Uma compilação de gols qualquer já serve para te deixar embasbacado. De calcanhar ou de trivela, por cobertura ou soltando o pé, fora ou dentro da área. Luc Nilis era um especialista na arte de balançar as redes. Poucos atacantes ao longo das últimas três décadas tiveram tamanha qualidade técnica. Opinião esta que não é de um mero leigo, e sim de Ronaldo. Segundo o próprio Fenômeno, que compartilhou a cancha com outras tantas lendas, ele não encontrou parceiro melhor ao longo da carreira do que o belga. Diz muito. Tudo bem, Nilis não era o jogador perfeito. Não era tão veloz ou tão intenso, por vezes sucumbia à mente ou às lesões. No entanto, ficando só entre ele e a bola, se aproximava da perfeição. Exímio em diversos fundamentos, é menos lembrado que deveria por sua categoria. E, por isso, merece ser celebrado ao completar 50 anos, na última quinta-feira.

A explicação para o refinamento de Luc Nilis está em suas origens. O garoto nascido em Hasselt era filho de Roger Nilis, ponta de carreira modesta no futebol belga. O progenitor, todavia, depositou todas as esperanças no rebento. Foi seu treinador nas categorias de base e, assim, incentivou o menino a aprimorar sua técnica. Chegou a um nível impressionante, combinado com o talento nato. Fanático por Johan Cruyff, o belga também tentava se inspirar no ídolo. Inclusive, na base, reproduziu o famoso pênalti em dois tempos para servir um companheiro. O sinal concreto de um jogador diferente.

Após se destacar no Halveweg Zonhoven, equipe pequena da localidade onde cresceu, recebeu uma proposta para defender o Winterslag (que, mais tarde, se fundiria para formar o Genk) aos 14 anos. E não demoraria para deslanchar. Aos 16, já fazia sua estreia na segunda divisão do Campeonato Belga. Jogou duas temporadas completas pelo clube, até chegar a hora de sair. Vários clubes estavam de olho em seus serviços. Acabou assinando com o maior do país, o Anderlecht, que o acompanhava de perto desde que o técnico Raymond Goethals estava na casamata, anos antes. O novato não conseguiu se tornar titular em seu primeiro ano, mas fez parte do elenco na conquista do tricampeonato nacional. Para logo depois cavar sua vaga.

Olhando apenas os números, a passagem de Nilis pelo Anderlecht foi excelente. Anotou 127 gols em 224 partidas pela liga e, tirando a temporada de estreia, sempre registrou dois dígitos nos tentos. Como titular, faturaria três títulos do Campeonato Belga e três da Copa da Bélgica. Formou uma parceria infernal com o maranhense Luis Oliveira na virada da década. Empilhou pinturas. Mas também acumulou frustrações. Sentia que não tinha plena confiança dentro do clube – como na final da Recopa Europeia de 1990, quando entrou apenas nos minutos finais da prorrogação, vencida pela Sampdoria. Sofreu uma grave lesão de ligamentos, que o afastou do time por alguns meses. Não era levado em conta nas premiações individuais, por mais que gastasse a bola.

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Ao mesmo tempo, a afirmação de Nilis na seleção era ainda mais complicada. Convocado pela primeira vez em 1988, por Guy Thys, não ganhou a oportunidade de disputar a Copa do Mundo de 1990. A primeira chance em um Mundial viria quatro anos depois, mas sem emplacar entre os titulares. Faltava um pouco mais de regularidade. Embora fosse tratado como um talento, o atacante não tinha uma sequência para confirmar todas as expectativas sobre si. Desta maneira, resolveu mudar de ares em 1994.

Na época em que o Anderlecht acertou sua compra, Nilis também havia recebido uma proposta do PSV. Um destino que se tornou um pouco mais palpável depois que Aad de Mos, seu ex-comandante nos Mauves, aportou no Estádio Philips. A diretoria dos Boeren estava relutante para fechar o negócio com o atacante de 27 anos, considerando-o propenso demais às lesões. O jeito arranjado por De Mos para convencer os chefes? Aquele mesmo que talvez tenha te deixado embasbacado, em uma era pré-YouTube: pediu uma fita de vídeo com a compilação dos melhores momentos do belga. O suficiente para que o contrato fosse assinado.

Nilis não chegou sozinho ao Estádio Philips. A grande aposta dos alvirrubros estava no banco da seleção brasileira na Copa de 1994: o então “Ronaldinho”, que começaria a se transformar em um fenômeno em Eindhoven. O dois craques não demoraram a se entrosar. Enquanto o belga atuava mais como um ponta-de-lança, buscando o jogo e se movimentando para servir o companheiro, o adolescente aproveitava sua explosão para infernizar as defesas adversárias. Apesar do porte físico mais avantajado, Nilis não se fixava na área. Cabeça erguida e passadas largas, auxiliava na criação, graças à precisão de seus passes e à leitura de jogo. Mas não deixava de marcar os seus gols, obviamente. A arte de quem batia na bola com carinho e a botava onde bem entendesse. Outras características, aliás, contribuíam: a impressionante noção do espaço, o domínio fácil, a proteção com o corpo, os dribles girando ao redor do próprio eixo. Um camisa 10 fantástico, que ainda se colocava como um irmão mais velho do garoto.

