Terminada a Copa do Mundo da Rússia, as atenções dos que acompanham o principal torneio de seleções do planeta se voltam para o Catar e sua preparação cercada de polêmica para recebe-lo em 2022. Uma das críticas recorrentes é a falta de tradição do país no jogo. Sem nunca ter se classificado para um Mundial, a maior glória dos catarianos no futebol, no entanto, traz histórias interessantes e pouco lembradas. Em 1981, em sua primeira competição fora da Ásia, a seleção sub-20 do país se sagrou vice-campeã mundial da categoria, sob o comando do brasileiro Evaristo de Macedo e derrubando favoritos – inclusive o Brasil.

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O futebol chegou ao Catar por meio dos mesmos agentes, mas num período de tempo bem mais tardio do que a maioria do mundo ocidental. Protetorado do Reino Unido entre 1916 (quando da fragmentação do Império Otomano no contexto da Primeira Guerra Mundial) e 1971, o pequeno emirado foi apresentado ao jogo apenas no fim da década de 1940, por meio de funcionários britânicos das empresas que na época iniciavam a exploração de petróleo no país.

Os primeiros clubes surgiram a partir de 1950, e dez anos depois foi criada a federação local, que instituiu uma liga em 1963 e filiou-se à Fifa em 1970, mesmo ano em que pela primeira vez uma seleção do país entrou em campo. Após ganhar experiência participando dos torneios regionais, o time do Catar disputou pela primeira vez uma Eliminatória de Copa do Mundo em 1977, no torneio de classificação para o Mundial da Argentina, caindo logo na fase preliminar.

Em fevereiro de 1981, quando carimbou seu passaporte para o Mundial de Juniores da Austrália, a seleção do Catar tinha, portanto, pouco mais de uma década de existência. A rápida evolução teve o auxílio dos vários treinadores brasileiros recrutados pela federação para trabalhar nos clubes e na equipe nacional. Um deles foi Evaristo de Macedo, lendário ex-atacante revelado pelo Madureira e que brilhou no Flamengo, Barcelona, Real Madrid e Seleção Brasileira nos anos 50 e 60, e que havia chegado ao país no início de 1980, vindo de um bom trabalho no Santa Cruz.

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Evaristo era escudado por um grupo de compatriotas, alguns já conhecidos do futebol brasileiro e outros ainda iniciantes e que só mais tarde fariam seu nome. Seu auxiliar era Jaime Valente, ex-zagueiro do Flamengo nos anos 60 e que teve passagem como técnico rubro-negro em 1978, no lugar do licenciado Cláudio Coutinho. O médico era o Dr. Luiz Gallo, ex-America, Vasco e Fluminense. E o preparador físico era um jovem que só se tornaria conhecido do público brasileiro no fim da década seguinte: um certo Oswaldo de Oliveira.

Em julho, três meses antes do Mundial, Evaristo traria o time do Catar ao Brasil para uma extensa fase de treinamentos e preparação em Teresópolis e no Rio de Janeiro, enfrentando equipes brasileiras em jogos-treino que serviram de aprendizado técnico e tático. O time chegou a jogar contra a Seleção Brasileira que estaria no torneio, sendo derrotado por 3 a 1. E quase perderia também o treinador, já que Evaristo estava disposto a aceitar uma proposta do America. Mas, sem conseguir a liberação dos dirigentes do emirado, acabaria permanecendo.

Com um ano e meio desde o início do trabalho de Evaristo, o time apresentava um bom padrão de jogo, calcado num estilo veloz e ofensivo, de passes curtos e objetivos, sempre para a frente. O desenho tático era um clássico 4-3-3, alternando ao 4-4-2, com o apoio sendo feito de preferência pelo flanco direito, pelo qual descia o lateral Mohamed Al-Suwaidi. Além do trio de frente formado pelos pontas Ali Zaid e Khalid Salman e pelo centroavante Badr Bilal, outro destaque era o goleiro Ahmed Yunes, muito ágil e sempre acionado como último recurso de outra arma tática bem marcante daquela equipe: a linha de impedimento.

Sediado no Grupo A, em Brisbane, o time estreou em 3 de outubro e começou surpreendendo ao bater a Polônia por 1 a 0. Contou com um tanto de sorte no lance do gol, é verdade: aos 37 minutos do primeiro tempo, Boguszewski tentou espanar uma bola dentro da área, mas acabou chutando nas pernas de Badr Bilal. A bola pegou efeito e tomou o caminho das redes. Mas quando os poloneses tentaram reagir, caíram sempre na linha de impedimento dos asiáticos, com Ahmed Yunes atuando quase como um goleiro-líbero.

