Alfredo Pacheco nunca fez muita fama no futebol internacional. O lateral rodou pelos principais clubes de El Salvador e chegou a ter fugaz passagem pelo New York Red Bulls. Seu maior feito é o de deter o recorde de partidas pela seleção salvadorenha, com 86 aparições entre 2002 e 2013 – um número que poderia ser maior, não fosse o seu banimento do futebol naquele ano, punido por se envolver com manipulação de resultados. Neste domingo, porém, Pacheco figurou nos noticiários de todo o mundo. O veterano de 33 anos foi baleado por um assaltante durante a madrugada, enquanto conversava com um grupo de amigos em um posto de gasolina.

O crime na cidade de Santa Ana está sendo investigado, já que o assassino ainda não teve a identidade reconhecida. De qualquer maneira, serve também para expor a dura realidade de El Salvador. O país vive uma onda de mortes assustadora. Apenas em 2015, o número de pessoas assassinadas no território cresceu 55% em relação ao último ano. Segundo a polícia, já são 6.068 vítimas até o momento. Em um país com 6,4 milhões de habitantes, são quase 94 assassinados a cada 100 mil pessoas. Supera como país mais violento do mundo a vizinha Honduras – que também teve um jogador da seleção assassinado há três semanas, o volante Arnold Peralta. A média per capita dos salvadorenhos é quase quatro vezes maior que a registrada no Brasil, por exemplo. Países em guerra (declarada) não entram na conta.

Em agosto, El Salvador chegou a registrar 220 homicídios em apenas uma semana, em episódio chamado de “os dias mais violentos do século”. Segundo as autoridades salvadorenhas, os números cresceram por causa do fim da trégua entre o governo e as duas maiores gangues criminosas do país, estabelecida em 2012. Entretanto, quem paga o preço da guerra com a vida são os civis. Até agosto, apenas 1,5 % dos mortos eram policiais ou militares, segundo dados do Instituto Médico Legal. E os membros das quadrilhas passaram a propositalmente atacar a população, tanto para amedrontá-la quanto para pressionar a presidência. Por exemplo, motoristas de ônibus foram sistematicamente mortos, visando prejudicar o transporte público local.

El Salvador possui forte movimentação do tráfico de drogas, tanto como rota aos Estados Unidos quanto para o consumo interno. O dinheiro ilegal alimenta o conflito também entre as gangues locais – uma delas, originada a partir de criminosos deportados de Los Angeles. Além disso, as taxas de assalto e de extorsão são alarmantes. Um medo que toma a população, com porte de armas e forte presença de seguranças particulares. E o abuso da violência por parte da polícia ainda contribui para o banho de sangue, sem surtir efeito algum nos números: 95% dos crimes não tem solução.

Por ser um jogador famoso no país, talvez a morte de Pacheco entre para os 5% das estatísticas. Mas não deixa de ser um símbolo da realidade aterrorizante que os salvadorenhos atravessam em seu cotidiano.