Anfield experimentou nesta noite não apenas um daqueles jogos ofegantes, que mal te deixam respirar, e que tem se repetido com excelente frequência quando os grandes se encaram nesta temporada da Premier League. Houve algo diferente, especial, naquela atmosfera. Afinal, você não tinha o direito de sequer pensar qual seria o próximo ato entre Liverpool e Tottenham, sobretudo nos minutos finais. Qualquer certeza e prognóstico sobre o que acontecia precisavam de meros segundos para serem pulverizados. Caía por terra diante da intensidade dos times, que não deixaram de buscar a vitória até que o apito final soasse. O empate por 2 a 2 pode não ser o melhor às pretensões de ambos. Ainda assim, é um placar digno para dimensionar o que foi o encontro entre duas das equipes mais agressivas da Europa.

Jürgen Klopp e Mauricio Pochettino apostaram na ofensividade de suas escalações. Nada de grandes mudanças para o embate que se prometia aberto. Pelo Liverpool, destaque para a trinca de ataque formada por Roberto Firmino, Mohamed Salah e Sadio Mané. Do outro lado, o Tottenham não deixava por menos com o quarteto formado por Harry Kane, Heung-Min Son, Christian Eriksen e Dele Alli. Os donos da casa, de qualquer maneira, ditariam as regras no primeiro tempo.

Se o Tottenham desfrutou de um gol precoce para fazer uma atuação de gala contra o Manchester United, desta vez sofreu as consequências deste mal. O Liverpool não foi tão ligeiro quanto os Spurs, mas balançou as redes antes que o relógio batesse três minutos. Após uma bola longa, a zaga londrina apareceu inteiramente desmontada. Eric Dier tentou recuar e acabou dando uma assistência para Salah. De frente para o gol, apenas com Hugo Lloris pela frente, o egípcio deslocou o goleiro e estufou as redes. Vantagem importante para que os Reds colocassem seus planos em prática na sequência do duelo.

A posse era o Tottenham, como já se esperava. O time de Pochettino manteve o controle da bola por 60% do tempo durante a etapa inicial. Mas os visitantes pouco criavam no ataque. Sofriam com a marcação intensa do Liverpool, que apertava a saída de bola e mal deixava os Spurs se aproximarem de sua área. E a estratégia dava certo, pela maneira como os Reds rondavam a meta de Lloris. Se fossem um pouco mais eficientes, poderiam ter ampliado a vantagem. Buscavam especialmente as pontas, mas não conseguiam finalizar em cheio. Do outro lado, o Tottenham fez Loris Karius trabalhar apenas na reta final do primeiro tempo. Na melhor chance, defendeu com firmeza o chute de Moussa Dembélé, na entrada da área.

Rumo ao segundo tempo, o Liverpool passou a se preservar mais e diminuiu o ritmo. Enquanto isso, o Tottenham necessitava do resultado e passou a se impor no campo de ataque. Em uma jogada em velocidade, Salah até poderia ter marcado o segundo. Mas, depois disso, o duelo ficaria sob mando dos Spurs. Os londrinos tinham volume de jogo e começaram a encontrar brechas na área vermelha. Dele Alli deu um passe genial a Son, que saiu de frente para o crime, mas viu Karius se agigantar em sua frente. O criticado goleiro faria outra boa intervenção pouco depois, em cabeçada de Harry Kane à queima-roupa, mas em cima do camisa 1.

Klopp tentou revigorar sua equipe mandando a campo Georginio Wijnaldum e Alex Oxlade-Chamberlain, mas as mudanças não melhoraram as perspectivas do Liverpool. O Tottenham era todo ataque e botava o time da casa contra a parede. Por ora, os Reds conseguiam travar as tentativas incessantes. Então, os dois treinadores passaram a protagonizar uma batalha na prancheta. Pochettino aumentou as opções no ataque com Erik Lamela, tirando Davinson Sánchez. Além disso, encorpou o meio-campo com a entrada de Victor Wanyama, tirando Moussa Dembélé. Do outro lado, Klopp preferiu se fechar de vez com Joel Matip na vaga de James Milner.