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A defesa em linha às vezes expunha a equipe a riscos, como aconteceria no jogo seguinte, três dias depois, diante dos Estados Unidos, que abriram o placar no primeiro tempo numa jogada do atacante Mark Devey. O jogador recebeu nas costas da retaguarda asiática e avançou para bater cruzado, vencendo Ahmed Yunes. Mas o Catar empataria num gol polêmico, em que não ficou claro se a bola chutada por Badr Bilal foi salva pelo goleiro Craig Scarpelli antes de cruzar a linha. O lance foi validado pelo árbitro etíope, e os asiáticos somaram mais um ponto.

Na última rodada, o adversário foi o já classificado Uruguai, que poupou alguns de seus principais jogadores (como Enzo Francescoli e Carlos Aguilera), mas mesmo assim venceu por 1 a 0, gol do atacante Jorge Villazán no início da etapa final. Apesar de terem perdido o goleiro Ahmed Yunes lesionado logo aos seis minutos, os catarianos equilibraram o jogo e criaram muitas chances, especialmente pelo lado direito com o apoio constante do lateral Al-Suwaidi. Tiveram ainda a chance do empate num pênalti, mas o meia Khalfan chutou para fora.

Mesmo com a derrota, o time de Evaristo de Macedo avançou às quartas de final como segundo colocado do Grupo A. O Uruguai, que venceu seus três jogos, terminou na liderança. Nas outras chaves, Brasil e Romênia ficaram com as vagas na B, deixando Coreia do Sul e Itália (esta, com três derrotas) para trás. Na C, Alemanha Ocidental e Egito passaram, ficando México e Espanha. E na D, Inglaterra e a dona da casa Austrália eliminaram Argentina e Camarões.

Uma das favoritas ao título, a Seleção Brasileira era comandada pelo ex-centroavante Vavá, que acumulava o cargo com o de auxiliar de Telê Santana na equipe principal. No elenco, alguns jogadores que chegariam a disputar Copas do Mundo pelo Brasil. Era o caso do zagueiro Mauro Galvão (do Internacional) e de dois outros que também estariam no Mundial do México, dali a seis anos, mas em posições diferentes: o volante bugrino Júlio César (mais tarde, zagueiro) e o meia-direita botafoguense Josimar (mais tarde, lateral-direito).

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Além deles, vários jogadores com extensa carreira em grandes clubes do futebol brasileiro, como o goleiro Pereira, os laterais Paulo Roberto e Nelsinho, o meia Leomir, o ponta-direita Cacau, o centroavante Ronaldo Marques e o ainda muito jovem armador Geovani – que não seria utilizado, mas arrebentaria dali a dois anos no Mundial seguinte da categoria. Também integrava aquela equipe o ponta-esquerda Djalma Baía, revelação do Matsubara que viria a falecer dois anos depois em acidente automobilístico quando defendia a Portuguesa.

Seria exatamente esta Seleção Brasileira que cruzaria o caminho dos catarianos nas quartas de final, num jogo histórico para o futebol do pequeno emirado. Apertando a saída de bola e marcando individualmente (o que irritou os jogadores brasileiros), o time do Catar abriu o placar aos 10 minutos, quando o zagueiro Luiz Antônio não conseguiu cortar um lançamento, e a bola sobrou para o atacante Khalid Salman, que vinha na corrida e finalizou sem chances para Pereira.

O Brasil empataria aos 28 com Ronaldo Marques. O centroavante do Flamengo recebeu passe de Josimar e encheu o pé acertando o ângulo do estático Al-Majed, o substituto do lesionado Ahmed Yunes no gol. Mas no começo da etapa final, o Catar passou à frente outra vez após ótima jogada do ponteiro Ali Zaid: o camisa 12 desceu pela direita, driblou Mauro Galvão e limpou toda a defesa brasileira, antes do chute forte de Khalid Salman, que marcou seu segundo gol.

A Seleção Brasileira voltou a empatar aos 34, novamente com Ronaldo Marques, cabeceando firme uma cobrança de escanteio após saída em falso de Al-Majed. Mas cinco minutos depois, o árbitro marcou pênalti para o Catar num toque com o braço do zagueiro Luiz Antônio. Khalid Salman se apresentou e chutou no canto oposto de Pereira, marcando pela terceira vez na partida e concretizando uma improvável vitória dos catarianos.

Mas o jogo terminou em confusão: revoltado com a arbitragem (que também havia anulado outro gol de Ronaldo Marques), o jornalista Orlando Duarte, chefe da delegação brasileira, invadiu o gramado para tirar satisfações com o árbitro, acompanhado por alguns jogadores (que acabariam levando um gancho da Fifa para partidas internacionais), e sob vaias da torcida australiana.

