Há exatos dez anos e um dia, a Croácia entrava em campo em Viena. Depois de uma campanha espetacular na fase de grupos, com direito a nove pontos e vitória sobre a Alemanha, o time treinado por Slaven Bilic disputava as quartas de final da Euro 2008. Luka Modric e Ivan Rakitic pela primeira vez figuravam juntos em uma competição internacional. E terminaram protagonizando a tristeza croata depois de uma partida dramática contra a Turquia. O gol de Ivan Klasnic aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação não seria suficiente, quando Semih Senturk empatou para a Turquia nos acréscimos derradeiros. Já na disputa por pênaltis, os dois jovens meio-campistas mandaram suas cobranças para fora. O sonho acabava por ali.

Modric e Rakitic viveram muito ao longo desta década. Tornaram-se dois dos melhores meio-campistas da Europa, cada um à sua maneira. Empilharam títulos importantes com seus clubes, sobretudo a Liga dos Campeões. E voltaram a lamentar pela equipe nacional. Não foram à Copa de 2010, caíram na fase de grupos na Euro 2012 e também na Copa de 2014. Quando pareciam quebrar a sina, encantando na primeira etapa da Euro 2016, não resistiram a Portugal nas oitavas de final. A seleção croata contava com um time interessante no papel, sobretudo por seu meio-campo. Mas parecia daquelas eternas promessas que nunca se concretizava. E a campanha rumo ao Mundial de 2018 não prometia tanto assim, com a bagunça interna da federação se refletindo em campo.

Poucas seleções do mundo, porém, contam com dois jogadores tão capazes de pegar a bola e mandar no jogo. Foi o que a Croácia viu nesta quinta-feira memorável em Nizhny Novgorod, contra a Argentina. Modric e Rakitic se transformaram em senhores da vitória sobre a Argentina, com atuações soberbas, em características distintas. Um triunfo categórico que se aproveitou das debilidades da Albiceleste e também exibiu o melhor de ambos os maestros. Os croatas têm um caminho a percorrer neste Mundial, apesar de já terem garantido a classificação antecipada, aquela que não vinha desde 1998. Em compensação, ganham um jogo para ser recontado eternamente.

Tanto Modric quanto Rakitic chegaram à Copa do Mundo questionados. O camisa 10 do Real Madrid, tricampeão da Champions, não por bola. A postura do veterano em defesa de Zdravko Mamic, vice-presidente da federação e principal dirigente do Dinamo Zagreb, gerou a revolta dos torcedores na Croácia. O dirigente foi indiciado por fraudar o clube, inclusive na venda do meio-campista ao Tottenham. Ainda assim, Modric depôs a favor de Mamic. Teve seu nome publicamente execrado nos muros do país e passou a ser vaiado pelos compatriotas. Para piorar, está sendo investigado por mentir à Justiça e pode ser preso por perjúrio. Nada que tenha o afastado da seleção. Contra Rakitic, por sua vez, as dúvidas vinham por aquilo que poderia produzir em campo. Apesar do título do Campeonato Espanhol com o Barcelona, o camisa 7 da seleção chegava à Rússia em má fase. Seu moral na equipe nacional, de qualquer forma, o manteve no 11 inicial.

Contra a Nigéria, a Croácia se armou em função de Modric e Rakitic. Os dois atuaram centralizados no meio-campo, em escalação bastante ofensiva do técnico Zlatko Dalic. O camisa 10 até se destacou individualmente, apesar da vitória sofrível de se assistir. Teste maior ocorreu nesta quinta-feira, contra a Argentina. E o treinador resolveu mudar o posicionamento de seus dois cérebros. Desta vez, contariam com Marcelo Brozovic em uma pouco usual função na cabeça de área. Os maestros teriam mais liberdade para criar, mas também a função de combater.

Ao longo da noite em Nizhny Novgorod, como era de se esperar, a Croácia girou ao redor de Modric e Rakitic. Os dois determinavam a postura de um time que pressionava a Argentina com a bola e tentava aproveitar com velocidade os espaços deixados pelos adversários. Rakitic era um abnegado em campo, transformado no jogadoraço de outros tempos. Quem sofreu com isso foi justamente Lionel Messi, perseguido pela marcação implacável do companheiro de Barcelona. Os desarmes do camisa 7 valeram demais para anular o apático craque. Modric, por sua vez, primava naquilo que faz de melhor: os passes. E é uma pena que um lançamento soberbo que deu ao final do primeiro tempo não se converteu em assistência. Sabe-se lá como, o camisa 10 viu através dos corpos à sua frente. Como quem assistisse ao jogo das tribunas ou através da tela de uma televisão, percebeu o avanço de Ante Rebic do outro lado do campo. Deu um passe rasante, perfeito para fugir dos defensores e cair nos pés do compatriota, que, no entanto, descompensou ao perder a chance.

Rebic seria o carrasco no início do segundo tempo, ao aproveitar a falha clamorosa de Willy Caballero. A deixa para que Modric e Rakitic brilhassem ainda mais. Diante de uma Argentina desinteressada, os dois meio-campistas tinham fome de bola. Atrapalhavam demais a saída dos adversários e atacavam impiedosamente. Assim, a Albiceleste se entregou nos 15 minutos finais a uma ode aos dois maestros. Modric pediu passagem primeiro. Totalmente livre para receber, brincou com a marcação de Nicolás Otamendi e, quando encontrou a mínima brecha, desferiu o chute certeiro. A bola fez uma curva para fora, saindo também de Nicolás Tagliafico, antes de entrar no canto da meta de Caballero. Golaço. Rakitic, por sua vez, merecia algo grandioso. A pintura não veio em forma de cobrança de falta magistral, que, caprichosa, bateu na forquilha. Caberia ao camisa 7, entretanto, a humilhação final. Entre dribles e trocas de passes fáceis, os croatas botaram os oponentes na roda. Mateo Kovacic apenas rolou para o veterano enterrar o moral do time de Jorge Sampaoli.

A Croácia, candidata a coadjuvante no início da Copa do Mundo, sobe de patamar depois desse resultado. Havia uma seleção impotente do outro lado. Mas também dois grandes jogadores que, quando conseguem jogar o que podem, causam grandes estragos. Foi um ponto fora da curva ao momento de Rakitic? Modric reconquistará o carinho dos torcedores? São respostas que só se desenvolverão ao longo da competição. Mas esta é a partida para marcar a carreira de dois talentos excepcionais na seleção.