Adversários nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia, nesta sexta-feira, Brasil e Bélgica se enfrentaram poucas vezes na história (e apenas uma vez em Mundiais, em 2002). Mas o primeiro confronto entre ambos é inesquecível para os dois lados. Em abril de 1963, em amistoso parte de uma excursão internacional, o escrete canarinho bicampeão mundial foi humilhado de modo surpreendente com uma goleada por 5 a 1 para os semiamadores belgas – ou “belgicanos”, como se referiu a eles o chefe da delegação brasileira, João Mendonça Falcão.

A goleada, pela maneira como foi construída, simbolizava uma transformação silenciosa pela qual o futebol começava a passar na Europa naquele momento, e que ficaria evidenciada na Copa do Mundo da Inglaterra, dali a três anos. Não por acaso, esta nova concepção teve grande influência de um belga, de quem falaremos mais adiante. O Brasil, entretanto, ainda demoraria um pouco para entender aquela simbologia, mas, no fim das contas, também se beneficiaria dela.

Bye Bye, Brasil

Em abril de 1963, com o cartaz de bicampeão mundial, menos de um ano após a vitória no Chile, e referendado por uma recente goleada de 5 a 2 sobre a Argentina no Maracanã pela Copa Roca, o Brasil embarcou para mais uma excursão periódica à Europa, com esticadas até a África e o Oriente Médio. No Velho Continente, assim como nas outras paradas da Seleção, a expectativa para ver os bicampeões era enorme. Por aqui, no entanto, a delegação deixou o país sob críticas a respeito de, entre outras coisas, os critérios de convocação.

Já pela estreia, ficaria nítido que os confrontos amistosos não seriam meras formalidades. A derrota para Portugal por 1 a 0 no estádio do Jamor, em Lisboa, foi ruim tanto pela atuação muito fraca quanto pelo resultado: o Brasil até então havia vencido todos os seus cinco jogos contra os lusos, que, por sua vez, nunca haviam jogado uma Copa. Mas foi um tanto relevada pelo bom momento do futebol dos patrícios, liderados pelo astro ascendente Eusébio e baseados no Benfica, então bicampeão europeu e às portas de mais uma final da Copa dos Campeões.

Em tese, o próximo adversário, três dias depois, representava perigo menor. Era a Bélgica, país de futebol ainda semiamador, mas com histórico regular de participações em Copas (nas cinco primeiras edições, ficara de fora apenas em 1950, quando não se inscreveu) e boas campanhas recentes nas copas europeias de clubes (o Standard Liège chegara às semifinais da Copa dos Campeões em 1961/62, enquanto o Anderlecht eliminara o Real Madrid na temporada seguinte).

Treinamento de força

Raoul Mollet

Naquele início dos anos 60, um belga que começava a ser comentado nos círculos futebolísticos europeus não defendia aquela seleção. Não era nem mesmo originário do futebol. Mas seus conceitos de preparação física expostos no livro “Power Training” (ou “Treinamento de Força”), lançado em 1961, começaram aos poucos a reverberar pelo continente. Raoul Mollet era um ex-pentatleta que competira nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, e Londres, em 1948, e que em meados daquela década de 1960 se tornaria o presidente do Comitê Olímpico belga.

“Estou convencido de que craques como Pelé, Di Stéfano, Puskas e Stanley Matthews, só para citar alguns, podem ser facilmente anulados por adversários que estejam preparados para correr o dobro. Por adversários que possam fazer do futebol um jogo em que a luta pela bola e pelos espaços do campo dependa, fundamentalmente, do fôlego apurado. Cuidando mais do aspecto físico, o atleta que tem menos talento estará em condições de superar, no plano tático, oponentes mais brilhantes”, afirmava Mollet em seu livro.

O ex-pentatleta e oficial militar da cavalaria havia começado a pôr em prática seu modelo de preparação, o qual chamava de “treinamento total”, a partir do fim dos anos 1950, quando aportou no Anderlecht, clube que na época começava a empreender um projeto ambicioso de revelar talentos. Um deles era o ponta-de-lança Paul Van Himst, considerado por muitos o maior jogador do país em todos os tempos, que contou em seu livro de memórias (“Confidences”, de 2009) em que consistiam alguns dos métodos empregados por Mollet.

