O fim da Copa do Mundo e a ressaca curtida com dois jogos (de volta!) da Copa do Brasil logo na segunda-feira deixaram claro que o futebol brasileiro estava retornando. Muito se falou sobre a questão técnica e a diferença em relação à Copa, mas esse não parece o aspecto mais marcante ou mais relevante. O nível técnico do Brasileirão pode não ser dos melhores do mundo, mas é bom. O problema está, essencialmente, fora de campo, influenciando dentro. É a organização, que marca jogo para o dia seguinte da final da Copa, que monta um calendário ridículo e que orienta muito mal a arbitragem. Este é o principal fator que diferencia a Copa do Mundo e o futebol brasileiro. O reflexo vimos mais uma vez no fim de semana: jogadores punidos por comemorarem seus gols. E esta é só uma das questões sobre uma arbitragem que segue orientações ridículas da Comissão de Arbitragem da CBF.

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O cartão amarelo por comemoração é algo tipicamente brasileiro. Não estamos falando sobre tirar a camisa, algo que é punido no mundo inteiro. Estamos falando sobre subir nas escadas do campo para a arquibancada no Maracanã ou, como aconteceu neste domingo, punições a Moisés, do Palmeiras, e Luan, do Atlético Mineiro. Dois casos de jogadores que acabaram punidos com cartões amarelos com explicações para lá de questionáveis do árbitro Péricles Bassols.

O Palmeiras marcou 1 a 0 aos três minutos de jogo com Moisés. O jogador foi para trás do gol, deu cambalhota e pegou o tripé de um fotógrafo para fazer de cajado (uma referência ao Moisés bíblico, algo que o jogador já fez outras vezes). O árbitro deu cartão amarelo ao jogador do Palmeiras e alegou, na súmula, que a advertência com cartão foi por perda excessiva de tempo. Uma orientação que é bastante brasileira. Raramente se vê um árbitro punir alguém por isso ao redor do mundo, mesmo que seja considerado um tempo excessivo – que, no fim, o árbitro pode acrescer. Está em seu controle.

No segundo tempo, quando Luan marca o gol do Atlético Mineiro, sai para comemorar e faz uma dancinha. Nada desrespeitoso, nada ofensivo, sem gestos obscenos. O árbitro puniu com cartão amarelo. No momento da punição, pareceu ser uma advertência por provocar a torcida rival – como já vimos tantas vezes. Na súmula do jogo, porém, Bassols escreveu “Perder tempo excessivo na comemoração de um gol – Por perder um tempo excessivo na comemoração de um gol a favor de sua equipe”. Exatamente igual ao caso de Moisés, só que ainda pior, porque no caso do atleticano, o tempo nem foi grande.

O árbitro é um problema, isso é evidente, mas há mais do que isso. Há uma orientação da Comissão de Arbitragem para que o comportamento daqueles que arbitram seja autoritário e use o cartão de forma a manter essa suposta autoridade. Já tinha acontecido na quinta-feira, em outro jogo do Palmeiras, quando Lucas Lima foi punido por… comemorar. O camisa 20 do Palmeiras fez o gol e mostrou as costas da camisa para os torcedores no estádio – que era torcida única, toda do Santos. Na súmula, o árbitro Dewson Freitas da Silva, justificou o amarelo ao meia palmeirense com: “Fizer gestos provocadores, debochados ou exaltados – Fazer gestos provocadores para a torcida adversária na comemoração do gol”. Sério? Apontar a camisa?

As punições às comemorações são apenas um dos aspectos do que as orientações da Comissão de Arbitragem da CBF. Na Copa do Mundo, um dos grandes acertos da Comissão de Arbitragem da Fifa foi em relação ao uso do VAR e especialmente na forma como os árbitros devem conduzir os jogos. Na primeira quarta-feira de futebol, o jogo entre Flamengo e São Paulo teve uma atuação muito ruim de Paulo Roberto Alves Júnior, do Paraná. No começo do jogo, foi autoritário no trato com os jogadores, de forma evidentemente excessiva. Errou demais, quis mostrar autoridade com cartões e acabou expulsando de forma injusta o meio-campista Felipe Araruna.

