“Se nós não estivermos presentes [na revolução], eles aprontam a República. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro?”

A fala é de Tancredi, um personagem do romance “O Leopardo”, de Tomasi di Lampedusa, e trata sobre um período importante da história italiana: a unificação do país, que acabou passando por uma mudança com inspiração iluminista. Os nobres perderam dinheiro e perdiam influência e poder diante de uma nova elite que veio dos plebeus. Tancredi, o personagem que verbaliza a fala citada acima, é sobrinho de Fabrício de Salina, príncipe que chefia uma família da decadente nobreza siciliana. No romance, os nobres como Don Fabrício percebem que uma mudança é inevitável e tentam abraça-la para satisfazer quem a deseja, mas impedindo que mudanças significativas sejam feitas.

Para fazer com que essa aparente contradição se concretize, os nobres precisam se unir a uma nova classe social, aqueles que ascenderam socialmente e, assim, desejavam mudanças em uma sociedade que mantinha privilégios aos membros da nobreza. Os nobres tinham o sangue azul e os títulos, embora não mais tivessem o dinheiro; a nova elite tinha dinheiro, mas não o sangue azul e os títulos.

Para isso, claro, oferecem o título de nobreza em troca do dinheiro em um casamento de um nobre falido com a filha de um plebeu endinheirado, Angelica.  Basicamente, a velha elite se curva à nova elite para manter alguns privilégios, já que todos parecia mesmo impossível. Astuto, Tancredi busca o casamento com Angélica para, assim, ganhar um novo tipo de poder, o político, e, assim, manter tudo como estava, apesar das mudanças pelas quais a Itália passava. O futebol brasileiro parece viver uma situação similar.

Sai a tradição, entra o “compliance”

Diante de um cenário de ruínas, os nobres da CBF sabiam que teriam que mudar. Três dos seus ex-presidentes são investigados pelo Departamento de Justiça e pelo FBI: Ricardo Teixeira, que em 2012 teve que abrir mão do seu cargo de presidente da CBF e de vice-presidente da Fifa diante de um escândalo de corrupção na Suíça – e que consta também no Fifagate, investigado pelas autoridades americanas; José Maria Marin, condenado e preso em Nova York por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro; e Marco Pólo Del Nero, entrincheirado no Brasil, sem poder romper as fronteiras, sob o risco de ser preso pelo FBI, já que consta como investigado pelos mesmos crimes de Marin, que, aliás, acusou Del Nero de ser o comandante de fato.

Del Nero é investigado também na Fifa, que pegou carona com as autoridades dos Estados Unidos, e suspendeu o dirigente. No seu lugar, assumiu Antonio Nunes, o Coronel Nunes, que o então presidente do Palmeiras descreveu como alguém que “tem capacidade”, quando o elegeram vice-presidente da CBF, em dezembro de 2015. Naquele momento, já se sabia que era um movimento político de Del Nero para que o vice-presidente mais velho da entidade fosse Nunes, seu aliado, para poder se licenciar do cargo – como de fato ocorreu dias depois. Isso porque o mais velho vice-presidente na época era seu opositor, Delfim Pádua Peixoto Filho – que morreria em novembro de 2016, na queda do avião que levava a Chapecoense.

A licença de Del Nero era estratégica, para sair de cena em um momento que a investigação americana parecia na iminência de coloca-lo como um dos indiciados. Quatro meses depois, porém, Del Nero se sentiu confortável para voltar ao cargo. Saiu da licença e voltou ao posto de principal dirigente do futebol brasileiro como se nada tivesse acontecido. Ou como se nada acontecesse.

Ali, a nobreza já fedia. Coronel Nunes é claramente alguém despreparado para ocupar o cargo de presidente da CBF, como ficou interinamente de dezembro de 2015 a abril de 2016. Dois anos depois do primeiro licenciamento, em dezembro de 2017, Marco Pólo Del Nero foi suspenso pela Fifa ao ser investigado por recebimento de US$ 6,5 milhões em propinas para beneficiar empresas de marketing esportivo. A denúncia se baseou no depoimento de testemunhas no processo que acabou por condenar José Maria Marin, em tribunal em Nova York – o crime foi julgado nos Estados Unidos por ter sido cometido em solo americano.

Voltava à cena, assim, Coronel Nunes, que assumiu desde então como presidente em exercício da CBF. Sabendo que não poderia continuar exercendo o cargo, Del Nero articulou para que um sucessor escolhido por ele fosse o presidente. Antecipou as eleições para que Rogério Cacoblo, seu escolhido, fosse eleito. Já que não era possível manter o status de nobreza e o poder que tinha, Del Nero se contentou em transferir o poder a quem ele quisesse, em quem confia e em alguém que já fazia parte do jogo.