“Antes de cada treino, recebíamos preparação de Raoul, que nos fazia trabalhar fisicamente de maneira intensa por 40 minutos. Havia de tudo nos exercícios dele: corrida com obstáculos, ginástica com cambalhotas e exercícios de musculação para a parte superior do corpo. Mollet também viu o benefício do descanso (…). Ele tinha ciência de que exercícios que demandavam força demais poderiam prejudicar músculos mais curtos. Daí em diante, trabalhou mais a flexibilidade, a agilidade e incentivou uma melhor alimentação. Tudo isso parece óbvio hoje, mas na época…”, relembrou o ex-jogador, que chegou ainda garoto à academia dos Mauves.

Se a novidade proposta por Mollet ainda levaria um pouco mais de tempo para ultrapassar as fronteiras belgas, à seleção nacional o estilo de preparação chegou rapidamente, especialmente pelo fato de que Constant Vanden Stock, ex-jogador do Anderlecht e ex-técnico das categorias de base do clube (do qual, mais tarde, seria presidente por um quarto de século), era agora o selecionador, tendo ao seu lado Arthur Ceuleers, ex-atacante do Beerschot e do Racing de Bruxelas, como treinador de campo.

Bicampeões à prova

O Brasil de 1963

Até aquele ponto, o Brasil não estava exatamente defasado em relação ao que se fazia no resto do mundo em termos de trabalho físico. Muito pelo contrário: à frente dele na comissão técnica bicampeã na Suécia e no Chile estava Paulo Amaral, um dos pioneiros e mais competentes especialistas em preparação no futebol do país. Diplomado em Educação Física e também como técnico de futebol, Amaral, porém, não ocupava mais o cargo. Após a Copa de 1962, recebeu proposta para comandar a Juventus e seguiu para Turim.

No entanto, naquela tarde de 24 de abril de 1963, no estádio de Heysel, em Bruxelas, o escrete canarinho teria uma primeira – e dolorosa – percepção de que uma mudança significativa estava a caminho no jogo. A Seleção não teria Pelé, com uma distensão muscular sofrida contra Portugal, mas reunia um punhado generoso de grandes jogadores, quase todos campeões mundiais no Chile: Gilmar era o goleiro, com Djalma Santos e Altair nas laterais, o capitão Mauro de beque central e, ao seu lado na quarta zaga, o novato Cláudio, do Internacional.

Do meio para a frente, a equipe dirigida por Aymoré Moreira e acompanhada por Vicente Feola era um verdadeiro combinado Santos-Botafogo: Zito de volante, com Mengálvio substituindo o flamenguista Gerson com a camisa 8. Dorval e Zagallo atuavam pelas pontas, enquanto no miolo Amarildo retornava à ponta-de-lança, depois de ter sido centroavante contra os portugueses, e Quarentinha entrava no time vestindo a 9, numa decisão de última hora, quando outro novato, o corintiano Nei, era mais cotado para ser lançado.

Os belgas, por sua vez, tinham como base o Anderlecht, clube de seis titulares da seleção. Mas o goleiro Jean Nicolay e o lateral-direito Jef Vliers (atacante de origem) eram do Standard Liège. Na zaga, a dupla central era dos Mauves, com o meia recuado Martin Lippens, capitão do time, tendo ao seu lado Laurent Verbiest, o mais jovem do setor. Já pela esquerda, atuava Guillaume Raskin, do Beerschot. No meio, o volante organizador Pierre Hanon, outro do Anderlecht, tinha a companhia de Paul Van Den Berg, do Union Saint Gilloise.

Paul Van Himst, então com apenas 19 anos, já era o craque daquela equipe. E seu posicionamento é que definia o desenho tático da equipe: mais agudo, impulsionava o 4-2-4; recuando para armar, transformava-o em 4-3-3. Completavam a linha ofensiva os ponteiros Léon Semmeling (o terceiro do Standard) pela direita e Wilfried Puis pela esquerda, com o goleador Jacky Stockman atuando como homem de área – os dois últimos, também do Anderlecht.

Choque de realidade

Enfrentando um estádio lotado e vibrante, além de já pressionada pela má atuação em Lisboa, a seleção brasileira acabou engolida de maneira inacreditável pelo ritmo intenso dos belgas desde os primeiros minutos. Logo aos quatro, Semmeling foi lançado na direita nas costas da defesa e chutou sem chances para Gilmar, abrindo a contagem. O goleiro bicampeão mundial ainda se desdobrou para deter um chute venenoso do ponteiro Puis poucos minutos depois.

