A Copa do Mundo passou a ter um formato de oitavas de final parecido com o atual, depois de uma fase de grupos, em 1986. Desde então, começando com Marrocos, passando por Camarões, Nigéria, Senegal, Gana e Argélia, sempre houve uma equipe africana entre os 16 primeiros colocados. O Mundial da Rússia foi uma exceção. Nenhum dos cinco times do continente conseguiu avançar ao mata-mata. Mas isso não quer dizer que a África fez feio nas últimas duas semanas.

O Egito talvez tenha sido a única seleção que realmente decepcionou. Senegal teve a faca e o queijo na mão para passar, mas fez uma última partida lamentável contra a Colômbia e foi punida com a eliminação. Marrocos e Tunísia apresentaram uma equipe que sabia jogar futebol, embora houvesse pouco que pudessem fazer em grupos muito difíceis. E a Nigéria, depois de uma estreia ruim, conseguiu se recuperar, venceu a Islândia e fez jogo duro contra a Argentina.

Egito

Torcedor do Egito lamenta a eliminação da Copa do Mundo (Foto: Getty Images)

As expectativas eram altas para o Egito. O sorteio havia sido uma boa notícia: grupo A, ao lado de Uruguai, Rússia e Arábia Saudita. Os bicampeões mundiais eram os favoritos, mas os africanos poderiam disputar a segunda vaga com o país-sede e, teoricamente, não teriam problemas para vencer os sauditas. Héctor Cúper assumiu o comando em 2015 e perdeu apenas três vezes nos primeiros dois anos de trabalho. A equipe havia sido vice-campeã da Copa Africana de nações e se classificado sem problemas. Além de um time organizado, tinha um grande craque: Mohamed Salah, artilheiro do Liverpool. No entanto, os problemas começaram justamente com o atacante, machucado durante a final da Champions League, a menos de um mês do começo da Copa do Mundo. Houve, inclusive, o temor de que Salah não se recuperasse a tempo de disputar o Mundial. Isso não aconteceu. Ele foi convocado, mas realmente não estava nas melhores condições.

Cúper tomou uma decisão ousada, ao deixar Salah no banco de reservas da estreia contra o Uruguai. A estratégia era tentar segurar pelo menos um empate com os favoritos do grupo sem desgastar sua principal estrela. Deu certo até o fim do segundo tempo, quando José Giménez marcou o gol da vitória uruguaia, ao fim de um jogo equilibrado, que talvez o Egito pudesse ter vencido se tivesse a qualidade de Salah no campo ofensivo. De qualquer maneira, uma derrota para o Uruguai era esperada. O grande duelo seria contra a Rússia, que havia estreado goleando a Arábia Saudita.

Essa foi a partida mais decepcionante do Egito. Depois de um primeiro tempo equilibrado, Ahmed Fathy fez um gol contra meio bizarro, e a porteira se abriu. O Egito não mostrou poder de recuperação e se tornou presa fácil para os russos, que ampliaram para 3 a 0, com gols de Cheryshev e Dzyuba, em um intervalo de três minutos. Salah descontou. No dia seguinte, a vitória do Uruguai por 1 a 0 sobre a Arábia Saudita eliminou os egípcios.

O Egito havia retornado à Copa do Mundo, depois de 28 anos, e, embora sem chance de se classificar, poderia pelo menos voltar para casa com uma grande vitória contra a frágil Arábia Saudita. Mas voltou a fazer uma partida ruim. Salah fez 1 a 0, com um belo gol por cobertura, e teve a oportunidade de ampliar, mas a desperdiçou. Antes do intervalo, Al-Faraj empatou de pênalti. Quando o jogo caminhava para o fim, a Arábia Saudita entrou na área trocando passes e Al-Dawsari decretou a terceira derrota egípcia em três partidas na Rússia. No fim, o Egito teve uma das piores campanhas do torneio.

Marrocos

Marrocos fez um bom papel na Copa do Mundo (Foto: Getty Images)

Uma análise abrangente aponta o Grupo B como um dos mais fortes da Copa. Além de Espanha e de Portugal, teve o forte Irã. E o Marrocos. A qualidade da seleção marroquina, que retornou à Copa do Mundo após 20 anos, espalhava-se pela equipe. Tinha bons laterais, em Achraf Hakimi e Nabil Dirar, e um zagueiro de imposição em Medhi Benatia. O principal setor era o meio-campo: Karim El Ahmadi, Mbark Boussoufa, Younès Belhanda, Nordin Amrabat e Hakim Ziyech. E isso ficou visível nas três partidas da chave.

Marrocos dominou os dois primeiros jogos. Mandou na partida contra o Irã, o confronto direto entre as duas equipes teoricamente mais fracas, mas sofreu para furar a forte defesa asiática. O empate por 0 a 0 deixava ambos tristes e felizes ao mesmo tempo, mas, nos acréscimos, Aziz Bouhaddouz marcou um infeliz gol contra. No duelo seguinte, Cristiano Ronaldo abriu o placar, logo aos 4 minutos, com um gol de cabeça. O restante foi um monólogo marroquino contra uma campeã europeia em apuros. Marrocos fez um grande jogou e encurralou o adversário. Criou oportunidades e conseguiu finalizar 11 vezes dentro da área lusa. Mas a pontaria não estava em seus melhores dias. E, quando o chute foi bom, apareceu Rui Patrício para defender.

