Apenas três dias depois de uma final de Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro viveu o seu reinício. Muita gente compartilhava a ressaca pós-Mundial e até certa depressão de não experimentar mais a enxurrada de partidas que acontecia na Rússia. A Série A, entretanto, conseguiu oferecer uma boa dose de ânimo neste retorno, principalmente por aquilo que ocorreu no Maracanã. Mais de 56 mil nas arquibancadas deram voz a um jogo movimentado e tenso. Foram várias chances de gol, confusões, correria, alternância de momentos, luta pelo resultado. Mas ao final, pesou o bom trabalho do São Paulo, que abriu o placar no início do segundo tempo e segurou o Flamengo no restante do tempo para comemorar a vitória por 1 a 0. Resultado imenso aos tricolores, que assumem a segunda colocação e ficam a apenas um ponto dos líderes rubro-negros no topo da tabela.

Não foi um primeiro tempo de tantas chances de gol claras, mas contou com muita velocidade. O Flamengo começou pressionando, o São Paulo conseguiria responder de maneira mais contundente a partir dos 15 minutos e os rubro-negros voltaram a crescer pouco antes do intervalo, inclusive com uma cabeçada de Lucas Paquetá estalando o travessão de Sidão. O Fla tinha muito mais posse de bola e acuava os adversários, mas dependeu do jogo aéreo para criar os seus melhores lances. Já o São Paulo explorava os contra-ataque e criou algumas boas oportunidades, embora não tenha feito as melhores escolhas nas conclusões. Uma pena só a maneira como a arbitragem atravancava o confronto, com o juiz Paulo Roberto Alves Júnior tendo seus arroubos de autoritarismo que não impunham respeito em ninguém, entre faltas desnecessárias e bate-bocas.

Na segunda etapa, o São Paulo entrou em campo mais atento e marcou o gol logo aos dois minutos, em cruzamento de Joao Rojas para Everton escorar de peixinho. Vaiado pela antiga torcida, o ponta ia à forra, apesar de sua preferência por não comemorar. O jogo manteve o ritmo, entre um Flamengo que tinha volume de jogo e pressionava bastante, mas encontrava dificuldades para se infiltrar na área adversária (com Marlos Moreno bobeando quando conseguiu fazer isso), e um São Paulo que se defendia bem, achando muitos espaços para os contra-ataques, ainda que sem concluí-los da melhor maneira. Já nos minutos finais, o Fla partiu com tudo. Todavia, mesmo com dois atacantes de área, pecou demais nas finalizações e precisou aceitar a derrota.

Dois jogadores em especial saem como personagens da noite no Maracanã. Dois estrangeiros e novatos, fazendo suas estreias oficiais no Brasil. Pelo São Paulo, Joao Rojas deixou uma ótima impressão. O equatoriano é um jogador incisivo, e já tinha mostrado isso algumas vezes com a seleção do seu país. Nesta quarta, deu verticalidade aos tricolores, incomodando demais na ponta direita. Quase marcou um belo gol no primeiro tempo, ao parar em Diego Alves, e deu o cruzamento para Everton decidir na volta do intervalo. Além disso, faria outra jogadaça que quase complicou o Flamengo, até se sentir uma lesão na coxa. Logo depois, os rubro-negros promoveram a estreia do colombiano Fernando Uribe, referendado pelos bons números com o Toluca. O reforço apresentou seu bom posicionamento, só que perdeu duas grandes chances. Na primeira, uma finalização bisonha para fora, antes que a cabeçada correta parasse em boa defesa de Sidão. Depois disso, perdeu certa confiança dos companheiros e em si mesmo, jogando fora um ataque rápido que poderia ser mais prodigioso ao Fla.

Ainda entre os destaques positivos, menção a Nenê, que fez muito bem o seu trabalho na linha de frente. Quando o time tinha a vantagem, soube prender a bola, esfriar o jogo, comandar a sua equipe. Foi complemento a um esforçado Diego Souza. Já na defesa, Anderson Martins teve exibição segura para garantir o resultado. Pelo Flamengo, Diego e Lucas Paquetá chamaram a responsabilidade em diversos momentos, embora tenham caído na pilha da noite. Paolo Guerrero, por sua vez, não causou o impacto que se aguardava neste retorno da Copa do Mundo. Brigou com a defesa e tentou abrir espaços, só que não aproveitou sua melhor oportunidade, já nos minutos finais, quando cabeceou para fora.

Na saída de campo, talvez a única unanimidade fosse a arbitragem ruim. Paulo Roberto Alves Júnior fazia muita pirotecnia em seus gestos, sem qualquer imposição sobre os jogadores. As discussões e as trocas de acusações foram frequentes, sobretudo nos minutos finais. O árbitro inverteu marcações e apitou vários lances inexistentes. Não coibiu os entreveros e muito menos o tempo gasto. Parecia não adotar o mesmo critério e ouvia reclamações de ambos os lados. O símbolo maior das lambanças fica ao redor de Araruna. O jovem são-paulino ganhou um amarelo ao entrar em campo sem a autorização de Alves Júnior e, nos instantes finais, terminou expulso por uma disputa de bola no campo do São Paulo. Apesar da bronca, os tricolores acabaram levando o resultado para casa.

Obviamente, há problemas de falta de ritmo no Brasileirão. Os dois times concederam seus espaços, principalmente o Flamengo. Por outro lado, durante os avanços ao ataque, havia dificuldade nas triangulações e nos passes finais. Fisicamente, os jogadores também sentir. Do lado do São Paulo, os três substituídos reclamaram de dores, inclusive com Jucilei dando lugar a Liziero no primeiro tempo. E as cãibras tomaram conta do Maracanã, com vários jogadores sofrendo com a exigência enorme depois de um mês de marasmo. Durante os minutos finais, percebia-se certo cansaço, com as chances aparecendo mais no abafa do que propriamente na intensidade durante a criação.

Independentemente dos problemas vistos no Maracanã, a celebração é do São Paulo. O time de Diego Aguirre chega aos 26 pontos, um a menos que o Flamengo. Além disso, a tabela logo abaixo embola. O Grêmio venceu o Atlético Mineiro por 2 a 0 e, completando o G-4, ambos estão agora com 23. Promessa de uma disputa mais acirrada na competição, que tem ainda possíveis candidatos ao título prontos a entrar em campo na quinta, com direito aos clássicos entre Santos x Palmeiras e Vasco x Fluminense. Que o nível técnico não seja dos melhores, ninguém pode reclamar da emoção que o Brasileiro proporciona.