Aos 12 minutos, veio o segundo gol, quando Stockman caiu pela esquerda, passou por Djalma Santos e deu a Van Himst que, sem ser incomodado por Mauro, fuzilou Gilmar. Para aumentar o desastre, um minuto depois Altair tentou atrasar uma bola para o goleiro, mas, na indecisão, os dois se chocaram enquanto a bola ia de novo para o fundo das redes. Além de atarantado com a correria dos belgas, o time brasileiro sofria também com o jogo mais físico: Amarildo teve de deixar o campo por alguns minutos para ser atendido após sofrer falta dura de Lippens.

O pesadelo parecia sem fim quando veio o quarto gol belga aos 20 minutos, de novo marcado por Stockman, num contra-ataque após tabelar com Van Den Berg. Dois minutos depois, o Brasil tramou seu primeiro bom ataque, com Dorval ganhando de Raskin pela ponta direita e cruzando para Quarentinha, que ajeitou para Amarildo. Nervoso, o camisa 10 não calibrou bem o chute de fora da área, e Nicolay defendeu com facilidade. Só a um minuto do intervalo o Brasil descontou com Quarentinha aproveitando um cochilo da defesa belga num rebote.

Em sua crônica do jogo para o “Correio da Manhã”, o jornalista Achilles Chirol, um dos melhores analistas de então na imprensa carioca, destacou diversas vezes a velocidade dos belgas como decisiva para a vitória por tão larga margem, o que parecia dar razão às ideias de Raoul Mollet: “A velocidade imprimida às jogadas foi o que de melhor se viu no quadro local que, a rigor, não possui sistema definido, atacando e recuando na medida das necessidades. (…) A retaguarda brasileira, os quatro zagueiros, sem exceção, eram batidos seguidamente em velocidade. Nenhuma antecipação, cobertura falha, um verdadeiro descalabro”.

Na etapa final, os brasileiros voltaram com outro apetite e um pouco mais de organização, criando chances e sufocando os belgas, que se defendiam como podiam. Mas o segundo gol não saía. Os donos da casa se fechavam e tentavam os contra-ataques, porém não conseguiam passar do meio-campo. Até que, numa dessas tentativas, deu certo: aos 12 minutos, o ponteiro Puis apanhou uma bola na defesa e carregou em velocidade até a intermediária brasileira, passando por Djalma Santos e avançando a jogada até Stockman, que invadiu a área e bateu rasteiro para vencer Gilmar pela quinta vez.

Preparada para aplaudir os bicampeões mundiais durante o jogo, a torcida belga acabou vaiando o time depois que Cláudio interrompeu uma arrancada de Stockman com um puxão de camisa. Dali em diante, o Brasil desabou de vez e não conseguiu manter a pressão inicial daquela etapa. Quando tentava, os belgas fechavam a frente da área com até oito jogadores, deixando apenas Van Himst e Stockman na frente. Além disso, o cansaço começava a tomar conta, já que, por exigência da federação belga, não foram permitidas substituições a nenhum dos dois times.

O Brasil chegava a ter o domínio territorial na segunda metade da etapa final, mas não conseguia entrar na defesa adversária. Por outro lado, escapou de sofrer mais gols, como aos 38 minutos, quando Semmeling fez festa pelo lado direito do ataque, invadiu e atirou forte. A torcida chegou a se levantar, pronta para comemorar o sexto gol, mas o chute saiu alto, por cima. Ao apito final, o surpreendente massacre estava consolidado: Bélgica 5 a 1. Foi um resultado tão injuriante que os telefones da sede da CBD, na Rua da Quitanda (centro do Rio), não pararam de tocar, com dezenas de mensagens furiosas de torcedores.

Decodificando a mensagem

É verdade que, num plano geral, a Seleção Brasileira cumprira uma atuação particularmente desastrosa, aprofundando inúmeros erros já observados contra Portugal. Mas, de qualquer modo, a Bélgica, pouco expressiva que fosse, apresentava aos bicampeões mundiais o estilo de jogo – veloz e físico – que seria o predominante na Copa do Mundo da Inglaterra, dali a três anos. “Nota zero, portanto, para toda a equipe brasileira e, ainda que pareça incrível, pouco a destacar entre os belgas. Defesa viril, marcando atenta e rispidamente e ataque veloz, velocíssimo mesmo, e nada mais”, escreveu Chirol no encerramento de sua crônica, feita de Bruxelas.

