Muitos previam um desastre, mas a Dinamarca sucumbiu com certa dose de honra nesta quarta-feira, durante o amistoso contra a Eslováquia. Por conta da falta de um acordo coletivo entre a DBU (a federação local) e o Sindicato dos Atletas, a equipe nacional precisou ser composta por amadores (da terceira divisão para baixo) e até mesmo jogadores de futsal. As expectativas era de uma goleada vexatória aplicada pelos eslovacos. No entanto, apesar de alguns lances bisonhos e do domínio dos anfitriões em Trnava, o placar de 3 a 0 não foi tão ruim aos dinamarqueses. Saíram de campo um pouco mais aliviados e com manifestações positivas de torcedores, embora a situação interna continue complicada.

O entrave se alonga há meses. A DBU e o Sindicato dos Atletas já se sentaram na mesa de negociações 26 vezes e ainda não acertaram o acordo coletivo sobre os ganhos dos jogadores durante os compromissos com a seleção. A federação acusa o Sindicato de mudar sua palavra quando as tratativas já estavam avançadas e suspendeu as conversas. Enquanto isso, os atletas até ofereceram a ampliação do acordo coletivo anterior, para que a seleção não fosse prejudicada na Data Fifa, algo que a DBU se recusou a aceitar. Sob críticas no país, os dirigentes resolveram alinhar a equipe nacional com “jogadores alternativos” e botaram os amadores na linha de frente, para evitar qualquer punição da Fifa ou da Uefa em caso de W.O.

Primeira adversária nesta Data Fifa, a Eslováquia não aprovou a situação. Reclamou publicamente da postura da DBU e o técnico Jan Kozak declarou que preferia aproveitar o tempo de outra maneira. Enquanto isso, os ingressos passaram a ser vendidos pelo preço simbólico de um euro, para evitar que as arquibancadas ficassem vazias. De qualquer forma, a seleção local acabou escalada com seus principais jogadores. Nomes tarimbados como Marek Hamsik, Vladimir Weiss e Martin Skrtel entraram em campo para encarar os dinamarqueses.

Do outro lado, sem que a Dinamarca sequer contasse com o técnico Age Hareide, a bomba caiu no colo de John ‘Faxe’ Jensen – um dos jogadores mais queridos da história do futebol local e herói na conquista da Euro 1992. Faxe teve a missão de dirigir o elenco formado por jogadores das divisões de acesso ou do futsal. O treinador conheceu os convocados apenas durante a viagem e realizou apenas um treinamento. Entre os escolhidos estavam pessoas com empregos comuns, incluindo um vendedor, um estudante e um criador de conteúdo para o YouTube. Mesmo assim, a equipe montada às pressas acabou protagonizando uma atuação razoável para as circunstâncias, diante de 6,4 mil espectadores.

Pressionando a Eslováquia abriu o placar aos 11 minutos, com Adam Nemec. Os anfitriões tocavam bem a bola e criavam boas chances, mas paravam no goleiro Christoffer Haagh, emprestado pela seleção de futsal. Além de se fechar bem, a Dinamarca também levava perigo nos contra-ataques e poderia ter empatado, até Albert Rusnák ampliar aos 37 minutos. Já no segundo tempo, com mudanças em ambos os lados, o terceiro gol eslovaco saiu aos 34. Erro bisonho de Adam Fogt, que desviou cruzamento contra as próprias redes.

O jogo desta quarta, todavia, foi o menor dos testes à Dinamarca improvisada. A equipe voltará a campo neste domingo para encarar Gales, na abertura de sua participação na Liga das Nações. O jogo competitivo deverá contar com adversários mais motivados. E as perspectivas não são boas para a resolução do entrave nestes quatro dias. Há uma pressão interna para que o presidente da DBU renuncie ao seu cargo, enquanto a FifPRO apoia a postura dos atletas profissionais. Os heróis de ocasião terão mais um ato para se provar.