavam no futebol italiano. As autoridades abriram uma investigação de fraude fiscal por parte do Milan. O processo se arrastou por anos e acabou arquivado por prescrição, mas a Justiça passou a acompanhar com mais atenção a economia do futebol italiano e várias irregularidades foram encontradas com o tempo. Em 1993, Lentini sofreu um acidente de carro que o deixou em coma leve e nunca conseguiu se firmar no Milan.

Zinedine Zidane

Ano: 1996
Clubes: Bordeaux (FRA) – Juventus
Valor: 7,5 bilhões de liras

O Bordeaux foi a grande surpresa da Copa da Uefa 1995/96. O clube francês saiu da Copa Intertoto e chegou à decisão do torneio, batendo o Milan pelo caminho. Parou só na final, contra o Bayern de Munique. O jovem time francês chamou a atenção dos gigantes da Itália. A Juventus foi atrás do cérebro dos girondinos. O Milan buscou o artilheiro. Os juventinos ficaram com Zidane, que comandou o clube a uma nova era de glórias, enquanto que os milanistas tiveram de se contentar com Dugarry, até hoje mais lembrado como o atacante horrível da França campeã mundial de 1998.

Ronaldo

Ano: 1997
Clubes: Barcelona (ESP) – Internazionale
Valor: 48 bilhões de liras

Ronaldo era o grande nome do futebol mundial. Chegou ao Barcelona como principal promessa para a próxima década e, logo em sua primeira temporada, estabeleceu um novo patamar em habilidade, potência física e capacidade artilheira. O clube catalão não ficou com o título, mas as cenas de Ronaldo atropelando marcadores adversários são lembradas até hoje. Porém, o brasileiro quis uma reforma em seu contrato e acabou entrando em atrito com a direção. Foi a brecha para a Internazionale entrar no negócio, levando o atacante para formar um time que a tiraria da fila de quase dez anos. O brasileiro não conseguiu dar à Inter o título da Serie A, mas chegou muito perto em duas oportunidades (uma delas muito polêmica pela arbitragem do jogo decisivo contra a Juventus) e ainda comandou uma campanha vitoriosa na Copa da Uefa. Além disso, passou por alguns de seus principais dramas físicos, incluindo o rompimento de ligamento durante pedaladas em um jogo contra a Lazio pela Copa da Itália.

Zlatan Ibrahimovic

Ano: 2006
Clubes: Juventus – Internazionale
Valor: € 24,8 milhões

Mais um escândalo de manipulação de resultados estourou no futebol italiano. Desta vez, o Calciopoli, que tinha como epicentro Luciano Moggi, diretor da Juventus. O clube que dominava o futebol italiano e era base da seleção que disputaria (e ganharia) a Copa de 2006 se viu diante de um rebaixamento determinado pela Justiça. Era fundamental baratear a equipe, se desfazendo das principais estrelas. Del Piero, Nedved, Trezeguet e Buffon ficaram, mas Zambrotta e Thuram foram para o Barcelona, Cannavaro para o Real Madrid, além de Patrick Vieira e Ibrahimovic para… a Internazionale. Com a Juventus fora de cena, os nerazzurri viram ali a oportunidade de recuperar a hegemonia do futebol italiano após quase duas décadas. O primeiro título, o que tirou a equipe da fila, veio na Justiça, mas a chegada de Ibra deu início a um ciclo bastante vitorioso, com o pentacampeonato nacional, um título Mundial e um da Champions League – embora ele tenha saído antes das conquistas internacionais, em 2009.

Cristiano Ronaldo

Ano: 2018
Clubes: Real Madrid (ESP) – Juventus
Valor: € 112 milhões

O casamento de Cristiano Ronaldo com o Real Madrid parecia tão consolidado que era muito fácil imaginar o português encerrando a carreira no clube espanhol. Até que, a partir da final da Liga dos Campeões, começou a surgir uma especulação de que a Juventus estaria negociando para levar o atacante de 33 anos. Foram apenas alguns dias entre o início da especulação e o anúncio de que tudo estava fechado, o que pode elevar o patamar da Juventus, de força hegemônica no seu país a dominante no continente. Além disso, dá novo ânimo a todos na Serie A, de torcedores a jogadores que estão na Itália. O tempo vai confirmar se essa negociação realmente está entre as de maior impacto da história do futebol italiano, mas o potencial para isso é grande.