Após aquela humilhação, o Brasil se recuperou ao bater a França em Paris por 3 a 2. Mas, até o fim, a excursão traria desempenho muito irregular: nas partidas contra seleções, houve a derrota para a também semiamadora Holanda em Amsterdã (1 a 0), a vitória sobre a Alemanha Ocidental em Hamburgo (2 a 1), o empate com a Inglaterra em Wembley (1 a 1) e a pesada derrota para a Itália no San Siro (3 a 0, um dos gols anotados pelo ítalo-brasileiro Angelo Sormani), antes do desfecho com duas vitórias sobre o Egito no Cairo (1 a 0) e Israel em Tel Aviv (5 a 0).

Dois anos depois, entretanto, as ideias de Raoul Mollet pareceram ter sofrido dois abalos: o primeiro foi a revanche dos brasileiros, ambicionada desde aquela tarde em Bruxelas, e enfim concretizada em um amistoso no Maracanã, em 2 de junho de 1965. Do time goleado em 1963, apenas Djalma Santos permanecia. E Vicente Feola voltava a ocupar sozinho o posto de treinador. Já no time belga, ainda dirigido pela dupla Constant Vanden Stock e Arthur Ceuleers, retornavam o goleiro Nicolay, o volante Hanon, o ponteiro Semmeling e o goleador Stockman.

Ausente na derrota de Heysel, Pelé acabou com o jogo. Marcou três vezes na goleada brasileira por 5 a 0, incluindo um golaço em que limpou três zagueiros antes de fuzilar Nicolay. E ainda deixou eternizado um lance que não terminou em gol, mas se tornaria icônico, ao completar um cruzamento de Garrincha (outro ausente dois anos antes) com uma bicicleta plasticamente perfeita. O centroavante Flávio “Minuano” e o ponta-esquerda Rinaldo completaram o placar.

E o segundo foi a não classificação da Bélgica para a Copa de 1966. Em seu grupo nas eliminatórias europeias, os Diabos Vermelhos derrotaram duas vezes Israel (1 a 0 em Bruxelas e 5 a 0 em Tel Aviv), golearam a Bulgária também em Bruxelas (5 a 0), mas perderam em Sófia (3 a 0), o que levou a um jogo extra, já que o saldo de gols não era considerado. Em Florença, em 29 de dezembro de 1965, os búlgaros venceram por 2 a 1 e ficaram com a vaga no Mundial.

Mas, se o discurso no vestiário brasileiro em Heysel após a derrota de 1963 era o de “aprender a lição dada pelos belgas”, ele já tinha sido completamente esquecido pela CBD na preparação para o Mundial da Inglaterra. A começar pela escolha do novo preparador físico (Paulo Amaral voltara, mas na função de auxiliar técnico): era o professor de judô Rudolf Hermanny, amigo de Amaral e sobrinho da esposa de João Havelange, então presidente da entidade e chefe da delegação.

O que se viu durante toda a preparação e já durante o Mundial foi uma série de problemas físicos. Nos treinos, Amarildo, Zito e Fidélis sofreram distensões (o primeiro acabaria cortado). A dez dias da estreia – como conta o jornalista Oldemário Touguinhó, na época repórter do Jornal do Brasil, em seu livro “As Copas que eu vi” –, a Comissão Técnica proibiu que os jogadores corressem e dessem arrancadas, temendo novos estiramentos musculares. “Então, em plena Copa de 66, a Copa da velocidade e da marcação dura, a gente não podia treinar piques!”, relembrou.

Houve ainda a questão tática, apontada pelo historiador Ivan Sóter no livro “Polêmica: o sabor agridoce do futebol”. Conta ele: “(…) a Copa da Inglaterra foi marcada pela confusão geral desde as convocações, realizadas para agradar a todos e que, no fim, não agradou a ninguém. Se tínhamos Pelé não precisávamos nos incomodar com os outros dez, nem com esquematizações táticas. Feola deixou-se levar pela bagunça e esqueceu o principal em seu samba de uma nota só: o papel que Zagallo exercera nas Copas de 1958 e 1962. A Seleção foi armada em um 4-2-4 com o meio de campo esvaziado, sendo jantada por magiares e portugueses”.

Somente durante as Eliminatórias para a Copa de 1970 é que a preparação física passaria a ser planejada de maneira apropriada pela Seleção Brasileira, com o trio de especialistas formado por Cláudio Coutinho, Carlos Alberto Parreira e Admildo Chirol (irmão de Achilles Chirol, já citado aqui). E, na altitude e no calor mexicanos, o Brasil sobraria em campo, com uma combinação de técnica, tática e fôlego nunca antes vista num Mundial – que, curiosamente, contou com o retorno dos próprios belgas após 16 anos, trazendo Van Himst, Semmeling e Puis como remanescentes da goleada histórica e divisora de águas em Bruxelas