Racing e River Plate abrem nesta quinta-feira um dos encontros mais pesados dos mata-matas da Libertadores neste ano. Um duelo de grandes proporções não apenas pela rivalidade entre os gigantes argentinos, mas também pela história que se reconta desde os primórdios da competição continental. São seis partidas anteriores entre os dois clubes no torneio, e com um histórico que privilegia La Academia. Nunca os racinguistas perderam para os millonarios na Libertadores. E, ainda melhor, duas das campanhas mais marcantes dos albicelestes na copa deixaram os oponentes pelo caminho.

Para ser campeão em 1967, o Racing encarou o River Plate quatro vezes. Vice-campeão da Libertadores no ano anterior, o clube de Núñez também havia ficou na segunda colocação do Argentino, mas foi o responsável por quebrar a invencibilidade da campeã Academia, que durava quase um ano. Já os primeiros confrontos pelo torneio continental aconteceram na fase inicial. Seis clubes dividiam a mesma chave e apenas os dois primeiros colocados avançariam. No Cilindro, os racinguistas iniciaram sua jornada com o triunfo por 2 a 0, gols dos ídolos Norberto Raffo e Humberto Maschio. Já no reencontro dentro do Monumental, o empate por 0 a 0 serviu para classificar as duas equipes.

Na segunda fase, Racing e River voltaram a se encarar. Os dois compartilhavam o quadrangular semifinal, que também contava com Universitario e Colo-Colo. Apenas o líder asseguraria o lugar na final. O novo empate sem gols no Monumental, abrindo esta etapa do torneio, não ajudou nenhum dos argentinos. Contudo, o Racing se recuperou na sequência da competição. Chegou na última rodada disputando com o Universitario a vaga na decisão. Para tanto, a Academia precisava ratificar sua vantagem sobre os peruanos na tabela, derrotando o River em Avellaneda. E assim se cumpriu: Raffo balançou as redes duas vezes, enquanto Juan José Rodríguez anotou o outro gol no triunfo por 3 a 1. Resultado memorável aos albicelestes.

Contra o Nacional, na decisão, o Racing consagrou a famosa “Equipo de José” (como era conhecido o time treinado por Juan José Pizzuti) e conquistou o título continental. Depois, os racinguistas ainda se tornaram os primeiros argentinos a faturar o Mundial Interclubes, superando o Celtic para ficar com a taça. E se fez história o time de Roberto Perfumo, Agustín Cejas, Alfio Basile, Juan Carlos Cárdenas e outras lendas, o River também merecia respeito, mesmo sem acumular taças tão importantes. Nomes como Amadeo Carrizo, Hugo Gatti, Roberto Matosas, Daniel Onega, Oscar Más e Luis Cubilla integravam o elenco no período.

Em 1988, uma história paralela. Os dois argentinos voltaram a se encontrar por uma competição internacional, desta vez a recém-criada Supercopa da Libertadores. O River havia conquistado a América dois anos antes, enquanto o Racing sustentava um jejum nacional que perdurava por mais de duas décadas. No entanto, treinado pelo mesmo Basile, campeão em 1967, os racinguistas se dariam melhor. A vitória por 2 a 1 no Cilindro abriu o caminho, enquanto o empate por 1 a 1 no Monumental valeu a classificação. Néstor Fabbri foi o herói, com um gol nos instantes finais. Já na decisão, a Academia ergueu a taça ao superar o Cruzeiro.

Por fim, os duelos mais recentes pela Libertadores aconteceram em 1997. Vice-campeão do Apertura, o Racing foi apenas terceiro colocado na fase de grupos do torneio continental, mas o regulamento da época garantiu sua classificação. Deu de cara já nas oitavas com o River Plate, campeão sul-americano no ano anterior. A ida, no Cilindro, foi bastante aberta. A Academia de Coco Basile (de volta ao cargo) esteve duas vezes em vantagem, com gols de Gastón Córdoba e Claudio Úbeda. No entanto, Ramón Díaz tinha um esquadrão a seu serviço em Núñez e, depois de empatar duas vezes, com Marcelo Gallardo e Enzo Francescoli, buscou a virada antes do intervalo graças a Roberto Montserrat. Apesar das dificuldades, o Racing arrancou o 3 a 3 já no fim do segundo tempo, de novo com Úbeda.  Não era o resultado dos sonhos aos albicelestes, mas dava sobrevida ao reencontro no Monumental.

Independentemente da pressão da torcida da casa, Esteban Fuentes abriu o placar para o Racing aos dois minutos. Já aos oito, o River Plate empatou com um tento espetacular de Francescoli. O craque fez fila na defesa adversária e, com um toque sutil, encobriu o goleiro Nacho González. Contando com o retorno de Marcelo Salas ao ataque, os millonarios pareciam mais fortes. Só que a expulsão de Gallardo aos 38 minutos, acertando a sola da chuteira no rosto de Carlos Mac Allister, atrapalhou bastante os planos. Com um a menos, os anfitriões não conseguiram a virada, por mais que Úbeda também tenha sido expulso do outro lado já no fim do segundo tempo. E, com o empate por 1 a 1 prevalecendo até o fim, os pênaltis se tornaram carrascos justamente ao Príncipe. Francescoli desperdiçou o único chute da noite, parando em Nacho González. A vitória por 5 a 3 botou a equipe de Avellaneda na fase seguinte. Caíram apenas nas semifinais, superados pelo Sporting Cristal.

Somente depois disso é que o River daria sua resposta contra o Racing nos torneios da Conmebol. Ganhou os dois jogos pela fase de grupos da Supercopa de 1997 e os dois pela fase de grupos da Mercosul de 1999. Já na primeira etapa da Sul-Americana de 2002, a Academia deu o troco, eliminando os millonarios. Dezesseis anos depois, o reencontro acontece. E Gallardo, atual comandante em Núñez, sabe muito bem o tamanho da sina que precisará quebrar para escrever uma história diferente.