Como bem escreveu Martín Fernandez no Globoesporte.com, Caboclo é para a CBF o que Infantino foi para a Fifa: diante da necessidade de mudança, entra alguém que já tinha um cargo no futebol, um burocrata, muito mais jovem que o antecessor e sem manchas no currículo.

Caboclo ficou conhecido entre os presidentes de federações estaduais como “o homem do compliance”, por ser alguém que manteria uma gestão para impedir gastos, em tese, desnecessários. Ou seja: não é alguém da política dos clubes, é alguém que chega ao principal cargo do futebol brasileiro com o verniz de gestor, não de político. Mesmo sendo um cargo político. Você já viu isso em outros lugares, não é mesmo?

Conselheiro do São Paulo Futebol Clube, Caboclo trabalhou com Del Nero na Federação Paulista de Futebol e foi promovido à CBF quando o chefe foi para o comando da entidade. Ao assumir o cargo após a eleição, que foi apoiada por todas as federações estaduais, por 17 dos 20 clubes da Série A e por todos os 20 clubes da Série B, Caboclo manteve o discurso baseado em gestão.

“Nossa gestão será marcada por dois pilares: eficiência e integridade, dos quais decorrerão todos os demais”, disse Caboclo na sede da CBF. Como também lembra muito bem Martín Fernandez, o discurso de Del Nero era similar. “Trabalharei incessantemente para conduzir o futebol brasileiro pelo caminho das boas práticas de gestão e governança e pelo fairplay trabalhista e financeiro fora das quatro linhas”, disse Del Nero.

O problema é que Del Nero era a nobreza decadente. Não foi suficiente para ficar no poder. Era preciso alguém da nova classe social. Era preciso casar Tancredi com Angélica. E astuto como Tancredi, Del Nero escolheu a sua Angelica, Rogério Caboclo.

Caboclo traz a imagem de alguém com verniz e discurso de gestão, eficiência, como se tivesse sido mergulhado em um caldeirão de autoajuda corporativa que faz tanto sucesso em dias atuais – a ponto de termos ricos palestrantes de empreendedorismo sem nunca terem empreendido na vida. O rei está morto, vida longa ao novo rei.

Cláusula de barreira

A eleição na CBF é contestada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O motivo alegado é que houve um “dibre” no Estatuto do Torcedor na assembleia geral que aconteceu no dia 23 de março de 2017. O Estatuto do Torcedor obriga que os clubes participem das assembleias. Foi nessa reunião, sem os clubes, que foram atribuídos pesos aos votos na CBF: federações estaduais ganharam peso três; clubes da Série A peso dois; clubes da Série B peso 1. Na prática, isso tirou a importância dos clubes na eleição. Como são 27 federações estaduais (representantes dos 26 estados e mais o Distrito Federal), seus votos chegam a um total de 81; os clubes da Série A somam 40; os da Série B outros 20.

O promotor Rodrigo Terra, do Ministério Público do Rio de Janeiro, entrou com uma ação em julho de 2017 para impedir a mudança de estatuto que validou a mudança. A CB F se defende que o Estatuto do Torcedor obriga a presença dos clubes apenas em assembleias eleitorais e que a reunião que decidiu pela mudança de estatuto não era uma. Claro, o Ministério Público contesta isso, já que ela muda as regras do jogo da eleição.

Entre as regras do jogo, há um componente que é chave na manutenção de poder da CBF: a cláusula de barreira. A mudança de estatuto da entidade, referendada pelas federações estaduais, aprovou que um candidato a presidente deve ter o apoio declarado, por escrito e registrado, de ao menos cinco clubes (de 20) da Série A e de pelo menos oito federações estaduais (de 27). Ou seja: a CBF só precisaria do apoio de 20 das 27 federações para ter um candidato único. Foi exatamente o que aconteceu.

Como era de se esperar, a CBF se articulou e usou a máquina de poder para impedir articulações contrárias. Mesmo que as articulações contrárias não fossem exatamente de oposição. O único concorrente a Caboclo era Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol. Mas ele acabou sufocado quando a CBF decidiu abrir a carteira. Vai bancar a viagem de 27 presidentes de federações estaduais e mais 10 presidentes de clubes à Copa do Mundo de 2018. Boa parte do colégio eleitoral da CBF. Mais do que suficiente para impedir que Carneiro Bastos conseguisse os apoios que precisava para ser candidato. E, assim, Caboclo teve a eleição garantida antes mesmo dela acontecer, pela ausência de candidatos.

