No papel, não há seleção mais forte nas Américas do que a Argentina. Do meio para frente, dá até para dizer que nem no resto do mundo há alguma outra equipe nacional que se equipare ao talento da Albiceleste. A qualidade, no entanto, não tem rendido títulos nos últimos anos. Mas, na base da vontade, os argentinos parecem dispostos a reescrever esta história na Copa América. O time vem engolindo adversário após adversário. E, nesta terça, teve mais uma grande atuação para despachar os anfitriões: inapelável goleada por 4 a 0 sobre os Estados Unidos, com Gonzalo Higuaín, Ezequiel Lavezzi e Lionel Messi (sempre ele) servindo de protagonistas. Garantiu a equipe de Tata Martino na final, marcada para o próximo domingo, contra Chile ou Colômbia.

Três minutos. Foi o tempo que a Argentina precisou para proclamar que já estaria na final, independente do esforço dos americanos. Neste intervalo, o time da casa tocou na bola raríssimas vezes. E nunca para ficar com ela, apenas para rifá-la aos lados. Em uma dessas jogadas, a Albiceleste ganhou um escanteio. A cobrança curta, na verdade, era lance ensaiado, em que Messi deu um passe magistral. Como em uma ponte aérea da NBA, levantou a bola para Lavezzi desviar de cabeça, aproveitando a indecisão do goleiro Brad Guzan. O camisa 22 explodiu na comemoração, para homenagear Maradona. Exatos 22 anos depois do grito para a câmera de Dieguito, ao marcar contra a Nigéria na Copa de 1994, Pocho repetiu o gesto. Também de azul escuro, de novo nos Estados Unidos.

A saída de jogo, enfim, deu a posse de bola aos Estados Unidos. Não que adiantasse muito. A Argentina não teve problema para recuperá-la várias vezes, diante dos seguidos erros dos americanos. Com ela, trabalhava os passes de maneira cadenciada, paciente, inteligente. E também não deixava de pressionar. Contra um meio-campo exposto, a Albiceleste martelava. Só que demorou a ampliar a conta. O segundo tento veio, mais uma vez, através da genialidade de Messi. Após uma jogada individual, ele sofreu falta na intermediária. Resolveu cobrar no canto do goleiro. E o mísero passo à direita de Guzan se provou fatal, impossível de voltar a tempo e barrar a pelota que seguiu certeira, em seu ângulo. A bem da verdade, talvez nem se estivesse plantado no lugar certo ele conseguisse pegar.

Os rumos do jogo indicavam uma goleada. Que ganhou um pouco mais de forma na volta do intervalo. Lavezzi atacou de garçom e fez uma inversão de bola cirúrgica a Higuaín, que havia desperdiçado algumas chances na primeira etapa. Desta vez, nada de falhas. Por piedade ou para se poupar, o fato é que Albiceleste desacelerou. Aos 17, se preocupou com Lavezzi, que tomou o tombo e deixou o estádio com suspeita de fratura no pulso. Mas, no que permanecia em campo, não tinha com o que se preocupar ante os Estados Unidos. A equipe de Jürgen Klinsmann era ineficaz, a ponto de não finalizar uma vez sequer ao longo dos 90 minutos. Restava esperar o golpe de misericórdia. Saiu aos 40, em uma saída de bola errada que terminou nos pés de Messi, rolando para Higuaín marcar o seu segundo tento, o quarto dos sul-americanos.

Independente do adversário, a Argentina sustenta o favoritismo na final. E não poderia ser diferente, embora a goleada de véspera, de qualquer forma, não seja garantia de nada. Os 6 a 1 contra o Paraguai nas semifinais de 2015 devem ter servido de lição. Mas, ao menos desta vez, não há mais o risco de pegar o anfitrião embalado. O momento para encerrar os 23 anos sem títulos não poderia ser melhor. E será ainda mais se Di María, que se lesionou na primeira fase, voltar aos titulares. Nesta terça, ele permaneceu no banco e até se aqueceu, mas ganhou um descanso para estar na forma mais próxima da perfeição para a decisão de domingo.

Já os Estados Unidos vão para a decisão do terceiro lugar com a ressaca embrulhando o estômago. Klinsmann não merece elogios faz algum tempo e o baque não é nada bom para ele. A Copa América Centenário, como um todo, deixa um recado às seleções da Concacaf: a qualidade dos sul-americanos segue preponderando. Um bom ponto para dar continuidade à discussão sobre os rumos das competições nas Américas. Se bem que, contra a Argentina inspirada, nem mesmo os vizinhos parecem imunes a uma sapatada.