Dentro da atual política de mercado do Bayern de Munique, em que reiteram o compromisso com as categorias de base e o intuito de desenvolver jogadores, Alphonso Davies surge como um negócio interessante. O canadense de 17 anos defende o time principal do Vancouver Whitecaps há três temporadas e é visto como uma das grandes revelações da Major League Soccer. No último ano, estourou pela seleção local e, além de ser eleito a revelação da Copa Ouro, também terminou com a Chuteira de Ouro do torneio. Promessa que levou os bávaros a desembolsarem €10 milhões, em transferência que se concretizará em janeiro, quando o garoto tiver completado 18 anos. E que, no fundo, traz uma baita história de vida.

Davies nasceu em Buduburam, um campo de refugiados na região costeira de Gana. O local fica a 44 quilômetros de Accra, capital do país, e foi criado pela ONU em 1990, para receber pessoas que fugiam da Primeira Guerra Civil da Libéria. O conflito teve uma pausa em 1996, mas acabou retomado em 1999, na chamada Segunda Guerra Civil. Foi nesta época que os pais do futuro jogador saíram da capital Monróvia e buscaram uma trégua em Buduburam, como fizeram mais de 400 mil liberianos ao longo da década. O garoto veio ao mundo em novembro de 2000 e morou entre refugiados até os cinco anos de idade.

“Era difícil viver na Libéria, era perigoso. Porque a única maneira de sobreviver, às vezes, era carregando armas também. Nós não tínhamos nenhum interesse em atirar, então decidimos fugir de lá. Estávamos a salvo vivendo no campo de refugiados, mas era bastante duro. Você tinha que gastar dinheiro com tudo o que precisava, água, comida. E nós não tínhamos dinheiro. Ficávamos preocupados porque a fome também mata pessoas no campo de refugiados, não apenas na zona de guerra. Pensávamos como poderíamos arrumar comida para nossos filhos não terem fome. Com a gente, eles podiam dormir e comer, mas não se ficassem sozinhos. Então, todos os dias nós precisávamos ter a certeza de que daríamos algo para eles comerem e continuarem sobrevivendo”, relembra o pai de Alphonso, Debeah Davies.

Visão complementada pela sua mãe do jogador, Victoria: “Você convivia com o medo na Libéria. Porque para ir a qualquer lugar, precisava passar por corpos no chão e encontrar comida. Então o melhor caminho era apenas fugir de lá, e fomos para Buduburam. A vida de refugiado é como se te colocassem em um contêiner e o fechassem lá dentro. Não tínhamos como sair do campo. Você não podia ir longe do local, porque qualquer coisa poderia acontecer. Se eu olhar para trás, de onde viemos, o campo de refugiados, sem comida, sem roupas… Agora, onde estamos hoje. Alphonso tem tudo o que precisa”.

Em 2006, aconteceu outra mudança decisiva à vida (e, por tabela, à carreira) de Alphonso Davies. Seus pais deixaram a África, em busca de uma vida melhor no Canadá. Entraram para um programa de reassentamento, que levou toda a família rumo à América do Norte. “Eu estava triste, porque meus parentes ficaram na África e eu não tinha ninguém no Canadá. Por outro lado, estava feliz, porque estava vindo com meu marido e minhas crianças, para nos tornarmos pessoas melhores. E aqui estamos hoje. Alphonso não tinha escola no campo de refugiados, mas começou a estudar no Canadá. Em nosso país, sem dinheiro as crianças não vão à escola. Você precisa pagar tudo. Algumas vezes as crianças frequentam a escola apenas por alguns meses. É difícil. Aqui ele está bem. Apenas temos uma cor de pele diferente, mas agora penso que somos canadenses”, avalia Victoria Davies.

Os Davies moraram inicialmente em Ontario, no sudeste do país, antes de seguirem a Edmonton, uma das principais cidades na região oeste. Acostumaram-se ao clima, à cultura e à realidade da nova vida, com suas naturais dificuldades de adaptação. Pois logo na infância, Alphonso encontrou um caminho através do futebol. O menino tinha responsabilidades pesadas a uma criança de dez anos. Enquanto seus pais trabalhavam em turnos, ele se encarregava de tomar conta da casa e cuidar dos irmãos mais novos. Segundo seus antigos treinadores, isso atribuiu logo cedo uma grande maturidade, bem como uma ética de trabalho que servia de exemplo aos companheiros. Mentalidade que o ajudou a deslanchar nos gramados.

Destaque em pequenas equipes locais de Edmonton, Alphonso Davies recebeu uma proposta para se mudar a Vancouver em 2015, quando tinha 14 anos. Precisou convencer os seus pais que não se tornaria uma pessoa diferente, dedicando-se aos estudos e à carreira, sem se deslumbrar com a nova cidade. Assim, descrito como uma pessoa humilde e respeitosa, o prodígio continuou nas categorias de base dos Whitecaps, mas não por muito tempo. Meses depois já fazia sua estreia na MLS. E, em junho de 2017, recebeu a cidadania canadense, que logo o permitiu defender a seleção do país que adotou como seu.

“É uma grande honra poder dizer que sou um cidadão canadense. Antes de tudo, obrigado à federação e ao Whitecaps pelo apoio tremendo ao longo do processo. Não são muitas pessoas que podem dizer que são cidadãs canadenses, sabendo que este é um dos melhores países do mundo. Tenho muito orgulho em me tornar uma dessas pessoas. Também sou extremamente grato a meus pais, por tudo o que eles fizeram ao longo dos anos, carregando nossa família a um ambiente seguro. O Canadá é a nossa casa. É aqui onde eu cresci. E agora, ter a oportunidade de representar a seleção, é uma grande honra”, apontou na época.

Além de defender a seleção canadense, Alphonso Davies se tornou uma das faces na candidatura do Canadá, ao lado de Estados Unidos e México, pela Copa do Mundo de 2026. O garoto chegou a discursar no Congresso da Fifa semanas atrás e esteve presente em diferentes materiais de divulgação, inclusive quando a vitória da América do Norte foi anunciada em junho. Acaba-se virando não só o exemplo a outros refugiados, como também a maior esperança do futebol local. Agora, podendo se afirmar com a camisa do Bayern de Munique.

Nesta temporada da MLS, Alphonso Davies se estabeleceu como titular nos Whitecaps e acumula bons números. São três gols e seis assistências em 20 partidas pela competição. Dono de potência física, joga majoritariamente como ponta esquerda, às vezes entrando mais centralizado. Possui capacidade nos dribles e nas jogadas de linha de fundo, além de oferecer sua contribuição defensiva, com muita energia sem a bola. Disciplina que pode ser importante ainda mais ao seu desenvolvimento. É difícil dizer o quanto o canadense conseguirá evoluir e ganhar espaço no Bayern. Mas há potencial.

A transferência de Davies, além do mais, coloca a MLS como um mercado em potencial para fornecer jogadores à Europa. Com o investimento paulatino em categorias de base e formação de talentos, o caminho feito pelo atacante pode se tornar mais comum. Inclusive, com as equipes locais também servindo como intermediárias, a partir das aquisições feitas na América do Sul – como se torna praxe no Atlanta United de Ezequiel Barco, por exemplo. De qualquer maneira, a Alphonso Davies, a negociação se torna uma vitória pessoal. É a representação maior da superação ao longo de sua vida.