Juntos, Nilis e Ronaldo formaram a dupla de ataque mais prolífica da Eredivisie 1994/95. Marcaram juntos 42 gols, 30 do brasileiro e 12 do belga. Porém, não foram suficientes para superar o fortíssimo Ajax de Louis van Gaal, com o PSV terminando na terceira colocação. A posição de coadjuvante em relação à potência europeia da época, aliás, relegou um reconhecimento menor ao grande time dos Boeren. Mas, individualmente, Nilis acabou exaltado como nunca antes enquanto esteve na Bélgica. Apesar do ataque de 106 gols do Ajax, campeão com sobras e também dono da Champions naquela temporada, o camisa 10 recebeu o prêmio de melhor jogador da temporada holandesa, uma honraria imensa, superando Jari Litmanen e Frank de Boer.

Na temporada seguinte, chegaram outros jovens promissores ao PSV: Jaap Stam, Phillip Cocu, Boudewjin Zenden, Eidur Gudjohnsen. A equipe se aproximou do Ajax, mas não superou os rivais no topo da tabela. Precisou se contentar apenas com a Copa da Holanda, derrotando o Sparta Roterdã na final. E, diante da lesão que privou Ronaldo de parte dos jogos, Luc Nilis assumiu a missão de balançar as redes. Foram 26 gols, artilheiro da Eredivisie 1995/96 e também eleito o jogador do ano na Bélgica. Já na temporada seguinte, enfim, a glória. Por mais que Ronaldo tenha sido vendido ao Barcelona, suplantado por Marcelo Ramos, o desmanche do Ajax foi mais pesado. E o PSV recuperou o troféu após cinco anos, em equipe que também contava com (além dos já citados) Arthur Numan, Wim Jonk e Vampeta. Nilis outra vez arrebentou, goleador da liga com 21 gols.

Às vésperas da Copa do Mundo, Nilis causava o interesse de outros clubes europeus. Recusou se mudar para Rangers, Paris Saint-Germain ou Bordeaux, para focar em seu trabalho no PSV e chegar ao Mundial em sua melhor forma. Infelizmente, o atacante teve problemas de lesão e, anotando 13 tentos, não conseguiu ajudar os Boeren a buscar o bicampeonato, com o Ajax retornando ao topo. Por fim, manchou sua imagem na Copa, diante da decepcionante campanha da Bélgica, eliminada na fase de grupos. Titular nos três jogos, o camisa 10 marcou seu único gol em Mundiais num bonito chute contra a Coreia do Sul, o último de seus 10 pelos Diabos Vermelhos. O empate selou a eliminação dos belgas.

De volta ao PSV, Luc Nilis ganharia a braçadeira e a companhia de seu último grande parceiro de ataque: o jovem Ruud van Nistelrooy, de 22 anos. A dupla conseguiu ser mais produtiva que nos tempos de Ronaldo, com 31 gols do novato e 24 do veterano. Mesmo assim, terminaram a Eredivisie 1998/99 atrás do Feyenoord. E, como de costume naqueles anos, fizeram uma campanha modesta nas competições europeias, sem passar da fase de grupos da Liga dos Campeões. Aliás, exceção feita a 1995/96, quando eliminaram o Leeds United com duas grandes atuações e caíram para o Barcelona nas quartas de final da Copa da Uefa, os Boeren passavam longe de repetir o sucesso do Ajax além das fronteiras. A falta de exibições tão brilhantes do camisa 10 nas copas continentais era um ponto negativo à sua repercussão. No máximo, fez duas boas Champions com o Anderlecht, além da citada Copa da Uefa.

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A última temporada de Nilis no Estádio Philips não foi das mais felizes no aspecto pessoal, em rota de colisão com o técnico Erik Gerets, seu ex-companheiro na seleção. Ainda assim, terminou de sublinhar a idolatria junto à torcida alvirrubra. Pela segunda vez, conquistava a Eredivisie, com uma campanha arrasadora do PSV. A dupla com Van Nistelrooy no ataque continuou afiada, rendendo 19 gols ao belga e 29 ao holandês. O adeus merecido a quem ofereceu tanto encanto às bancadas, somando 110 gols em 164 jogos pela Eredivisie. Terminado o seu contrato, o veterano decidiu seguir em frente. Cedeu às ofertas da Premier League. Apesar de um possível interesse do Liverpool, assinou com o Aston Villa. Já tinha 33 anos, mas vinha de graça, e prometendo fazer tabelas mágicas com David Ginola, outro reforço de peso dos Villans.

Antes de desembarcar no Villa Park, Luc Nilis disputou a Euro 2000 em seu país. Ou melhor, assistiu ao torneio de um lugar privilegiado. Revogou a aposentadoria da seleção, mas de novo teve problemas com o comando e esquentou o banco na maior parte da campanha. Já na Inglaterra, as expectativas do Aston Villa sobre o novo craque acabaram dilaceradas em pouco tempo. O atacante estreou contra o Chelsea, pela segunda rodada da Premier League. Com 10 minutos de jogo, deu um drible seco na marcação e soltou a bomba. Golaço, que valeu o empate por 1 a 1. Dias depois, participou da derrota por 3 a 1 para o Liverpool. E, em 9 de setembro, fez a última partida da carreira, contra o Ipswich Town. Aos sete minutos, a entrada do goleiro Richard Wright fraturou sua perna. O triste fim de quem acariciou a bola com tanto apreço.

As semanas seguintes foram desesperadoras para Nilis. Operado com urgência, teve complicações na recuperação. Os médicos cogitaram até mesmo amputar sua perna. Felizmente, a medida extrema não foi necessária, mas o veterano nunca mais voltaria a jogar. Atravessou momentos difíceis em sua vida pessoal, até voltar a fazer parte de comissões técnicas em meados da década passada. Já nos últimos anos, desempenha um trabalho digníssimo para o seu talento: é o treinador de atacantes do PSV. Ensina os seus herdeiros a tratarem a bola tão bem como fazia. Não podiam contar com um melhor professor.