Eliminado, Marrocos não baixou o nível para o último jogo contra a Espanha, até pela rivalidade que existe entre os dois povos. Obrigou a campeã mundial de 2010 a suar bastante para sair de campo com o empate e a vaga nas oitavas. Abriu o placar com Khalid Boutaib, arrancando desde o meio-campo, depois de um erro duplo de Iniesta e Sergio Ramos. Isco empatou, e Boutaib teve outra chance clara de marcar, novamente cara a cara com De Gea, mas a desperdiçou. De cabeça, Youssef En-Nesyri fez 2 a 1 para os marroquinos. Apenas nos acréscimos, Iago Aspas conseguiu arrancar o empate. Mas Marrocos pelo menos conseguiu um pontinho para simbolizar a sua ótima participação na Rússia.

Nigéria

Nigéria comemora gol na Copa do Mundo (Foto: Getty Images)

A Nigéria tinha uma equipe muito jovem. E aparentemente muito frágil, depois da derrota para a Croácia, na primeira partida. Foi um jogo muito físico e de muita correria dos dois lados e pouca qualidade técnica. A impressão foi das piores, mas os nigerianos conseguiram dar a volta por cima no segundo jogo. Com uma mudança de esquema tático para três zagueiros, conseguiram segurar a pressão da Islândia e mataram a partida na velocidade Ahmed Musa, que compôs a dupla de ataque com Iheanacho e teve o apoio de Victor Moses pela ala direita – como ele atua no Chelsea.

Havia a possibilidade de se classificar. E, ao mesmo tempo, eliminar Lionel Messi e a Argentina da Copa do Mundo. O gol do craque argentino, aos 14 minutos, foi um golpe duro, mas Moses empatou, de pênalti, no começo do segundo tempo. A Nigéria, porém, não conseguiu aproveitar a fragilidade da defesa argentina para cometer o crime, com exceção de uma escapada de Ighalo, que ficou cara a cara com Armani. O goleiro do River Plate defendeu com as pernas. Aos 41 minutos do segundo tempo, Gabriel Mercado teve liberdade pela direita e cruzou para Rojo fazer 2 a 1 para a Argentina, encerrando a campanha nigeriana na Rússia.

Tunísia 

Wahbi Khazri, o craque da Tunísia (Foto: Getty Images)

A Tunísia tentou impor o seu estilo de jogo nos seus primeiros 45 minutos da Copa do Mundo. Mas levou um baile da Inglaterra. Harry Kane abriu o placar, e os europeus tiveram uma série de boas oportunidades para ampliar. Antes do intervalo, Kyle Walker cometeu um pênalti bobo, e Ferjani Sassi conseguiu empatar. A estratégia para a segunda etapa foi diferente. Os africanos fecharam a entrada da área com uma linha de cinco jogadores, atrás de outra com três, e causaram dificuldades para a Inglaterra. Apenas aos 46 minutos do segundo tempo, Kane, novamente, conseguiu furar a defesa tunisiana e fez o gol da vitória.

Um gol de pênalti de Hazard, sofrido na sequência de uma boa troca de passes da Bélgica, facilitou a vida da seleção europeia na segunda rodada. Lukaku ampliou, no contra-ataque. Bronn ainda conseguiu descontar, mas os belgas souberam aproveitar os espaços para fazer 5 a 1 – e poderia ser mais se a pontaria de Batshuayi estivesse em dia. Não foi um grande jogo dos africanos, que descontaram, com Khazri, nos acréscimos. Mas viria a chance de ganhar pelo menos um jogo na última rodada.

A Tunísia enfrentou o Panamá e saiu perdendo, em um chute desviado em Meriah que enganou o goleiro Aymen Mathlouthi – o terceiro da posição, depois que os dois primeiros se machucaram. Com dois gols no segundo tempo, Ben Youssef e Wahbi Khazri, o craque do time, a Tunísia conseguiu reverter a situação e alcançou uma das poucas viradas da Copa do Mundo da Rússia.

Senegal

A torcida de Senegal fez a festa na Rússia (Foto: Getty Images)

Senegal tinha a melhor oportunidade de alcançar as oitavas de final. Tinha um time bem organizado, bom na defesa e com talentos em todos os setores, liderado por Sadio Mané, do Liverpool. Caiu em um grupo muito equilibrado, sem um campeão do mundo ou um bicho-papão. E começou muito bem: fez uma partida pragmática e inteligente contra a Polônia, defendendo-se bem e esperando os erros europeus para fazer 2 a 0. No fim, levou o desconto, com Krychowiak, um gol que custaria muito caro alguns dias depois.

Chegou a estar duas vezes à frente do placar contra o Japão e perdeu a chance de matar a partida com finalizações muito ruins no segundo tempo. Keisuke Honda, aos 33 minutos da etapa final, empatou para os asiáticos, na partida que poderia classificar Senegal. Naquele mesmo jogo, levou três cartões amarelos, o que também seria um problema na última rodada.

O empate era o bastante contra a Colômbia. E Senegal fez um jogo em marcha lenta, cauteloso, mais uma vez defendendo mais do que atacando. Contou com uma postura surpreendentemente parecida dos colombianos, que precisavam vencer para passar. Mas Yerri Mina fez 1 a 0, de cabeça, e os africanos acabaram pagando caro pelo excesso de pragmatismo. Com a derrota do Japão para a Polônia, também pelo placar mínimo, houve empate geral com os japoneses: pontos, gols marcados, gols sofridos e confronto direto. A decisão foi para os pontos disciplinares, em que os asiáticos levaram vantagem.

No fim, apesar de ter ficado com a faca e o queijo na mão, Senegal foi eliminado no detalhe. Alguns cartões amarelos a menos, um gol a mais, um gol sofrido a menos, tudo isso poderia ter mudado a história. Mas o time sensação de 2002 ficou na fase de grupos.