Del Nero está suspenso pela Fifa. Inicialmente, a punição ia até o dia 15 de março, mas foi prorrogada até 30 de abril. Depois desse prazo, a Fifa deve anunciar uma punição definitiva ao dirigente. A CBF agiu rápido e antecipou as eleições, sabendo que o processo, depois de concluído, seria muito mais difícil de ser revertido. Conseguiu, assim, eleger Caboclo neste dia 17 de abril, mesmo que o seu mandato só comece daqui um ano, em abril de 2019.

Inicialmente um diretor financeiro da CBF, Caboclo ganhou força e foi moldado por Del Nero para ser o seu candidato. Articulou com as federações e ganhou o apelido que lhe dá um verniz de gestor. O homem do compliance vem como um jovem de 45 anos, perto dos 77 de Del Nero, fala palavras em inglês para gestão, como o rótulo pelo qual ficou conhecido. É o novo, colocado no poder para que nada saia do lugar.

Omissão dos clubes

Tudo isso é possível porque a CBF conta com a omissão dos clubes, especialmente os maiores. É verdade que três clubes de Série A não votaram em Caboclo: Atlético Paranaense, que sequer enviou representante à assembleia; Corinthians, que votou em branco; e Flamengo, que se absteve de votar. Nem para serem oposição os três clubes falaram a mesma língua.

Na saída da assembleia, Andrés Sánchez criticou a ausência do Flamengo – o presidente Eduardo Bandeira de Mello não compareceu à assembleia, mas mandou um representante que se absteve de votar. As rusgas vieram também de assédio do Flamengo ao técnico do Corinthians, Fabio Carille, e ao meia Rodriguinho. As propostas foram criticadas por Sánchez.

Os clubes não são vítimas no processo que os alija.  São parte dele. Para haver um candidato de oposição, é preciso articulação e união dos clubes, algo que raramente houve na história do futebol brasileiro. Mais ainda desde a implosão do chamado Clube dos 13, em 2011, articulada principalmente por Andrés Sánchez, que era presidente do Corinthians e voltou a ser agora.

Os clubes brasileiros são adeptos da máxima popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”. A implosão se deu, na época, porque havia um racha sobre a questão da venda dos direitos de TV, que tinha se tornado basicamente a única função do Clube dos 13. Sem ele, os clubes nunca mais negociaram os direitos de TV de forma conjunta. E poucas vezes tentaram qualquer articulação conjunta. A tentativa mais recente, a Primeira Liga, foi um retumbante fracasso, que ruiu também porque os clubes discordaram da divisão de cotas de TV.

Com os clubes desarticulados, desunidos e boa parte falido – não no sentido literal, já que não são empresas, mas sim entidades sem fins lucrativos -, a CBF sabe que precisa só trabalhar nos bastidores com as federações. O processo do Ministério Público deveria ser de interesse dos clubes, porque foram eles os alijados do processo na aprovação do novo estatuto. Mas nenhum clube esboça qualquer reação.

Mais do que isso: 17 dos 20 clubes da Série A votaram em Caboclo, assim como os 20 clubes da Série B. As federações votarem com o candidato da CBF não era nenhuma surpresa. Se o único princípio visível é o cada um por si, os clubes parecem temer retaliações e não só não se articulam para ter uma oposição, como votam com o candidato da CBF. Temem pelo poder da CBF, temem ser prejudicados pela arbitragem, temem pelo incerto.

Se os clubes não conseguem se articular nem mesmo para criar uma liga que possa gerir o Campeonato Brasileiro e, assim, valorizar o seu produto e não se prejudicar pela incompetência da CBF, que dirá se articular para ter um candidato seu no comando da entidade. Os clubes são os protagonistas do futebol, mas quando se trata do poder, eles são apenas coadjuvantes, jogados para escanteio a cada disputa, mas ainda sorridentes. A CBF faz o que quer. E os clubes parecem felizes com isso.

Assim, Caboclo é o presidente da CBF. Uma CBF que, tal qual a Fifa, pintou as paredes e trocou o piso, mas segue um prédio com estruturas apodrecidas. Diante de questionamentos sobre a falta de experiência de Caboclo como presidente de clubes, tendo sido um burocrata do futebol e empresário a vida toda, a resposta é que isso já aconteceu antes. Em 1989, um então jovem Ricardo Teixeira foi alçado à presidência da CBF. E o exemplo diz muito sobre como a ideia é mudar para que tudo continue como está.