Entro correndo numa livraria do centro da cidade. É hora do almoço e estou com pressa. “Onde fica a parte de futebol?”, pergunto, ofegante, a uma moçoila com o jaleco do estabelecimento, que se assusta com meu ar resoluto e determinado (pensando bem, acho que foi o suor, a barba por fazer e o cabelo revolto). “Lá em cima, no final do corredor à esquerda.”. Eu procurava especificamente livros sobre arbitragem, pois um amigo, que já andava bandeirando por aí, fazia aniversário. Rapidamente, encontrei um do Arnaldo César Coelho, um do Pierluigi Collina (em inglês) e outro do Carlos Simon. Optei pelo terceiro, que era mais barato, mais recente e tinha prefácio de Ruy Carlos Ostermann.

Não supunha que fosse tão fácil encontrar publicações assinadas por juízes de futebol. Eles estão mesmo invadindo todas as mídias, nem sempre com desenvoltura. Ao sair da livraria, fiquei curioso para saber se fizera uma boa compra. Dava para apostar no Simon autor? Bem, é melhor trocar o verbo: dava para acreditar no Simon autor? Fico sabendo, logo nas primeiras páginas, que o gaúcho é formado em Comunicação Social pela PUC-RS. “Na diagonal do campo” pode ter sido, portanto, seu segundo passo rumo aos comentários televisivos. Não sabemos se esse é seu plano, mas a probabilidade é grande: para os árbitros brasileiros que apitaram Copas nas últimas décadas (e Simon esteve na Ásia em 2002), as telas têm sido um destino bastante freqüente.

Que tal uma lida antes de embrulhar o presente? O texto de Ruy Carlos Ostermann é brilhante. Seu único exagero é dizer que o livro de Simon é “divertido, competente, instigador e bem escrito”. Talvez ele esteja se referindo a uma parte específica da obra – o próprio prefácio. Mas não nos preocupemos muito com isso, já que nunca se ouviu falar de um prefácio que desancasse o autor do livro. Nem seria o caso de fazê-lo ineditamente, já que os 45 capítulos de Simon têm virtudes. Pode-se até afirmar, corroborando o prefaciador, que o livro é competente e bem escrito, mas a instigação passa ao largo, assim como a diversão, que só ameaça aparecer em alguns “causos” relatados sem muito entusiasmo.

Os momentos mais enfadonhos são os dedicados à paráfrase das regras do futebol e ao procedimento do árbitro em situações de jogo, e há muitos assim ao longo das 126 páginas. Acrescenta-se muito pouco às dezessete velhas normas e vez por outra efetuam-se explicações desnecessárias, como no trecho em que se “decifram” certos conceitos: “Simulação – simular é tentar fazer parecer realidade aquilo que não é.”. Os leitores agradecem o esclarecimento. E se espantam com a ética profissional de Simon: no capítulo “Decisões por pênaltis”, ele adverte que é imperioso tomar cuidado com a contagem para não cometer falhas inadmissíveis como a de Arman… como? Ele não citou a decisão do paulista de 73? Não. Preferiu mencionar a final da 14a edição da Copa Paquetá (?!). Que respeito ao (hoje ex-) chefe!!

Algo similar ocorre quando Simon diz que “não teria cabimento” um jogador pedir ao árbitro para tomar o terceiro cartão amarelo. Trata-se de uma clara alusão ao que sucedera entre o atacante Valdir e o árbitro Edílson Soares da Silva (não confundir com o outro Edílson!), poucos meses antes da publicação do livro. Simon, no entanto, não nomeia os envolvidos. Dá para imaginar que, se o livro só tivesse sido lançado ontem, haveria um alerta do tipo “É inconcebível, para quem exerce o ofício, manter relações escusas com apostadores. Não que eu me lembre de algum caso assim, pelo contrário…”.

Os capítulos em que o autor emite opiniões acerca de assuntos polêmicos do futebol atual – uso de vídeo para auxiliar os árbitros, sorteio para definir escala – são os mais interessantes, pois neles se observa um Simon mais solto, fugindo da objetividade da regra. Alguns dados referentes à história do futebol, tais como os surgimentos da figura do árbitro, do gol olímpico e do gandula, também ajudam a enriquecer o livro, embora possam ser encontrados em várias outras fontes. Outro ponto positivo é a construção do texto. Fluência, organização e clareza estão lá. Um leve deslize irrompe quando, ao falar daquele famoso gol do ex-árbitro José Assis de Aragão, o autor ressalta que “a bola (…) tocou, involuntariamente, no árbitro”, como se a pelota pudesse ter vontades. Totalmente perdoável e, tal qual o faro de artilheiro de Aragão, involuntário.

Fui entregar o presente achando que mesmo as partes mais insossas do livro agradariam ao meu amigo, afinal ele é árbitro formado e Simon é há tempos o melhor do Brasil. Mas aí notei que o autor gaúcho tece comentários sobre algumas decisões por ele apitadas, como as da Copa do Brasil em 2003 e 2004, mas nem resvala na de 2002, entre Corinthians e Brasiliense, em que errou bastante. Nesse instante, interrompi minha caminhada e cogitei levar o presente de volta para casa. Foi uma indecisão passageira, porque o livro tem, inegavelmente, boas partes e, além disso, eu não ia comprar outro presente de jeito nenhum.