Em meio aos cruzamentos e à pressão do Tottenham, o Liverpool se segurava. Merecia exaltação a forma como o time se defendia, principalmente considerando as seguidas críticas à linha de zaga. O gol, todavia, aconteceria de maneira impressionante aos 35. Karius afastou uma bola alçada à sua área rebatendo para frente, sem que a zaga emendasse o chutão. Wanyama, que acabara de ingressar na partida, pegou na bola com uma felicidade imensa. Um chute feroz que mais pareceu um relâmpago. A câmera mal conseguiu filmar o balaço, certeiro, direto ao ângulo da meta do Liverpool. E é de se questionar como um arremate de força tão descomunal não furou as redes.

Neste momento, o jogo até parecia ter uma lógica. O Liverpool foi melhor no primeiro tempo e saiu com vantagem. O Tottenham se recuperou do início apagado, partiu para cima e teve uma felicidade imensa com Wanyama. No entanto, nos 15 minutos finais, qualquer previsão sobre o que aconteceria não passava de um ardil da mente. Era preciso se concentrar apenas no que os olhos viam. Apreciar. Deixar acontecer e desfrutar, sem querer necessariamente teorizar.

Três minutos depois, após um erro de Dejan Lovren, o Tottenham poderia ter virado. Harry Kane partiu sozinho e foi derrubado por Karius. Pênalti. Mas na marca da cal, o artilheiro acabou sendo bastante temerário. Resolveu encher o pé no meio. O goleiro alemão esperou e conseguiu espalmar. Era um sopro de esperança ao Liverpool, que reavivaria o ataque, depois de minutos inativo. Salah passou a aparecer novamente, partindo para cima. Já nos acréscimos, acabou por fazer mágica. Primeiro, quando parecia prestes a perder a bola, brigou por ela entre dois marcadores. Então arrancou. Deixou o primeiro no vácuo antes de aplicar um corte seco no segundo. De frente para Lloris, chutou por cima do goleiro. Novamente os anfitriões ficavam em vantagem.

Seria, então, uma vitória gigantesca do Liverpool, contra outro rival de peso? Esqueça as certezas. O Tottenham foi para os últimos suspiros. E em uma bola na área, Van Dijk tentou afastar o perigo, mas acabou acertando Lamela. Os jogadores do Liverpool contestaram o lance, mas o árbitro apontou novamente a marca da cal. Kane arriscaria o meio de novo ou bateria no canto? Karius esperaria ou escolheria um lado? Melhor para o centroavante desta vez, que bateu na sua direita e viu o alemão saltar na outra direção. Seu centésimo tento pela Premier League, assinalado de maneira tão simbólica em um jogo desses. Garantiu a igualdade em uma partida que teve um tempo para cada time.

O Tottenham vem de uma semana para elevar a sua confiança. A maneira como o time jogou contra o Manchester United e como encarou o Liverpool no segundo tempo é digna de aplausos. Em um duelo difícil, os Spurs buscaram a recuperação e fizeram os anfitriões sofrer. As individualidades não funcionaram tanto assim, mas o coletivo precisa ter os seus méritos reconhecidos. Pensando naquilo que virá pela frente, com o dérbi do Norte de Londres e a Juventus pela Champions como desafios a partir do próximo sábado, o momento favorece. O time segue em quinto na tabela da Premier League, com 49 pontos, a um do Top Four e quatro à frente dos Gunners.

Por outro lado, o Liverpool mostra mais uma vez que é time de jogos grandes. É impressionante a diferença entre aquela equipe que peita os principais rivais na Premier League e a que sucumbe em jogos teoricamente mais fáceis. O resultado não foi perfeito, mas o bom primeiro tempo, o esforço da zaga no segundo e a imprevisibilidade de Salah no final valeram muito. Os erros pontuais apareceram, mas há uma dose de casualidade e de força dos oponentes que explicam os dois pontos perdidos. É um tropeço em casa contra um rival direto, ainda que longe de ser totalmente ruim, até pensando pela maneira como o Tottenham massacrou em Wembley no primeiro turno. Em terceiro, com 51 pontos, os Reds podem ser ultrapassados pelo Chelsea na segunda-feira. Nada que diminua o saldo positivo que também fica em Anfield.