Nos outros jogos das quartas, a Romênia também surpreendeu ao eliminar o favorito Uruguai, enquanto a Alemanha Ocidental despachava a Austrália e a Inglaterra batia o Egito numa virada espetacular. A exemplo de outras seleções europeias, os ingleses tiveram de reformular por inteiro sua seleção entre a conquista da classificação e a disputa do Mundial devido ao fato de muitos clubes se recusarem a ceder os jogadores com a temporada nacional já em andamento. Sem grande badalação, chegaram às semifinais – e teriam pela frente a zebra catariana.

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No Cricket Ground, de Sydney, o Catar abriu o marcador logo aos 12 minutos com um golaço de meia-bicicleta de Badr Bilal. Na etapa final, aos 17, o ponta Ali Zaid invadiu a área inglesa pela direita, livrou-se da marcação e bateu para ampliar. Esbarrando na linha de impedimento do adversário, a Inglaterra só descontou aos 25, com o atacante Mike Small aproveitando rebote de Ahmed Yunes. E a partida ainda teve um lance curioso: um gol de pênalti do Catar foi anulado depois que o mesmo jogador acertou a trave e chutou o rebote para as redes.

Bastante resiliente na defesa, o time de Evaristo de Macedo conseguiu segurar a vitória que valeu a classificação histórica à final do torneio. O adversário seria a Alemanha Ocidental, que chegara à Austrália por linhas tortas: terminara apenas em nono lugar no Europeu Sub-18 de 1980 – o torneio que indicava os seis representantes do continente para aquele Mundial – e só acabou entrando em virtude da desistência da Holanda. Mas no meio do caminho mostrou força ao vencer a edição de 1981 da mesma competição, disputada em casa, em maio.

Naquela equipe alemã, apenas dois jogadores chegariam à seleção principal (o líbero Michael Zorc, nome histórico do Borussia Dortmund, e o atacante Roland Wohlfarth). Alguns teriam longa carreira em clubes, como o goleiro Rüdiger Vollborn, do Bayer Leverkusen. Mas nenhum deles chegaria a brilhar no futebol do país ou na Nationalelf. Por outro lado, era um time que primava por aspectos comumente citados para se referir ao estilo alemão de então: taticamente organizado, metódico e disciplinado, mentalmente forte, além de fisicamente muito robusto.

Estavam, portanto, mais preparados para encarar o gramado quase completamente alagado do Sydney Cricket Ground após o dilúvio que caiu no dia do jogo. Enquanto as trocas de passes do Catar invariavelmente paravam nas poças d’água espalhadas pelo campo, os alemães recorriam a lançamentos longos, que testavam a linha de impedimento dos asiáticos. Saíram na frente aos 28 minutos, com o camisa 10 Ralf Loose cabeceando uma cobrança de falta para a área, e ampliaram aos 42, com Wohlfarth lançado nas costas da defesa.

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Na etapa final, aproveitando-se do desespero dos asiáticos, os alemães criaram mais chances. Numa delas, a bola explodiu duas vezes no travessão de Ahmed Yunes e em seguida na zaga. O terceiro gol sairia de pênalti, cobrado por Loose, após outra jogada de infiltração na retaguarda catariana. E a quatro minutos do fim, pela terceira vez a linha de impedimento seria vencida, com Holger Anthes avançando em velocidade e chutando duas vezes para fechar a goleada.

Apesar de o Catar ter sido mais prejudicado pelas condições do gramado, a vitória alemã foi justa e indiscutível. O sonho dos asiáticos de levantarem um improvável título mundial acabou de maneira triste, mas a campanha já havia sido memorável, marcando a história do torneio. Três anos depois, ainda comandados por Evaristo de Macedo e contando com alguns dos destaques daquele Mundial (como o lateral Al-Suwaid e os pontas Ali Zaid e Khalid Salman), o Catar disputou o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, chegando a arrancar um empate em 2 a 2 com a França, futura medalhista de ouro, na partida de estreia.

Evaristo retornaria ao Brasil no início de 1985. Sem ele, o Catar cairia ainda na primeira fase das Eliminatórias asiáticas para a Copa de 1986 diante do Iraque (que ficaria com uma das vagas). Em 1992, o país voltaria a surpreender chegando às quartas do torneio olímpico de Barcelona. Três anos depois, sediaria o Mundial Sub-20, caindo na fase de grupos ao somar apenas um ponto. A classificação para uma Copa do Mundo, no entanto, seria um sonho mais distante.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.