A carreira de jogador de futebol traça seus caminhos, mas às vezes um desvio forçado de rota não apenas interrompe essa trajetória como coloca tudo a perder. Se aos 19 anos, o atacante francês Kylian Mbappé pôde brilhar na Copa do Mundo de 2018 e voltar dela com o título e o prêmio de revelação, os Bleus têm em sua história um caso de talento espantoso que não conseguiu chegar ao mesmo palco máximo e se perdeu tanto no tempo, sem ter como contar com o reconhecimento internacional, quanto na vida.

Revelado pelo Nantes na virada da década de 70 para a de 80, o atacante José Touré – jogador de grande talento, habilidade e velocidade, sem deixar de lado a potência física – despontou como a melhor novidade de uma já forte seleção francesa no ciclo que viria a culminar na Copa do Mundo do México, em 1986. Mas uma lesão roubou dele a chance de se consagrar no maior torneio do futebol de seleções. E, pior, representou o começo do fim de sua trajetória, em meio a problemas disciplinares e envolvimento com drogas.

“Le Brésilien”

José nasceu em Nancy no dia 24 de abril de 1961, quando seu pai, o ex-atacante malinês Bako Touré, defendia o clube local, por empréstimo. Bako, falecido em 2001, fez carreira no futebol francês atuando por Olympique de Marselha, Toulouse e Nantes, entre outros, além de se sagrar vice-campeão da Copa Africana de Seleções com o Mali em 1972. Encerraria a carreira no pequeno Blois, o mesmo clube em que seu filho José daria seus primeiros passos no futebol, antes de ser levado às categorias de base do Nantes, em 1976.

Desde a sua chegada, José Touré atraiu as atenções. Num clube historicamente marcado por seu estilo de jogo essencialmente coletivo, o garoto se destacava pelo talento e a habilidade acima da média com a bola nos pés, o que mais tarde lhe valeria o apelido que marcaria sua carreira: “Le Brésilien”. Rapidamente galgaria as divisões formadoras do clube da região do Loire, sendo lançado no time de cima em outubro de 1979, aos 18 anos, pelo técnico Jean Vincent.

Na estreia, marcaria o gol da vitória de 1 a 0 sobre o Bastia, a seis minutos do fim. Ao todo, em sua primeira temporada, disputaria uma dezena de partidas (seis delas como titular), balançando as redes quatro vezes. E o Nantes conquistaria o título, revestindo de confiança a aposta gradual no talento ascendente em meio a um elenco experiente, ponteado por nomes como os defensores Maxime Bossis e Patrice Rio e os meias Thierry Tusseau e Henri Michel, além dos argentinos Enzo e Victor Trossero (sem parentesco).

Um golaço marca a afirmação

A aposta seria definitivamente paga dali a três anos. Depois de assistir a conquistas do Saint-Étienne em 1981 e do Monaco em 1982, os Canários passearam na liga em 1982-83, terminando dez pontos à frente do vice Bordeaux e impulsionados por uma dupla de frente letal formada por Touré, agora uma realidade, e pelo iugoslavo de origem bósnia Vahid Halilhodzic (que treinaria a seleção argelina na Copa de 2014). O garoto de Nancy marcou 13 gols e, com assistências, ajudou o companheiro a se tornar o artilheiro da liga, com outros 27.

Na final da Copa da França, ainda que a chance da dobradinha tenha acabado aos pés do Paris Saint Germain, vencedor por 3 a 2 no Parque dos Príncipes, Touré deu mais uma espetacular mostra de seu talento nato ao marcar o tento que colocou temporariamente sua equipe na frente por 2 a 1: após receber lançamento de Seth Adonkor na entrada da área, dominou no peito, deu dois toques na bola para limpar a dupla marcação e, sem deixar cair, girou e bateu de canhota, no contrapé do goleiro Baratelli. Um golaço até hoje lembrado no país.

Pouco antes, em 23 de abril, na véspera de completar 22 anos, Touré estreou pela seleção francesa vestindo a camisa 10 num amistoso contra a Iugoslávia em Paris e fechou a goleada de 4 a 0 com estilo: após escanteio, recebeu a bola pelo alto, dominou no peito, limpou um zagueiro e bateu forte, num chute que acertou o travessão e quicou dentro do gol. Era seu cartão de visitas, num lance que resumia suas qualidades: o drible, o gosto pela jogada imprevisível, e também a força na jogada pelo aérea, tanto por sua estatura (1,82 metro) quanto por seu tempo de bola, lapidado pela prática do salto em altura na adolescência.