Os árbitros devem ser mediadores e, na Copa, as boas arbitragens foram discretas, como devem ser. No Brasil, há um excesso de tantas formas que os árbitros acabam sendo protagonistas dos jogos. Por vezes, eles são os inimigos do jogo. Alguns conseguem ser piores que times catimbeiros. Tem árbitro que faz cera, como Heber Roberto Lopes já cansou de fazer, por exemplo.

O pior da volta do futebol brasileiro é ver justamente a distância em relação ao nível de orientação e atuação da arbitragem na Copa em relação ao Brasil. É importante salientar isso: esses excessos que nós vemos no Brasil (especialmente em cartões) é por orientação da Comissão de Arbitragem da CBF. Sim, é culpa da CBF. São eles que orientam a punir jogadores que sobem em escadas móveis, “perdem tempo em comemorações” ou quando reservas invadem o campo para comemorar. Não são orientações da Fifa, não são regras do futebol. São orientações.

Quem comanda o departamento é Marcus Marinho, em São Paulo chamado de Coronel Marcus Marinho, por ser ex-oficial da Polícia Militar, que já orientava os árbitros a agirem dessa forma nos campeonatos paulistas. Um exemplo da influência da Comissão de Arbitragem é ver como árbitros brasileiros atuam em jogos de campeonatos internacionais. Sandro Meira Ricci, por exemplo, foi bem na Copa de 2018, enquanto no Brasil é um árbitro que parece atrair confusão. Em geral, árbitros brasileiros atuam de maneira muito diferente quando atuam em competições da Conmebol ou da Fifa. Isso tem a ver com a orientação da CBF.

Um outro exemplo sobre a orientação de comissão de arbitragem vemos nas cobranças de pênalti. No Brasil, é muito mais comum que os árbitros mandem voltar cobranças alegando que os goleiros se adiantam, algo que é muito raro de ver nos campeonatos de outros lugares. Na própria Copa do Mundo, alguns goleiros se adiantaram muito, mas nenhuma cobrança foi repetida. Há, ao menos, um critério mais uniforme.

O mesmo acontece com a orientação sobre os lances de mão. É preciso ter um critério mais uniforme e, na Copa, isso pareceu estar mais alinhado. O pênalti dado para a França contra a Croácia, na final do Mundial, foi um exemplo disso: os lances desse tipo no torneio tiveram faltas sempre marcadas. É preciso que o público em geral saiba que alguns tipos de lances são marcados. A falta de uniformidade de critérios é bem problemáticas e no Brasil parece que cada árbitro tem um critério.

A orientação é ruim nesse aspecto, que é fundamental, contrasta com uma orientação de ser autoritário, de forma sempre ridícula, como se os árbitros fossem policiais tratando com criminosos. Pior ainda: muitos árbitros começam o jogo cheios de autoridade, dando qualquer falta e distribuindo cartões. E, ao longo da partida, percebem que se continuarem assim, terão que expulsar muitos jogadores. E uma falta que ele marcava no começo do jogo não marca no fim. Torna, assim, o árbitro um personagem do jogo.

A Comissão de Arbitragem da CBF tem que ser cobrada. Os árbitros também, claro, mas quem comanda é que tem que ter a responsabilidade de acabar com esse problema. Os clubes deveriam se organizar para isso. Só que aí entramos em outro problema: os clubes são omissos e preferem que haja uma arbitragem que o beneficie eventualmente, mesmo que também custe um prejuízo eventual. Enquanto todo mundo assistir a esse espetáculo ridículo silenciosos – ou só reclamando para a imprensa quando se sente prejudicado e se calando quando for beneficiado. É um comportamento ridículo, portanto, de todos os atores envolvidos no fora de campo: Comissão de Arbitragem da CBF, clubes e que derrama tudo em campo, com árbitros bananas que prejudicam o jogo. Enquanto ninguém fizer nada, continuaremos tendo uma ressaca da Copa não pelo nível técnico dos jogos, mas pelo caos de má organização do futebol brasileiro.