É como o título está dizendo: nunca foi tão fácil e nunca foi tão difícil escrever uma coluna. Fácil porque o tema está claro. Não há jogos envolvendo clubes holandeses. Não há interesse, porque a Copa do Mundo está para começar – sem a Holanda. Nenhuma ocasião melhor para que eu decidisse concretizar algo que já estava nas minhas ideias: encerrar a coluna. Sim, não haverá mais textos semanais sobre futebol holandês na Trivela. Decisão única e exclusivamente pessoal que tomei, após quase dez anos.

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E é exatamente por isso que também nunca foi tão difícil escrever uma coluna. Afinal de contas, na Copa este espaço já ficaria obviamente inativo – mas depois da final no Luzhniki, em Moscou, eu ficarei sem precisar pensar qual será o tema para o texto da sexta-feira seguinte. Não precisarei mais me desesperar com a pressão de pensar que a coluna precisa manter o nível, precisa estar tão boa quanto as passadas – pressão tão forte que me fazia adiar a hora de começar a digitar e, não raro, fazia com que eu começasse tarde da noite, na quinta-feira, entregando a coluna na madrugada de sexta, horas antes da publicação.

Por sinal, este é um dos motivos pelos quais decidi encerrar a coluna aqui. Felizmente, a pressão sempre terminou surtindo êxito: modéstia às favas, os textos sempre foram amplamente elogiados. Era até motivo de surpresa para mim: escrever colunas sobre a crise no Roda JC, ou sobre o intrincado regulamento da repescagem de acesso/descenso que a segunda divisão tem, ou sobre a enésima crise do Ajax, pensando “ninguém vai ler”… e encontrar gente comentando. Qualquer coisa. Mesmo que fosse um assunto em “off”, nunca vi um leitor criticando a suposta inutilidade do assunto. E vi alguns leitores elogiando a qualidade dos textos. Tudo isso muito me alegra.

No entanto, esta coluna é publicada há quase dez anos (desde 22 de agosto de 2008, para ser mais preciso). Dez anos: a tal da “data redonda”, um bom momento para fazer reavaliações. E há outras prioridades que aparecem na vida da gente. Por elas, talvez a coluna precisasse “cair de nível”, por deixar de ser o ponto principal. Eis aí o primeiro motivo: baseado em Edwin van der Sar, o principal responsável indireto por eu acompanhar o que se refere a futebol na Holanda, decidi ser melhor parar deixando saudades do que parar fazendo as pessoas festejarem por isso. Até lembrando de momentos ruins que vivi – como ter interrompido a coluna por razões particulares, duas vezes (entre março e maio de 2010, e entre abril e junho de 2011) -, decidi que agora a interrupção seria feita em definitivo. E de modo profissional, tendo cumprido a obrigação de acompanhar o que ocorria nas Eredivisie e Jupiler League da vida.

Outro motivo é a mudança de perfil por que a Trivela passou, em relação a colunas. Quando comecei a escrever para o site, em 2008, elas eram o grande sustentáculo do site. Cada campeonato tinha o seu “representante” (para citar exemplos de gente conhecida: Leonardo Bertozzi escrevia sobre futebol italiano, Ubiratan Leal sobre futebol espanhol, Gustavo Hofman escrevia sobre futebol russo/ucraniano etc.). Sem contar colunas sobre as copas continentais europeias, sobre as eliminatórias da Copa, sobre dicas culturais… enfim, havia colunas para tudo.

O tempo passou, e tudo mudou. Hoje, o site é mais geral. Não há a necessidade de esperar o colunista abordar determinado assunto de determinado país: ele já pode ser abordado no dia. Pessoalmente, comecei a achar que a minha coluna “sobrava”. Além do mais, já criei meu próprio espaço: o Espreme a Laranja (que também passará por uma pausa, por razões particularmente profissionais, mas seguirá no Twitter – e voltará tão logo seja possível). Não havia mais necessidade de me manter apegado a esta coluna, se eu tinha um lugar onde poderia falar de futebol holandês, num ritmo mais “próprio”. Quando a Holanda motivasse interesses no futebol, já haveria quem falasse sobre isso.

Por esses dois motivos (achar que a coluna já deu o que tinha de dar, após dez anos, e por ter um blog próprio), ela será encerrada. Mas não é nada triste, até porque o motivo dela existir ainda segue comigo: a paixão pelo futebol holandês. Paixão bem maltratada (risos), mas que é daquelas persistentes. Até porque virou uma coisa muito própria. Engraçado lembrar: no curto tempo em que Leonardo Bertozzi foi titular da coluna, entre 2006 e 2008, eu lia as colunas, gostava delas, comentava nelas como qualquer leitor. E achava que o atual comentarista dos canais ESPN gostava de futebol holandês e belga tanto quanto eu – vale lembrar, até 2012 a coluna era dedicada aos dois países do Benelux.

Foi uma coisa “estranha” ver que Bertozzi não ligava tanto (tudo bem, a culpa não é dele – risos). Mas tão logo assumi a coluna, decidi que eu me aprofundaria no acompanhamento do(s) país(es). Aprendi a falar holandês, comprei livros, visitei a Holanda três vezes, e tudo isso valeu para que eu ver que a principal razão para não darem importância ao futebol holandês é verdadeira e inquestionável: mesmo nos tempos áureos dos Ajax e PSV da vida, mesmo quando brilhavam lá os Cruyff e Van Basten e Romário e Bergkamp e Ronaldo e Van Nistelrooy da vida, a Eredivisie já tinha baixo nível técnico. Ou você leva realmente a sério um campeonato cujo placar com mais gols em sua história foi um… 9 a 5 (Feyenoord x Ajax, em 28 de agosto de 1960)?!

Eu não levo tanto. Mas tudo bem. Eu gosto dele assim mesmo. E gosto de ver que respeitam essa curtição. Por isso, neste final, só resta imitar o que Leonardo Bertozzi escreveu em sua coluna derradeira sobre futebol italiano, em 2011, ao ficar definitivamente na ESPN em que estava desde 2009.

Por cada defesa de Van der Sar…

Por cada jogada classuda de Bergkamp…

Por cada genialidade de Johan Cruyff…

Por cada arrancada de Robben…

Por cada gol de Van Persie…

A coluna agradece aos leitores pelos dez anos! A coluna agradece a todos com quem interagiu e interage na Trivela – de Leonardo Bertozzi a Ubiratan Leal, passando por Gustavo Hofman, Ricardo Espina, Caio Maia e Mayra Siqueira, até os três da atualidade: Felipe Lobo, Bruno Bonsanti e Leandro Stein! Muito obrigado!