No ano seguinte, apesar de participar de amistosos, um problema físico na segunda metade da temporada o deixaria de fora da seleção que levantaria a Eurocopa em casa. Mas, semanas depois, ele pôde integrar a equipe olímpica – dirigida por Henri Michel, seu ex-companheiro de Nantes – que faturaria o ouro nos Jogos de Los Angeles. Sua participação naquele torneio, no entanto, foi encerrada ainda nas quartas de final, ao sofrer uma lesão na coxa direita numa dividida com um defensor do Egito, na vitória dos Bleus por 2 a 0.

Titular dos Bleus

Sua verdadeira arrancada na seleção viria nas Eliminatórias para a Copa de 1986, quando aos poucos conquistou um lugar entre os titulares até se tornar uma unanimidade no ataque ao lado do remanescente de 1982 Dominique Rocheteau. Em boa parte, graças a sua espetacular atuação na vitória sobre o Uruguai no Parque dos Príncipes que valeu a Copa Artemio Franchi – um desafio entre os campeões europeu e sul-americano – em agosto de 1985.

A França abriu a contagem no começo do jogo em passe de Platini para Rocheteau driblar Rodolfo Rodríguez e tocar para as redes. E, na etapa final, Touré iniciaria e concluiria a jogada do segundo gol. Um chapéu em Bossio, um drible insinuante em Barrios, o passe para Platini e dele para Giresse, que devolve a Touré num lançamento para a área, nas costas da defesa. O atacante domina, livrando-se da marcação, e toca por cima do arqueiro uruguaio, fechando o placar.

O bom momento na seleção deixou o “Brésilien” à frente de concorrentes como Yannick Stopyra (Toulouse) e Bruno Bellone (Monaco) na disputa pela titularidade no ataque francês. E mais: colocou o jovem na posição de revelação, badalado pela imprensa francesa como a grande novidade dos Bleus para a Copa do México, em meio a uma equipe que mantinha a base de 1982 (Amoros, Bossis, Giresse, Tigana, Platini, Rocheteau, entre outros).

Touré parecia pronto para decolar. No jogo da classificação para a Copa, contra a Iugoslávia, fez a assistência para o segundo gol de Platini, que confirmou a vaga. E vinha sendo fundamental também na boa campanha do Nantes na Copa da Uefa: contra o Spartak Moscou, marcou o gol que colocou os Canários nas quartas de final, vencendo Rinat Dasaev com uma grande cabeçada. Pela frente estaria a Inter de Milão. Contra ela, ele começaria a viver seu longo calvário.

O sofrimento

O Nantes saiu derrotado por 3 a 0 do jogo de ida, no San Siro, mas foi para o intervalo do jogo em La Beaujoire vencendo por 3 a 1 e sonhando com a reviravolta. Touré, porém, já estava baleado depois de ter sofrido uma entrada dura de Giuseppe Baresi na primeira etapa. E aos 15 minutos da etapa final, ao correr para tentar alcançar um lançamento, sente a dor, para imediatamente e cai no gramado. O diagnóstico é cruel: ruptura do ligamento cruzado do joelho.

O Nantes levaria o empate em 3 a 3 e seria eliminado. Mas Touré sofreria mais: pensando em evitar maiores riscos para o desenrolar da carreira, decidiu pela cirurgia. Mesmo sabendo que perderia ali não só o resto da temporada com o clube como também a própria Copa do Mundo, ficando quase um ano de fora dos gramados. Para o lugar que teria sido o seu, Henri Michel (agora técnico da seleção principal) levou um outro jovem, de carreira até ali mais discreta, e que atuava no Club Brugge: um certo Jean-Pierre Papin.

Mudança de ares

Foi também um triste fim para sua carreira de uma década nos Canários: em baixa, acabou vendido ao Bordeaux por uma barganha ainda em 1986. No novo clube, a primeira providência do técnico Aimé Jacquet foi colocar o meia Jean Tigana, um dos mais experientes do elenco e malinês de nascimento como o pai de José Touré, “tomando conta” do atacante enquanto este se recuperava da cirurgia. Ao retornar, na segunda metade da temporada 1986-87, parecia ter voltado à velha forma, ajudando os Girondins a fazerem a dobradinha.

A seleção francesa, enquanto isso, penava com uma campanha surpreendentemente fraca nas Eliminatórias da Eurocopa, empatando sem gols com Islândia e Alemanha Oriental fora de casa e perdendo por 2 a 0 para a União Soviética em Paris. Com Platini perto de se aposentar, parte das esperanças recaíam sobre a recuperação de Touré. O jogo da volta contra os islandeses marcaria o retorno do atacante após quase um ano e meio afastado. E os Bleus venceram por 2 a 0.

Aos poucos, o “Brésilien” voltava a mostrar também na seleção a categoria que lhe rendera o apelido: na derrota por 2 a 1 para a Alemanha Ocidental num amistoso em agosto, ele fez lançamento primoroso para o estreante Eric Cantona marcar o gol de honra. Em seguida, contra a União Soviética fora de casa, num jogo crucial para as pretensões dos Bleus nas Eliminatórias da Euro, ele abriu o placar cabeceando firme uma cobrança de falta que ele mesmo sofreu.

Aos 29 minutos do segundo tempo, com o time em vantagem no placar, Touré deixaria o campo, substituído. Só que aos 32, Mikhailichenko empataria para os soviéticos, pondo fim às chances matemáticas de classificação francesas. Depois daquela tarde, o atacante faria apenas mais três partidas pela seleção, sendo dois amistosos. A frustração acabaria alimentando seu ciclo autodestrutivo: começaria a se exceder com a bebida, fazendo um resto de temporada 1987-88 ruim pelo Bordeaux. E acabaria negociado em seguida com o Monaco.

Desperdiçando talento

Era a chance que qualquer jogador em seu lugar sonharia em ter: detentora do título francês, a equipe do Principado não se fez de rogada em investir 21 milhões de francos (valor bastante alto para a época) na contratação de Touré, que, aos 27 anos, tornava-se o astro mais bem pago do futebol do país. O dinheiro, no entanto, seria o pivô de sua decadência. Abandonado pela família e com sua contabilidade entregue a seu empresário, o atacante passou a promover festas regadas a bebida farta e a um novo vício adquirido nas andanças noturnas: a cocaína.

Sem engrenar no Monaco, começou a faltar aos treinos, algo que nunca havia feito antes. Com a chegada de concorrentes pelas vagas no ataque do time dirigido por Arséne Wenger (entre eles, um jovem liberiano chamado George Weah), Touré duraria apenas duas temporadas no clube. Em 1990, aos 29 anos, com o futebol ocupando um lugar cada vez mais secundário em sua rotina, decidiu pendurar as chuteiras. Passa dois anos perdido no vício, até ser levado por seu pai a sessões de desintoxicação com um curandeiro no Mali, de onde volta reabilitado.

“Eu não sei quem, se David Lynch ou Pier Paolo Pasolini, teria retratado melhor as cenas sórdidas pelas quais eu passei por meses”, escreveria em sua biografia sobre os tempos de adicção. Porém, após retornar, não ficaria muito tempo longe de problemas: mergulhado numa depressão, em agosto de 1992 foi condenado a quatro meses de prisão por agredir três policiais. Também estava financeiramente arruinado por seu antigo agente. Apenas os poucos amigos que ainda seguiam ao seu lado, como o ex-tenista campeão de Roland Garros Yannick Noah, estenderam a mão.

Na segunda metade dos anos 90, sua vida enfim começou a voltar aos eixos. Após breve retorno no pequeno Blois, onde tudo começara, escreveu sua autobiografia, “Prorrogação do Inferno”, e começou a fazer sessões de psicoterapia. Em 2005, apresentou um elogiado programa de entrevistas com jogadores. E durante a Copa de 2014, o “Brésilien” esteve no Brasil para apresentar e produzir uma série de documentários para o canal France 5 sobre o futebol daqui. Teve ainda uma curta passagem como diretor de desenvolvimento do Nantes.

Depois de vivenciar o estrelato e vê-lo interrompido por uma dor profunda que o fez descer ao inferno, Touré redescobriu a beleza do jogo, o que deu sentido a sua própria vida. “Com o tempo, eu entendi muito do que faz a autenticidade do futebol, esse esporte que floresce na rua. É assim que eu o amo, quando ele é puro”.